Ataques a 'antifas' e STF dominam redes bolsonaristas e tiram foco da Covid-19

Redes bolsonaristas foram dominadas por mensagens, imagens e vídeos atacando grupos antifascistas e o inquérito das fake news contra o STF. (Foto: REUTERS/Nacho Doce)

Os grupos de WhatsApp e redes de apoio ao governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) elegeram, nesta semana, novos alvos para ataques. Em 5 dias, as críticas aos manifestantes antifascistas - chamados popularmente de “antifas” - e a ministros membros do STF (Supremo Tribunal Federal) tomaram o lugar das notícias negacionistas a respeito da pandemia do novo coronavírus.

“Em 4 ou 5 dias, esse discurso de negação e minimização da Covid-19, que estava dominando desde março, foi substituído pelos ataques aos ‘antifas’ e contra o inquérito das fake news que está sendo conduzido pelo STF”, analisa Pablo Ortellado, professor doutor do curso de Gestão de Políticas Públicas da USP (Universidade de São Paulo).

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A constatação do pesquisador vem após análise e monitoramento de 550 grupos públicos no aplicativo de troca de mensagens WhatsApp, a maioria deles integrada por apoiadores de Bolsonaro.

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Desde o início da pandemia da Covid-19 no país, os grupos bolsonaristas vigiados compartilhavam predominantemente imagens e vídeos com informações - verdadeiras, falsas ou distorcidas - sobre fatos negando ou relativizando a situação do Brasil no enfrentamento da doença.

“Você tinha a disseminação de informações sobre críticas aos governadores, denúncias de covas e caixões vazios em diferentes lugares do país. Vídeos e áudios de supostos médios e profissionais de saúde falando de hospitais vazios e leitos sem ninguém. Esses temas e mídias ficavam circulando por vários dias, e tomaram as redes nos últimos 2 meses”, explica Ortellado, que também é integrante do Monitor do Debate Político no Meio Digital, projeto de pesquisa do Laboratório de Políticas Públicas, Processo e Informação da USP.

No entanto, o foco dos grupos passou a ser o STF, com um destaque específico para o ministro Alexandre de Moraes, a partir da operação da PF (Polícia Federal) realizada no dia 27 de maio, quando aliados e apoiadores do presidente foram alvos de mandados de busca e apreensão no âmbito do inquérito que apura ataques e notícias falsas contra ministros do Supremo.

Entre os alvos da operação, determinada por Moraes, estavam o ex-deputado federal e presidente do PTB, Roberto Jefferson; o empresário Luciano Hang, dono das Lojas Havan; o blogueiro Allan dos Santos, do site Terça Livre; Sara Winter, do grupo 300 Pelo Brasil.

Moraes, na ocasião, também havia determinado a oitiva de deputados federais e estaduais bolsonaristas do PSL como Bia Kicis (DF), Carla Zambelli (SP), Daniel Silveira (RJ), Filipe Barros (PR), Junio Amaral (MG) e Luiz Philippe de Orleans e Bragança (SP), além dos deputados estaduais paulistas Douglas Garcia e Gil Diniz.

“Na quinta mesmo começaram a surgir os ataques ao STF, sobre da ação da fake news. As mídias mais compartilhadas sugeriam que existiria uma articulação, de que essa operação e esse inquérito seriam um ataque coordenado entre mídia, STF e antigas forças políticas”, detalha o professor.

OS ‘ANTIFAS’

No domingo (31), a ofensiva bolsonarista ganhou mais um alvo: os “antifas”.

Após o confronto entre grupos pró e contra o governo Bolsonaro na Avenida Paulista, em São Paulo, e posteriormente a repressão da PM (Polícia Militar) ao ato crítico ao presidente, cresceu nas redes sociais o uso e disseminação de imagens dos símbolos dos antifascistas.

Somados aos atos pró-democracia, os antifascistas também saíram às ruas no país por pautas anti-racismo e contra a truculência da polícia, motivados pelo assassinato de George Floyd, um homem negro morto por um policial branco que manteve o joelho sob seu pescoço por 8 minutos, em Minneapolis, nos Estados Unidos.

Desde então, os “antifas” têm sido alvo dos ataques e não somente nas redes bolsonaristas. “A partir do domingo foram muitas e muitas imagens dos protestos ‘antifas’, em São Paulo, Porto Alegre, Curitiba. Vídeos de depoimentos de pessoas que estavam no protesto pró-Bolsonaro na Paulista. Imagens do confronto que aconteceu no Sul”, conta o pesquisador.

“Não é só que esses assuntos mudaram o foco, eles dominaram. Desapareceu dessas redes qualquer outro tema. Sempre havia uma ou outra imagem ou vídeo anti-Covid, mas agora não tinha mais nada nada. Uma semana atrás, só tinha coronavírus e agora desapareceu”, completa Ortellado.

O próprio presidente tem chamado os manifestantes de “terroristas”, “maconheiros”, “marginais” e “desocupados”. Bolsonaro também cobrou que a PM “faça seu trabalho” e sugeriu o uso de segurança federal - como Força Nacional ou Forças Armadas - contra os grupos.

No Twitter, Bolsonaro também tem feito suas acusações, bem como seus três filhos políticos. O senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ); o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP); e o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), postaram vídeos e críticas aos movimentos antifascistas em suas redes sociais.

‘AÇÃO COORDENADA E REPENTINA’

A mudança brusca e repentina entre os alvos dos ataques chamou a atenção do pesquisador, que sugere a existência de uma coordenação por trás.

“Essa vinda de ondas temáticas de assuntos me dá indícios de que existe uma coordenação. O debate público e os noticiários puxam novos temas, mas essa mudança brusca que registramos agora não foi um processo espontâneo, é uma mudança artificial”, afirma.