Após seca de 'open food e bar', festival é chamado de 'Fyre Fest brasileiro'

ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - O Fyre Festival entrou no léxico de jovens endinheirados como um Chernobyl na história dos festivais de música. É a esse evento nas Bahamas, que virou sinônimo de fiasco ao cobrar milhares de dólares e oferecer comida fria e barracas de refugiados para o público, que o MECA Inhotim está sendo comparado.

"Fazendo miséria pra servir carne moída sabor quase mil reais", foi um dos comentários que encharcaram as redes sociais, após várias pessoas pagarem quase um salário mínimo para estar no Meca New Year, uma festa de Réveillon no Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG).

A certa altura, acabaram ceia, álcool e até água. Sobraram, nos dias seguintes, pedidos de reembolso. A internet virou um muro das lamentações para aqueles que se sentiram lesados pela organização. "Tudo bagunçado, resto de mini pão murcho, de carne fria

…

Foi triste ver tanta gente frustrada, nervosa e morta de fome", lamentou um pagante.

O publicitário Bruno Rivas, 28, desembolsou R$ 950 na "meia entrada cultural" —metade do preço cheio mais a doação de um livro. Levou "O Irmão Alemão", de Chico Buarque, e um de Ernest Hemingway para desfrutar de um evento que prometia "open food com o melhor da gastronomia mineira e open bar na noite da virada".

O ingresso abrangia festas de 28 de dezembro até a manhã de 1º de janeiro, embora para algumas noites fosse preciso comprar um tíquete avulso.

Na véspera do Ano-Novo, uma decepção atrás da outra. Rivas narra a experiência à reportagem. "Então, no dia 28 e 29 foi ok, tirando as atrações que eram bem ruins. Os DJs, no caso. Mas ok, a gente ficou de boa em relação a isso. No dia 31, quando a gente chegou, por volta de 21h30, a fila pra comer estava gigantesca, indo pra fora do restaurante".

Estranharam, mas de boa, "fomos comer só mais tarde, umas 23h". A fila estava menor e não à toa: "Já não tinha quase nada, e o que tinha parecia sobra. Pra comer, eles serviram uma maçaroca verde que até agora não sabemos o que era. Tinha pão francês daqueles mini, cupim, amendoim e maçã (que eram as únicas coisas que quem é vegetariano podia comer lá)".

Em outra mesa, salgadinhos. "Tipo coxinha de camarão e umas quiches. Chegamos e uma pessoa estava repondo. Pelo visto, demorou pra vir, porque quando ela colocou as pessoas literalmente saíram correndo e enchendo as mãos de comida. Vi uma garota enfiando tipo dez coxinhas nas mãos e saindo, a gente ficou em choque."

Opções veganas e vegetarianas foram uma promessa não cumprida pela organização, afirma. As filas intermináveis, uma chateação à parte. Não havia alternativa, mesmo que paga, de alimentação naquela noite. "Tava todo mundo meio com uma cara 'é sério isso?'"

O bar também deixou a desejar. "Lá pela 1h já não tinha mais tônica no bar principal. Num dado momento, os atendentes já estavam numa pilha tão grande que eles nem olhavam na tua cara, enchiam os copos e mandava pegar logo. Na madrugada vários bares nem água mais tinham."

Ele fez coro com outros desapontados, como uma mulher que se horrorizou com um drinque que misturava uísque com mate de garrafa, e outro rapaz que foi às redes protestar contra "um evento que claramente não se pagou" e até cerveja quente servia.

Rivas foi um dos que criticou o Meca New Year numa página virtual do evento. Por ali, além de destacar "aquele papelão no restaurante", o publicitário gongou a revista feita pela equipe de segurança. "Se alguém entrasse com uma arma, ninguém ia ver."

Afirmou à reportagem: "Coisa surreal. A maioria da galera ia de pochete ou shoulder bag [bolsa de ombro]. Na página do evento dizia que não podia levar bebida nem comida nem nada. Imaginei que fosse ter vistoria de sacola, mas não. Quando você entrava nem revistado você era. O segurança pediu pra ver minha pochete uma vez só. Abri o zíper, e ele nem olhou e mandou entrar."

Cássia Lopes, 31, que trabalha com pesquisa de mercado, foi outra a compartilhar o perrengue que passou em Brumadinho.

Enviou à reportagem uma foto que tirou da bancada de comida vazia. "Quando pedi para falar com o responsável, as pessoas que trabalhavam no local me disseram que eu deveria procurar pelo pessoal da organização do Meca, que não estava lá no restaurante pra dar satisfação alguma."

Cássia entrou no refeitório à 1h52 do primeiro dia de 2020. O estômago ficou vazio por ao menos meia hora, afirma. "Ceia, ceia não consegui... Serviram depois de um tempo um pene com três tipos de molho e foi isso. Estava bom, mas não dá pra chamar de ceia com o melhor da cozinha mineira, como eles divulgaram que teria."

Muita gente reclamou também dos artistas escalados para tocar no dia 31, comparados a uma "playlist do Spotify no modo aleatório". "Como se não bastasse, passei os últimos quatro minutos de 2019 ouvindo Jota Quest a cappella", disse uma jovem sobre a música executada perto da mudança de ano.

O line-up foi divulgado de antemão, ou seja, as atrações não eram uma surpresa para os pagantes.

Os organizadores divulgaram uma nota para se desculpar "pelas intermitências no serviço de operação de bar e ceia". "Estamos mapeando todas as falhas e aprendizados na operação do evento para que seja sempre garantido um serviço de qualidade para o nosso público, para o qual realizamos festivais com muito carinho há dez anos."

"Este foi o nosso primeiro festival de Ano-Novo, com open bar e ceia. Temos o compromisso e a responsabilidade de melhorar e evoluir a cada edição, superando desafios e aprendendo sempre, em respeito e gratidão ao nosso público tão querido e parceiro", diz o texto.

"Contratamos produtoras, empresas e profissionais com grande experiência de mercado, que foram surpreendidas pelas projeções e se esforçaram para corrigir todos os problemas. E, certamente, todos também levarão para o futuro esses aprendizados."

Por último, o Meca pede "a compreensão de todos" e pede "mais uma vez desculpas por quaisquer infortúnios. Todas as críticas construtivas são bem-vindas para que possamos evoluir sempre". Não menciona possíveis reembolsos.