Após 'bendito empurrão', padre Marcelo Rossi diz ver novo sentido à vida

KARINA MATIAS
**ARQUIVO** SÃO PAULO, SP, 23.04.2013 - O Padre Marcelo Rossi. (Fotos: Victor Moriyama/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Padre Marcelo Rossi, 52, acaba de completar 25 anos de sacerdócio, mas afirma que é como se estivesse começando agora. O pároco diz sentir uma nova disposição e um novo sentido de vida. Voltou a lançar músicas, prepara um livro e quer se fazer cada vez mais presente na internet e nas redes sociais, porque, na visão dele, é o lugar em que o jovem está.

Já conhece o Instagram do Yahoo Vida e Estilo? Siga a gente!

Todo esse novo entusiasmo surgiu depois que ele foi empurrado por uma mulher durante uma missa em Cachoeira Paulista (a 212 km de São Paulo), em 14 de julho. Para o padre, foi um milagre o fato de não ter acontecido nada de grave com ele, apesar da queda de quase dois metros de altura.

Leia também

"Bendito empurrão. Está vendo, uma coisa que poderia ser a minha morte, se tornou para mim uma forma de motivação. Eu só posso agradecer", diz ele à reportagem. Rossi conta que perdoou a mulher, cujo nome não foi divulgado, logo depois do empurrão. Para a polícia, ela disse que sofre de transtorno bipolar e passa por tratamento psiquiátrico. 

Desde o acidente, o sacerdote conta que as pessoas o têm procurado muito mais. "Elas sempre vieram falar comigo, mas agora elas perguntam: 'Você está bem mesmo?' E muitas querem me tocar. Podem me tocar, não tem problema nenhum."

O sacerdote diz também que a morte de Gugu Liberato aos 60 anos, vítima de uma queda em sua casa em Orlando (EUA), foi outra coisa que mexeu demais com ele e o fez valorizar ainda mais a vida. Marcelo Rossi era um dos convidados mais assíduos do programa Domingo Legal (SBT), no fim dos anos 1990 e início de 2000, na época comandado pelo apresentador.

"Era para ele [Gugu] quebrar o pé, mas bateu a cabeça. Nós somos tão frágeis. Eu fui empurrado, não tem explicação [não ter acontecido nada], eu preciso agradecer a Deus", reafirma.

Participar de atrações da televisão aberta -além do Domingo Legal, o sacerdote era presença constante no Domingão do Faustão e no Planeta Xuxa, ambos da Globo- foi essencial para o padre Marcelo Rossi popularizar as suas músicas e alcançar o seu objetivo, segundo ele, "levar a palavra de Deus" para as pessoas. 

Agora, ele quer novamente isso, mas com uma outra meta: atingir os jovens, especialmente na faixa dos 13 aos 25 anos. O primeiro passo nessa empreitada é usar, mais uma vez, a música. 

De olho nisso, acaba de lançar nas plataformas digitais o EP "Maria Passa à Frente" com seis músicas: "Maria Passa à Frente", gravada em parceria com o cantor sertanejo Gusttavo Lima; "Jesus te Deu Uma Mãe"; "Fiel Guardião"; "Sopra em Nós"; "Colo de Mãe"; e "Rainha dos Anjos do Céu", esta última lançada nesta quinta-feira (19). 

"Agora, mais do que nunca, eu destaco a importância da música. Quem canta reza duas vezes. Por meio da música, você toca as pessoas", diz. As seis canções, afirma ele, passam a mensagem da superação dos problemas com a ajuda da fé em Deus. Mas Rossi faz questão de ressalvar: "Eu não sou cantor, sou padre". 

INTERNET E REDES SOCIAIS

O sacerdote diz que, com tanta informação disponível a um clique nas redes sociais e na internet em geral, o jovem fica perdido e não sabe distinguir o que é verdade do que é fake news.  Isso não significa que ele seja contra as redes sociais e o Google -até diz considerar a plataforma de busca "uma bênção". 

"Cada um hoje posta o que quiser como se fosse a verdade plena...Parece um pouquinho a época em que Lutero se separou da Igreja", compara, citando o alemão Martinho Lutero, que foi uma das figuras centrais da Reforma Protestante, no século 16. 

Segundo Rossi, foi a partir desse movimento, que começaram a surgir várias igrejas pelo mundo, com interpretações diferentes da Bíblia. "Estamos conversando agora, e está sendo montada uma igreja. É impressionante."

Para ele, a unidade da igreja católica é o grande segredo para a sua existência ao longo dos séculos. "E é a unidade na diversidade, isso que é o legal. Você tem diversos movimentos diferentes [na igreja católica], é a unidade na pluralidade, na diversidade. Não a uniformidade. O papa, a igreja jamais pedem isso", afirma.

E é esse sentido de identidade que ele quer passar para os jovens. Como? Com uma presença cada vez maior nas redes sociais. No Instagram, o seu perfil oficial tem 3,3 milhões de seguidores. No YouTube, onde ele tem transmitido orações e bênçãos ao vivo, já são 1,13 milhões de inscritos. "O meu objetivo é abrir os olhos dos jovens a não ficar acreditando em tudo que lê, para antes ele ver se é fato."

Quando ainda estava no início da sua vida como sacerdote, Rossi lembra que o papa João Paulo 2º, quando esteve no Brasil em 1997, fez um desafio aos padres brasileiros: que, sem perder a identidade, eles fossem ao encontro dos fiéis. 

Foi seguindo esse preceito, que ele resolveu frequentar programas populares como o de Gugu e do Faustão para lançar as suas músicas. "Para mim, Jesus tem que ser levado para todo lugar. Essa é a minha opinião, e eu estava com o apoio dele [do papa]....Não foi fácil, imagina em 1998, 1999, 2000, meu Deus. Mas foi uma experiência de poder levar a palavra de Deus, e a gente atingiu muitas pessoas e crianças", afirma. 

Agora, afirma o padre, é hora de encontrar novas ferramentas. "Na linguagem de hoje, quem não se atualiza, não vai conseguir conversar com o outro", diz, em uma alusão à famosa frase do apresentador Chacrinha "quem não se comunica, se trumbica". 

"Hoje, com uma rede social, você pode eleger alguém ou você pode derrubar alguém, e isso não acontecia há 20 anos [...] É um mundo novo, nós temos que aprender, ver o que é bom e o que não é bom. Eu confesso para você, que tenho muito a descobrir."

Além disso, ele também prepara um livro em que pretende falar mais sobre a experiência do empurrão. "Pretendo lançar no dia 14 de julho de 2020."