Army of the Dead: Invasão em Las Vegas - Crítica do Chippu

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2021 tem sido um ano bem agitado para Zack Snyder. O diretor lançou sua esperada versão de Liga da Justiça e agora, pela primeira vez em um longo tempo, tem a chance de criar um universo próprio em Army of the Dead: Invasão em Las Vegas, o primeiro produto de um universo compartilhado de histórias de zumbis na Netflix. É um retorno à forma para o cineasta que deslanchou fazendo um remake celebrado de Madrugada dos Mortos, e aqui ele está em casa.


Esse sentimento está presente em todo o filme. Snyder parece ter retirado pesos dos ombros e está correndo sem amarras. Os primeiros 15 minutos de Army of the Dead estabelecem como uma infecção zumbi tomou conta da cidade do pecado. Ao som de "Viva Las Vegas", o diretor cria uma sequência de abertura que conta toda uma história, apresentando e matando personagens, nos mostrando como o exército falhou em conter os mortos-vivos, a existência de uma barreira gigante de containers ao redor da zona de quarentena e a existência de um ecossistema ali dentro. É uma montagem primorosa, reunindo as principais características do seu autor e mostrando seu dinamismo.


Aqui, os zumbis não são simples. Há o tipo tradicional, lento, burro, uma ameaça apenas quando está em grandes grupos, O real perigo vem dos alfas. Estes mortos-vivos são inteligentes o suficiente para usar armas de curta distância, cavalgar e comandar hordas ou animais zumbis, como um tigre que ronda as ruas no perímetro da cidade procurando a próxima presa.


É neste ambiente que Scott Ward (Dave Bautista) deve entrar com sua equipe. O time procura realizar um roubo de US$ 200 milhões de um cofre num cassino abandonado. Para realizar a missão, o protagonista conta com a ajuda de um arrombador de cofres chamado Dieter (Matthias Schweighöfer), uma piloto de helicóptero excêntrica por nome de Peters (Tig Notaro), um ex-companheiro seu que usa uma serra-elétrica circular como arma chamado Van (Omari Hardwick), o youtuber matador de zumbis Mikey Guzman (Raúl Castillo) e sua filha distante, Kate (Ella Purnell). Tudo isso debaixo do financiamento de Tanaka (Hiroyuki Sanada), um bilionário cujos verdadeiros motivos para bancar essa operação estão escondidos.


É um palco brilhante para um filme. A ideia de misturar uma história de roubo com um ambiente pós-apocalíptico foi uma ótima sacada de Snyder, que constantemente aumenta a mitologia deste universo enquanto deixa a entender que há ainda mais para ser descoberto pela audiência. Se, por um lado, a construção de mundo de Army of the Dead é primorosa, na narrativa ele deixa a desejar. Os personagens ganham pelo menos alguns minutos para serem explorados e os atores entregam um trabalho de qualidade, particularmente Bautista, cada vez mais mostrando que é muito mais do que um brutamontes engraçadão.


Mas o roteiro nunca chega aos pés do universo proposto. Alguns arcos de personagens nunca são concluídos, deixando as histórias inacabadas e impedindo que nós realmente nos importemos com esse grupo de pessoas num nível mais profundo. Paralelamente, Snyder também desenvolve alguns zumbis alfas, apresentando mais de seu mundo e explicando as motivações deles, uma escolha que pode elevar Army of the Dead aos olhos de muitos espectadores, mas que parece estranha quando se há tantos humanos com potencial para serem memoráveis. Snyder deixa que cada um tenha seus 15 minutos de fama, mas abandona a maioria deles em favor de construir mais o ambiente no qual se encontram.


Sim, há pequenos momentos para cada um brilhar, mas esse parece ser o grande problema de Zack Snyder - ele cria momentos, porém nem sempre sabe interligá-los de uma maneira coerente e interessante. Talvez por isso montagens como a do começo de Army of the Dead (ou até mesmo da sua adaptação de Watchmen) pareçam ser o feijão com arroz dele. A exceção à regra é o relacionamento entre Scott e Kate, em grande parte por conta das ótimas atuações de Bautista e Purnell, e também pela maneira com a qual Snyder entende o relacionamento pai e filha, foge de conflitos e soluções óbvias pelos dois, e trabalha a dinâmica.


Por outro lado, essa capacidade de criar imagens marcantes é um grande fator na construção das cenas mais empolgantes de Army of the Dead. O roubo em si é um pouco decepcionante e não gera tanto interesse, mas há diversas situações com zumbis que saltam da tela, seja quando o grupo encara uma sala cheia de mortos-vivos hibernando e precisa avançar silenciosamente, ou quando entramos no prédio dominado pelos alfas e sua própria cultura. O já mencionado tigre também recebe os holofotes em determinada hora, e Snyder mais do que entrega um resultado satisfatório para a criatura.


Army of the Dead é uma garantia de diversão para quem curte o gênero de zumbis e quer ver alguém trazer uma visão nova e refrescante para o mesmo. O filme termina sendo muito longo, os últimos minutos perdem a coerência do roteiro e Snyder parece indeciso sobre qual deveria ser a última cena. Porém, tal qual a cidade em que passa, Invasão em Las Vegas é como um parque de diversão, um mundo fascinando o público simplesmente com seus visuais, tamanho e atrações. E assim como os brinquedos de tais locais, ele é capaz de acelerar seu coração, empolgar e fazer você suar, só não espere algo mais profundo.


Nota: 3/5