Após Bolsonaro fixar limite para março, cúpula do Aliança diz que precisa de mais prazo para criar partido

Naira Trindade e Natália Portinari
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Daniel Gullino/Agência O Globo

BRASÍLIA — Após o presidente Jair Bolsonaro ter estipulado nesta semana o mês de março de 2021 como prazo para a criação do Aliança pelo Brasil, a cúpula da legenda em formação tenta estender essa data, acreditando não ser possível recolher, registrar e ter a validação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de todas as 492 mil assinaturas necessárias nos próximos quatro meses. Até o momento, o Aliança só conseguiu validar 42 mil apoiamentos, 8% do que precisa. Sem a legenda criada até março, Bolsonaro já cogita uma “nova opção” para se filiar e também para levar os pelo menos 20 deputados que pretendem acompanhá-lo nessa mudança.

A opção que vem sendo trabalhada há três meses pela ala ideológica do governo é a volta ao PSL, do deputado federal Luciano Bivar (PE). Auxiliares de Bolsonaro e deputados ligado à ala ideológica avaliam a antiga legenda como a melhor estratégia uma vez que os parlamentares já possuem estruturas estaduais definidas, com diretórios distribuídos e recursos disponíveis. Outra opção, porém, está em se filiar a partidos ligados ao Centrão. São opções o PP, do senador Ciro Nogueira (PI), o Republicanos e o PTB, de Roberto Jefferson.

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A ala ideológica do governo e os deputados mais radicais resistem à estratégia de se associarem a legendas que não darão ao presidente o controle do partido.

— Só discordaria se ele (Bolsonaro) fosse para qualquer partido que não desse a chave. Qualquer partido que ele vá, tem de ter a chave. É ele que tem de escolher quem entra, quem sai, quem disputa as eleições — afirmou a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), que integra a ala ideológica e pretende migrar com o presidente para o partido que ele for.

—Não é uma preocupação comigo. Eu vou para onde ele estiver, mas acho que é um zelo a mais, ele deveria ir para um partido onde pudesse filtrar as pessoas — completou.

O segundo vice-presidente nacional do Aliança pelo Brasil, Luís Felipe Belmonte, um dos mais engajados no processo, quer tentar concluir a legenda até abril do ano que vem. Para isso, corre para inserir as 80 mil assinaturas que diz ter em mãos no sistema do TSE. Ele diz já ter incluído no sistema cerca de 140 mil, que aguardam validação. Ainda assim, terá que conseguir mais 300 mil apoiamentos válidos e torcer para que a corte eleitoral consiga validar tudo em um curto espaço de tempo.

— Acredito que vamos ter todas as assinaturas até janeiro e que o tribunal necessite de três meses para conseguir validar todos os apoiamentos. Acho que o presidente poderá ter o Aliança pelo Brasil criado até abril — disse Belmonte.

O prazo de março estipulado por Bolsonaro não tem relação com o calendário eleitoral, mas sim com sua estratégia de organizar a estrutura partidária para se candidatar à reeleição em 2022. Auxiliares do presidente avaliam que a maior lição deste pleito municipal foi perceber quão desorganizados estão conservadores e ideológicos e que, sem uma nova estrutura, Bolsonaro pode patinar na corrida à sucessão presidencial daqui a dois anos. Por isso, determinaram um prazo limite para que o presidente defina sua filiação.

O Aliança está em formação desde o ano passado, quando Bolsonaro decidiu se desfiliar do PSL após discussão públicas com Luciano Bivar. Nesses 12 meses, a legenda conseguiu validar 42 mil assinaturas. Brigas internas entre os integrantes da cúpula da legenda têm dificultado o trabalho em equipe e atrasado o procedimento de formação. Belmonte nega que haja intrigas na legenda e aponta a pandemia de Covid-19 como um empecilho que teria atrapalhado o processo de criação do partido.

A legenda é hoje disputada por três advogados: Admar Gonzaga, ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Karina Kufa, advogada da campanha de Bolsonaro em 2018 e por Belmonte, empresário e advogado brasiliense. Belmonte assumiu a linha de frente do partido nos últimos meses, gerando ciúmes nos demais.

Ele pediu que Bolsonaro oficializasse aos apoiadores que ele seria o gestor temporário até a legenda sair do papel, mas isso não se concretizou. Na cúpula do Aliança, há a percepção de que Bolsonaro não quer delegar responsabilidades para não repetir o que ocorreu no PSL, partido em que se sentiu traído pelo presidente Luciano Bivar.

Enquanto Bolsonaro não define o futuro do partido, Belmonte vem coletando doações, organizando eventos nos estados e centralizando a entrega de assinaturas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). De acordo com integrantes do Aliança, porém, o vácuo de poder impede que decisões sejam tomadas de forma célere e inviabiliza a formação do partido.

Ao fogo cruzado entre os três advogados, soma-se a desconfiança da militância que passou a ver os organizadores do partido em Brasília como conspiradores contra o presidente da República. Alguns não confiam em Kufa, Gonzaga e Belmonte, outros disputam entre si as coordenações locais e há ainda quem abandonou a iniciativa de criar o Aliança diante da desorganização e demora em coletar assinaturas.

Em meio a esse cenário de intrigas, o marqueteiro do partido, Sérgio Lima, que cuidava também da comunicação da legenda, se afastou das atividades partidárias para tocar projetos pessoais. A informação foi publicada pela colunista Bela Megale, no GLOBO. Lima disse a aliados que vai se dedicar à sua agência de publicidades e atividades na área privada. Ele é um dos investigados no inquérito que investiga a realização de atos antidemocráticos, mas afirma que todas suas atividades são lícitas e nega irregularidades.