Após recomeço em Portugal, brasileiros fazem porcelana para melhor restaurante do mundo

GIULIANA MIRANDA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Considerado o melhor restaurante do mundo na lista World’s 50 Best, o Mirazur, na França, tem agora porcelana feita por uma dupla de brasileiros: Gabi Neves e Alex Hell, do Studioneves.

O casal, que durante anos foi responsável pelas peças de cerâmica de algumas das casas mais badaladas do Brasil –com clientes como o D.O.M., de Alex Atala e o Maní, de Helena Rizzo–, surpreendeu ao encerrar a fábrica que tinha em São Paulo no fim de 2017.

O maquinário, os funcionários e os mais de duzentos clientes foram repassados a uma outra ceramista, enquanto o casal embarcava para recomeçar a vida em Portugal, onde reabriram do zero o estúdio no fim de 2018.

“Saímos do Brasil por causa da violência”, resume Alex Hell. “Já estávamos com a circulação bastante limitada, evitávamos fazer muita coisa com medo de que algo pudesse acontecer. A gota d’água foi quando houve um assalto à mão armada e nosso filho estava no carro”, completa.

Em terras lusitanas, o casal decidiu retomar o trabalho de cerâmica personalizada para restaurantes. Alugaram um armazém em Alcabideche, na região de Cascais, e esperavam conseguir começar a trabalhar em pouco tempo, o que não aconteceu.

“Fomos surpreendidos pela demora das coisas aqui. O forno, algo essencial para o nosso trabalho, acabou levando muito mais tempo para chegar do que o que era previsto. Como nossa produção era muito menor do que a das grandes fábricas, acabávamos nunca sendo prioridade”, conta Alex.

A diferença de matérias primas, sobretudo a das argilas portuguesas, também foi um desafio.

“Tivemos de reaprender as ‘receitas’ e experimentar muito até entender como a argila se comportava. É tudo muito diferente, inclusive na hora de moldar”, conta Gabi Neves, responsável pela parte artística da produção.

Resolvidas as questões técnicas, o casal foi em busca dos primeiros clientes. As primeiras reuniões foram garantidas através de amigos e de pessoas que conheciam o trabalho do estúdio ainda em São Paulo.

“Temos um conceito de peças personalizadas. Trabalhamos em conjunto com os chefs para conseguir peças exclusivas que se adaptem aos menus. Conseguimos uma qualidade industrial, porque temos material de muita qualidade e queimamos em forno de alta temperatura, mas tudo ainda com personalidade e individualidade”, completa Alex.

O primeiro cliente foi o chef João Rodrigues, que comanda o Feitoria, restaurante com uma estrela Michelin em Lisboa.

Em poucos meses, outros se seguiram em Portugal, desde restaurantes de alta gastronomia até casas com uma pegada mais casual.

Em seis meses de volta à ativa, o Studioneves já tinha clientes de outros países da Europa.

Para chegar aos principais restaurantes do velho continente, porém, eles identificaram que precisavam expandir sua área de atuação para além da cerâmica. Foi aí que decidiram investir também na porcelana.

“Também partimos do zero e, no início, ficou tudo uma porcaria”, fala, rindo, Alex Hell.

Após muita insistência e um grande volume de produção, o casal conta ter ficado satisfeito com o resultado, que já pode ser conferido em alguns dos principais restaurantes europeus.

“Em junho, entregamos peças para o Asador Etxebarri [no País Vasco, terceiro melhor do mundo pelo 50Best em 2019]. Em agosto, entregamos a primeira produção o Celler de Can Roca [3 estrelas Michelin e duas vezes eleito o melhor restaurante do mundo, em 2013 e 2015]”, enumera Alex.

O casal de artistas costuma dividir a rotina de preparação das produções, além de dicas sobre cerâmica (de esmaltes aos testes de qualidade) com seus seguidores nas redes sociais.