Arrigo Barnabé estrela documentário preciso, mas pouco ousado

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Arrigo Barnabé faz "uma mistura danada, quase um samba dodecafônico", diz, em tom bem-humorado, a contrabaixista Ana Karina Sebastião, que o acompanha em suas apresentações.

É um dos melhores comentários sobre o compositor e cantor ao longo de "Amigo Arrigo", documentário que pega emprestado seu título de uma canção de Itamar Assumpção.

Com 70 anos completados em setembro, o paranaense de Londrina que mora em São Paulo há mais de meio século é tema do filme dirigido por Alain Fresnot e Junior Carone, que chega aos cinemas.

Impossível não falar da vanguarda paulista, talvez o acontecimento de maior impacto e influência da música brasileira depois da Tropicália. Arrigo é um dos expoentes do movimento, que despontou entre o final dos anos 1970 e o início da década de 1980, com nomes como Itamar, Premeditando o Breque e Língua de Trapo.

Em depoimento ao filme, Luiz Tatit --outro nome-chave da vanguarda como integrante do grupo Rumo-- fala sobre a capacidade daqueles músicos de produzir de forma independente, uma proeza naquelas circunstâncias. Comenta também outro ponto em comum, a incorporação da fala cotidiana ao repertório.

No entanto, Fresnot --diretor para quem Arrigo criou as trilhas sonoras de produções como "Lua Cheia" (1988) e "Ed Mort" (1997)-- sabe bem que a obra do compositor vai muito além das características que impulsionaram o movimento. O disco "Clara Crocodilo" (1980) é, por si só, uma revolução --o substantivo anda desgastado, mas aqui é usado sem exagero, no sentido de "mudança profunda, subversão".

Arrigo partia de referências dos programas de rádio, das histórias em quadrinhos e até da publicidade para compor letras desconcertantes. E o principal: ao usar o atonalismo, ou seja, uma música sem uma tonalidade preponderante, ele deixava de lado a melodia tal qual conhecemos, que pode ser memorizada com alguma facilidade.

Assim, unia signos da cultura pop e procedimentos da vanguarda erudita de um modo inédito na música popular feita no Brasil.

Interpretações recentes das músicas de "Clara Crocodilo", com Arrigo acompanhado de instrumentistas como Paulo Braga e Mário Manga, estão entre os pontos altos do documentário.

O filme também traz imagens preciosas de arquivo, como a apresentação da música "Sabor de Veneno" no festival da TV Tupi, em 1979, com Arrigo e sua banda (Itamar na guitarra) se divertindo no palco, mesmo sendo alvo de bolinhas de papel jogadas pelo público. E ainda o vídeo de 1995 com "Música para orquestra, quarteto de cordas e banda de rock", que unia Quarteto de Cordas, Orquestra Jazz Sinfônica e Patife Band.

Claro que tanta inventividade enfrentaria resistência de um público mais amplo. Depois de "Crocodilo", Arrigo teve que fazer, vez ou outra, "canção comum para pagar o aluguel", como diz no documentário. Mas ele é surpreendente mesmo em melodias românticas, como "Suspeito" ("Você tem medo de acordar com um bandido/ E ver no espelho escrito com batom/ - Tchau, trouxa, foi bom!").

Reconhecidos os trunfos do filme, é preciso ressaltar uma limitação. Ao apostar sobretudo em recursos convencionais da cartilha do documentário para falar de um artista tão ousado e inovador, "Amigo Arrigo" se apequena.

"Gosto de coisas estranhas", diz ele logo no início do filme de Fresnot e Carone. O documentário poderia ter se arriscado além dos depoimentos e dos trechos musicais para alcançar algo dessa estranheza na história que conta.

"Amigo Arrigo" é, de qualquer forma, um filme digno, um mosaico correto da trajetória de um dos gênios da música brasileira.

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AMIGO ARRIGO

Quando Estreia nesta quinta (4)

Onde Nos cinemas

Direção Alain Fresnot e Junior Carone

Link para trailer do documentário no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=cdV1eYj27sg

Avaliação: Bom

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