Argentina inaugura primeiro bairro transgênero do mundo

Raphael Andrade
·5 minuto de leitura
Foto: Divulgação/ Instituto Provincial de Vivienda y Urbanismo
Foto: Divulgação/ Instituto Provincial de Vivienda y Urbanismo

A cidade de Neuquén, na Argentina, é há pouco mais de um mês o lar do primeiro bairro trans do mundo. A conquista aconteceu graças a Irmã Mónica Astorga Cremona, superiora do Convento das Carmelitas Descalças de Neuquén. Ela não só liderou este projeto, como também toca diversas outras iniciativas a favor de pessoas trans em situação de vulnerabilidade.

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Inaugurado em 10 de agosto, o condomínio Costa del Limay é um edifício de dois andares localizado no bairro Confluencia, com seis apartamentos de 40 metros quadrados, um parque com horta e estacionamento, além de um salão de uso comum. Os apartamentos foram alocados à 12 mulheres trans entre 40 e 70 anos que viviam em estado de extrema vulnerabilidade.

Foto: Divulgação/ Instituto Provincial de Vivienda y Urbanismo
Irmã Mónica Astorga Cremona. Foto: Divulgação/ Instituto Provincial de Vivienda y Urbanismo

Em entrevista ao portal Linkiesta, Cremona afirmou que seu objetivo sempre foi cuidar dos menos favorecidos. "Sempre pensei que a minha oração e a minha vida deviam ter como objetivo cuidar daqueles que são descartados pela sociedade. Desde o primeiro dia, pedi a Jesus que me mostrasse os rostos e os nomes das pessoas. As mulheres trans vêm aqui para rezar e conversar e envolvem-se em alguns projetos, e eu me comunico por e-mail ou telefone com as pessoas para ajudar", disse ela.

Conhecida como a madre das mulheres trans em toda a Argentina, a freira acompanha há 14 anos mulheres transgêneros que buscam arranjar um emprego ou aprender um ofício, por isso, ela enfrenta forte oposição de diversos setores da igreja.

Porém, um dos apoiadores do projeto é ninguém menos do que o Papa Francisco, que disse à Cremona que "Deus a recompensaria abundantemente" ao responder um e-mail sobre a inauguração do complexo habitacional. Em entrevista à agência de notícias Telám, a irmã afirma que sempre teve muito apoio do pontífice, desde quando ele era arcebispo de Buenos Aires. “Ele nunca se opôs ao que faço e para mim é um grande apoio”, disse a freira.

O projeto de moradias demorou cerca de 3 anos para se materializar, e o resultado é um esforço conjunto do Instituto Provincial de Habitação e Urbanismo de Neuquén (IPVU) que realizou as obras e a Prefeitura de Neuquén, que cedeu o terreno. O montante total investido pelo governo da província foi de 27,6 milhões de pesos, pouco menos de R$ 2 milhões. O projeto é administrado pelo próprio monastério da freira.

“‘Elas não merecem ter uma casa’, disseram os que se opuseram ao projeto, e muitas pessoas estão esperando o fracasso desse projeto para continuar condenando as mulheres trans. Transgêneros também merecem viver em um lugar decente e não em quartos pequenos realmente desumanos”, disse a freira ao veículo LM Neuquén.

A travesti Alina Durso, conhecida no Twitter por defender pautas relacionadas a população trans comentou a iniciativa da freira:

Iran Giusti, organizador da Casa 1, centro de acolhida de jovens LGBT expulsos de casa pela família, centro cultural e clínica social no centro da cidade de São Paulo, comenta que, infelizmente, iniciativa como a de Irmã Cremona ainda são muito necessárias. "É uma iniciativa fundamental em muitas partes do mundo. A comunidade LGBT como um todo sofre ainda com o preconceito e a violência e quando se trata especificamente da população trans os números e a realidade são ainda pior. Não se trata apenas de uma marginalização, mas de uma lógica de extermínio desses corpos que são sistematicamente agredidos", diz ele.

De acordo com dados da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), o Brasil registrou 129 assassinatos de pessoas trans nos oito primeiros meses de 2020, com aumento de 70% em relação ao mesmo período do ano passado, e com mais assassinatos que em 2019 inteiro.

A Casa 1 em quase quatro anos de atuação recebeu mais de 350 jovens, onde cerca de 50 era trans. Além da acolhida, o trabalho tem como público prioritário a população trans com preferência no preenchimento de vagas em todos os cursos e aulas. Especificamente para as pessoas trans atendidas, o centro oferece o curso profissionalizante de maquiagem, a feira de empregabilidade trans e o mutirão de retificação de nome, ambos anuais.

Na avaliação de Giusti, a educação é um primeiro passo para começar a mudança deste cenário negativo para pessoas trans. "Todo mundo pode, e deve ser anti transfóbico, assim como anti racista, anti machista e para isso é preciso primeiro conhecimento. Procure no Google, veja vídeos, assista filmes e documentários, leia. O conhecimento é o primeiro ponto para entender que estamos falando de como a pluralidade, como a diversidade é algo bom e necessário pra nossa vida e sociedade. A partir daí, busque e conheça trabalhos de organizações e pessoas que falem sobre o tema em profundidade, veja quem apresenta coisas legais que fazem sentido para você e some à luta", finaliza.

Mais conquistas à população trans argentina

Outra boa notícia para a comunidade trans argentina foi o decreto assinado em 4 de setembro que reserva 1% das vagas de serviços públicos para cidadãos trans e travesti. A medida é um passo importante no país, uma vez que segundo estudos da Associação Argentina de Travestis, Transexuais e Transgêneros (ATTTA), 90% das pessoas trans não estão no mercado de trabalho formal, e quase 95% estão em situação de prostituição de extrema marginalização. A expectativa de vida da população trans argentina é de 26 anos.

Para a medida começar a ser implementada, um cadastro voluntário de candidatos deve ser realizado, com as competências profissionais registradas para o preenchimento de vagas no funcionalismo público argentino.

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