Anos de aflição: entenda as mudanças nas produções teatrais desde 2010

GUSTAVO FIORATTI

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - As discussões sobre racismo e representatividade chegaram às produções teatrais, que também entraram com mais afinco no debate político nos últimos dez anos. Desde 2010, as artes cênicas também viram aflorar um embate com o mercado imobiliário, simbolizado na disputa entre o Teatro Oficina e o Grupo Silvio Santos, o crescimento de novos gêneros e, principalmente, a disseminação maciça de musicais -tanto peças da Broadway quanto biografias de músicos brasileiros.

Veja o que de mais importante aconteceu no teatro desde 2010.

Musicais em ascensão

Desde o começo dos anos 2000, os musicais já despontavam como novidade. Mas foi em 2010 que produtores de teatro que se dedicavam ao gênero disseram que o mercado havia crescido a ponto de haver disputas acirradas por direitos autorais das peças mais conhecidas da Broadway. Foi nessa época que estrearam musicais como "O Despertar da Primavera" e "Avenida Q". O boom no Brasil foi acompanhado pelo mesmo cenário na China e na Rússia.

Primeira pessoa

A chamada autoficção, um tipo de dramaturgia criada a partir de experiências pessoais dos criadores, surgiu com força no cenário teatral. O gênero marca trabalhos de jovens companhias, como a Hiato, que apresenta "Ficção", uma coleção composta pelo depoimento de seis atores acerca de traumas pessoais. Neste cenário, surge também Janaína Leita, que já havia proposto a peça "Festa de Separação" em 2009 e retornou com "Conversas com Meu Pai" (2014) e "Stabat Mater" (2019).

Teatros na mira da especulação imobiliária

Especialmente entre 2013 e 2015, com o aquecimento do mercado imobiliário, vários teatros fecharam ou foram ameaçados de fechar. O Núcleo Bartolomeu de Depoimentos perdeu sua sede na Pompeia, e também se encerraram as atividades do CIT-Ecum, que tinha sede na rua da Consolação. A companhia Os Satyros chegou a informar que sairia da praça Roosevelt, onde outras salas haviam surgido. 

Criação da MIT

Em 2014, é inaugurada a Mostra Internacional de Teatro, que tem entre seus criadores o encenador Antonio Araújo, diretor do Teatro da Vertigem. A primeira edição é marcada por grandes filas. A mostra prossegue anualmente, em parceria com o Sesc de São Paulo, e as curadorias ainda hoje procuram abarcar temas e conceitos de cenários ou períodos específicos das artes cênicas.

Disputas entre Oficina e Silvio Santos

Tombado pelo patrimônio histórico, o Teatro Oficina desde os anos 1990 sofre uma mesma ameaça. Ao lado dele, o Grupo Silvio Santos quer construir torres mistas, que incluem o projeto de um shopping center. O problema é que o empreendimento tamparia o janelão que marca o projeto arquitetônico de Lina Bo Bardi. A disputa teve diversos encaminhamentos durante a década. Em 2017, o Condephaat, que protege o patrimônio na esfera estadual, reverteu decisão do ano anterior que proibia a construção das torres. A disputa prossegue.

Racismo

As peças "A Mulher do Trem", do grupo Os Fofos Encenam, e "Exhibit-B", de Brett Bailey, são acusadas de racismo. A primeira situação ocorreu em 2015 e abordava um caso de blackface. A segunda, em 2016, teve como centro da polêmica uma peça que fazia releitura dos zoológicos humanos do século 19 e seria apresentada na MIT. Ambas as peças tiveram sessões canceladas. Posteriormente, "A Mulher do Trem" voltou ao cartaz modificada.

Biografias em cena

Cássia Eller, Cazuza, Tim Maia, Elis Regina. Estes e muitos outros músicos tiveram suas vidas relembradas por peças musicais de diversos portes. Foi uma onda que percorreu a década toda e que ainda tem seus desdobramentos. "Bibi, Uma Vida em Musical", por exemplo, estreou em 2017, mas sua turnê seguiu até este ano.

Representatividade

Desde que "Exhibit-B" foi acusada de racismo e cancelada da programação da MIT, atores negros passaram a brigar por mais espaço e visibilidade. Foi marcante a performance "Em Legítima Defesa", que a própria MIT recebeu no mesmo ano da polêmica, com atores negros passando entre as cadeiras das plateias do Theatro Municipal. No texto deles, havia números e dados sobre a violência sofrida pelos negros em diversos períodos da história. Em 2017, a questão da representatividade foi alargada pela proposição cênica da travesti Renata Carvalho em "O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu". O espetáculo mostrava Cristo como transexual e sofreu diversas censuras, inclusive por determinações judiciais.

Política

O cenário teatral passou a refletir o debate político, incluindo questões sobre a polarização que se avolumou desde as manifestações de junho de 2013. O Desvio Coletivo, em 2015, propôs a performance "Cegos", com atores vestidos formalmente e que andavam pelas ruas de olhos vendados. Poucos meses antes do Impeachment de Dilma Rousseff, Claudio Botelho fez uma intervenção na peça "Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos", em que a plateia reagiu com vaias, e o músico cancelou os direitos autorais que havia cedido à produção.

Drama

Durante toda a década, dramaturgos de todo o país foram reconhecidos por seus trabalhos, alguns deles junto a coletivos teatrais. Deste cenário, destacaram-se Rafael Gomes, Vinicius Calderoni e Grace Passô, entre outros. A editora Cobogó passou a publicar textos contemporâneos nacionais.