Apeles mergulha em dualidades em sua estreia nas trilhas sonoras do cinema

Rafael Monteiro
·7 minuto de leitura
Apeles (Ana Pupulin)
Apeles (Ana Pupulin)

Eduardo Praça, o Apeles, estreia como autor de trilhas sonoras em "Boni Bonita", filme nacional que estreia em cinemas selecionados nesta quinta-feira (26). Como consequência direta do trabalho, o cantor e compositor lança hoje o videoclipe de "Pele", uma das faixas do projeto e do seu álbum mais recente, “Crux”, com imagens do longa dirigido por Daniel Barosa e estrelado por Caco Ciocler (assista no final do texto).

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Lembrado por bandas importantes do underground brasileiro, como Ludovic e Quarto Negro, o cantor e compositor aproveitou o lançamento para conversar com o Yahoo sobre as ideias que permeiam o projeto, a sua ligação com o cinema, e sobre a vida de músico em um cenário sem shows e repleto de incertezas como o visto durante a pandemia provocada pelo novo coronavírus no Brasil. Confira abaixo na íntegra:

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Yahoo: Apeles, para começar a nossa conversa, eu queria saber mais sobre o seu processo de composição. Como é para você escrever uma música com um pano de fundo definido como o de um filme? É mais difícil?

Apeles: O meu processo de composição é muito baseado em produção. Geralmente faço uma pré-produção em casa com a atmosfera e estilo estético das músicas, antes mesmo da parte lírica. Com o Daniel Barosa [diretor do filme], começamos a pensar o tema do personagem nas primeiras versões do roteiro. Eu o recebi em casa para começar a trabalhar na trilha e foi, sim, um desafio. Não diria que foi mais difícil, mas é um exercício de criatividade extra. De toda forma, é algo que estou acostumado com minhas músicas. Sempre tento ter uma visão imagética durante o processo de produção.

Yahoo: Esta é a sua primeira trilha sonora para um longa-metragem. Qual é a sua ligação com o cinema? Algum filme foi responsável por despertar o seu interesse por este universo?

Apeles: Cinema sempre fez parte da minha vida. Na minha adolescência, sempre tive muito contato com filme por influência do meu pai. Lembro que o filme que me virou a chave foi "A Última Sessão de Cinema", de Peter Bogdanovich. Hoje em dia, não é meu filme favorito, mas guardo ele como o filme que me abriu as portas para um novo universo. Por coincidência, ou não, a maioria dos meus amigos mais próximos são ligados ao cinema. Então é algo que faz parte da minha vida quase o tempo todo, profissionalmente e socialmente.

Yahoo: O videoclipe de "Pele" adianta alguns dos pontos marcantes de Boni Bonita, como a dualidade entre água da represa/fogo do cigarro, a raiva, as memórias turvas de um fim de um relacionamento. Na hora de compor, eram essas as imagens do "filme" que passava pela sua cabeça?

Apeles: Ótimas comparações. De fato, a dualidade de sentimentos é algo marcante no filme. Quando estava escrevendo "Pele", que é o tema do personagem Roger, usei muito dessa dualidade. A letra foi escrita pensando nos personagens. Num momento, canto "Cedo desabrocha essa flor, tua pele é áspera" - a coisa da beleza de uma flor que, no seu toque, é áspera. Sem dúvidas ,essas imagens influenciaram. No momento que estávamos finalizando a música, já tínhamos um corte do filme, então, de fato, a letra foi escrita sob o âmbito dessas dualidades.

Yahoo: Além da questão visual, a faixa ainda adianta um outro aspecto crucial do longa: a dificuldade da protagonista Beatriz (Ailín Salas) em se comunicar em português. Podemos dizer que as trilhas sonoras entram justamente neste vácuo dos filmes - as coisas que podem ser vistas, mas não totalmente compreendidas?

