Apontado como racista, "Perdida" apaga escravidão por decisão explícita da autora

Capa do livro
Capa do livro "Perdida". Foto: Divulgação/Verus

Resumo da notícia:

  • Apontada como racista, trama de "Perdida" apaga a escravidão da história do Brasil

  • Em entrevista ao Yahoo, professora de História aponta o racismo na trama

  • Autora Carina Rissi chegou a justificar sua abordagem em um universo fictício do século XIX

Um livro ambientado no Brasil do século XIX voltou a ser assunto nas redes sociais ao ser anunciado como a nova adaptação da Disney, com Giovana Grigio como a protagonista do filme. No entanto, "Perdida" é alvo de muitas críticas pela abordagem da autora Carina Rissi, que decidiu "apagar" a existência da escravidão, abolida apenas em 1888 no país e parte determinante na História nacional.

Na trama, a jovem Sofia vive na modernidade dos tempos atuais e tem pavor da palavra casamento, mas mergulha nos romances dos livros. Ao comprar um celular novo, algo misterioso acontece e ela se vê perdida no século XIX sem saber como voltar para casa. A personagem é acolhida pela família Clarke na tentativa de voltar para sua casa e fica instalada na antiguidade. A questão é: a escravidão e a população negra não são mencionadas na obra.

Em entrevista ao Yahoo, a professora de História Morgana Fonseca analisou o que torna a abordagem de Carina racista. "É o apagamento do que aconteceu com a gente [pessoas negras]. É tratar o racismo como algo que foi muito doloroso, muito difícil e que ela não sabe como falar e ela simplesmente não fala", afirma.

Isso porque, ao final da obra literária, Carina deixa um recado sobre a escolha de não tratar da fase determinante para a História brasileira. "Talvez você tenha percebido que eu ocultei um fato importante desse período da história. Em 1830, ainda havia escravos no Brasil (a escravidão terminou oficialmente em 13 de maio de 1888). [...] Além de hediondo, é muito vergonhoso para nossa história. Como no mundo do faz de conta tudo é possível, eu simplesmente decidi que a escravidão nunca aconteceu", diz o adendo.

O racismo está nisso: dela não se preocupar com o assunto. Simplesmente, falar que não sabe como falar, e, em vez de aprender, ela só tirou aquele assunto da pauta dela"Morgana Fonseca, professora de História

Para Morgana, a adaptação da Disney para um filme não deve fugir da escalação de atores negros por se tratar de uma trama brasileira, mas a educadora acredita que a trama seguirá reproduzindo racismo caso seja fiel ao livro, que anula o contexto escravocrata. "Não tem como o filme não repetir o racismo, porque a própria obra já não tem essa parte da história. Não é algo que ela [Carina Rissi] se preocupa", opina Fonseca.

A justificativa

Carina Rissi explica que não fez descrição da aparência dos personagens, o que não deixa explícito se existe ou não pessoas negras na trama. "Nas adaptações é exatamente como eu idealizei a série: pessoas brancas e negras todas convivendo ali na vila. É que, muitas vezes, eu não coloquei uma descrição. Automaticamente, o racismo estrutural leva as pessoas a pensar que é uma pessoa branca se você não a descreve de outra maneira", afirmou a autora ao Notícias da TV.

Ao comentar sobre o adendo ao final da obra, Carina lamenta as críticas e afirma ter se enrolado ao tentar se justificar sobre a abordagem do enredo. "Outros autores fazem isso, mas não mencionam uma nota do autor e nunca foram criticados. Eu achei que devia uma explicação e acabei me enrolando toda", desabafou.

Para Carina, ter excluído a escravidão da viagem no tempo da protagonista não é um apagamento de pessoas negras. "Quem leu o livro sabe. Racismo estrutural, na época em que eu escrevi Perdida, não era muito debatido", afirmou ela sobre a obra lançada pela primeira vez em 2011.

"Eu gosto de falar sobre amor, sobre respeito. Pensar que eu possa ter de alguma maneira magoado alguém, me magoa também. O que me deixa um pouco mais aliviada é que pessoas que leram meu livro defendem quando alguém levanta o tópico", concluiu a escritora.

O Yahoo tentou contato direto com Carina Rissi para abordar o assunto, mas não obteve retorno em nenhum meio de comunicação.

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