Apeles: Um dos pontos iniciais que discuti com o Daniel foi para que a trilha soasse como uma experimentação do personagem Roger em busca da sua música. O adendo ao título "Música incompleta de Rogério Tavares" é a deixa para que a trilha completasse essas visões inacabadas de comunicação falha, tanto do personagem do Caco Ciocler com sua vida quanto a da personagem da Ailín. A gente usou bastante alguns recursos de tape loop para a trilha sonora, repetições, voltar ao ponto inicial e tudo que sonoramente remetesse à essa dificuldade de evolução.

Yahoo: Em Boni Bonita, o outro protagonista Rogério, vivido por Caco Ciocler, é músico. Além disso, Ney Matogrosso e Otto também fazem pontas como atores. Como foi construir a identidade musical de um "filme quase sobre música"? Isso aumentou a sua responsabilidade ou te deixou mais tranquilo?

Apeles: Daniel e eu somos amigos de longa data. Nós nos conhecemos na pré-adolescência em uma viagem escolar; trocamos cds de rock e aquilo nos uniu. Ele sempre fez parte da minha carreira, como diretor e amigo, chegou até a tocar nas minhas primeiras bandas. Essa relação dele com a música surgiu de muitos anos acompanhando a cena independente de São Paulo. Quando recebi o roteiro, identifiquei diversas situações que vivemos juntos, as expectativas e frustrações da vida na música etc. Então, essa linguagem foi algo muito natural entre a gente no processo de produção do filme, o que me deixou mais seguro de tatear, pois é algo que vivo diariamente desde os meus 13/14 anos.

Yahoo: A trilha sonora conta com a participação de alguns dos seus velhos parceiros - entre eles Jair Naves, seu parceiro de Ludovic. Você acredita que o filme pode ser visto - ou ouvido - como o registro musical de uma geração importante de compositores?

Apeles: Eu acho que, mais do que um registro de uma geração de compositores, ele se aproxima mais de uma caixa de memórias do que era a cena indie paulistana do começo dos anos 2000. Toda aquela atmosfera da Rua Augusta, com shows independentes a semana toda por toda a rua. O filme é uma homenagem à essa época, acima de tudo. A trilha, além da grande música do Jair, conta com uma gama muito variada de músicas, indo de Titãs até cumbia colombiana. A idéia era justamente trazer essas dualidades. Tenho uma boa história sobre essa cumbia. Em algum Réveillon, por volta de 2014, fui a uma festa de ano novo com o Daniel. Fomos convidados pelo nosso amigo Guri Assis Brasil, que também faz uma ponta no filme. O Otto estava nessa festa também. Uma hora, fiquei responsável por tocar algumas músicas. Lembro que coloquei um B-side do Kendrick Lamar que ninguém entendeu ou curtiu, e aí, na sequência, coloquei essa cumbia do Pacho Galán e aí todos foram pra pista - Otto incluso. Naquela mesma hora, decidimos que a curadoria deveria flutuar em coisas além do rock.

Yahoo: E, para finalizar, pessoalmente, como você encara o lançamento do filme em um ano tão difícil (para músicos e todos nós) como 2020? O quão prejudicial foi a pandemia para o seu trabalho?

Apeles: Quando a pandemia se tornou uma realidade no fim de fevereiro, tive cancelados 13 shows, entre Brasil e Europa. Foi um baque e uma tristeza, mas precisamos continuar. Desde abril estou compondo e produzindo. É claro, tudo isso a partir do que tá sendo permitido fazer, da forma mais segura e responsável, financeira e fisicamente falando. Tive o privilégio de estar em casa e focar na música, então não posso dizer que fui o maior prejudicado, tenho consciência que a situação é muito difícil para muita gente. Mais do que a privação de exercer por completo minha profissão, tem sido um ano acima de tudo de exaustão mental, lidar com incertezas, o clima de guerra que habita nosso país... Essas coisas me afetam muito. O filme sair, embora não seja o melhor momento para os cinemas, ainda é uma brava vitória do cinema latino-americano e da cultura em geral. Em um momento que a arte está encarcerada nos escombros da sociedade, poder ter meu nome vinculado em uma obra tão dedicada é uma honra, que espero repetir em muito breve.

Assista ao videoclipe:

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