'Annette' une Adam Driver e Marion Cotillard em um musical inclassificável

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CANNES, FRANÇA (FOLHAPRESS) - O Festival de Cannes abriu com cara de grande celebração do cinema, o que era esperado do primeiro festival de grande porte realizado presencialmente após o hiato pandêmico.

Ao final da cerimônia, se reuniram no palco para um jogral multilinguístico artistas muito distintos no fazer cinematográfico: Spike Lee (presidente do júri), Jodie Foster (que recebeu a Palma Honorária), Pedro Almodóvar (que entregou a honraria) e Bong Joon-ho (vencedor da última Palma de Ouro).

Esse clima de ode à diversidade não poderia ter sido mais bem coroado do que com a exibição de "Annette", de Leos Carax, um dos mais enigmáticos diretores em atividade. O francês, que dirigiu apenas seis longas em 37 anos de carreira, volta a propor uma viagem extraordinária para os espectadores.

Carax construiu uma filmografia única, e "Annette" não escapa à regra. O material de divulgação fala de uma comédia musical, mas é uma classificação improvável, apesar dos momentos cômicos. Talvez seja uma piada, a exemplo da fala de abertura: se tiverem vontade de falar, rir, ou respirar, não o façam. Inspirem profundamente agora pela última vez e fiquem em silêncio.

A história é simples: Ann, uma soprano de renome internacional, e Henry, um comediante de stand up provocativo, formam um casal inusitado e adorado pelos holofotes de Los Angeles. Os dois terão uma filha, que dá nome ao filme, que trará novos elementos para a trama. Mas esta sinopse não dá conta do que é o longa de Carax.

Talvez o melhor jeito de explicá-lo seja dizer que o projeto nasce de uma parceria com a dupla americana Sparks, formada pelos irmãos Russell e Ron Mael no final dos anos 1960. É um projeto antigo da dupla, que fracassou inúmeras vezes ao tentar levar projetos de filmes adiante.

O grupo já havia experimentado narrativas outras vezes, inclusive com "The Seduction of Ingmar Bergman", disco musical de 2009 produzido a partir do trabalho do renomado diretor sueco.

O longa de Carax traz os elementos característicos dos Sparks: um ancoramento na cultura popular americana. Está tudo lá: o culto à celebridade, assassinato, julgamento, prisão, tudo embalado por um humor irreverente.

Mas talvez o diferencial do projeto esteja na combinação do universo da dupla com a linguagem cinematográfica que poucos dominam tão bem quanto Carax. O resultado é um musical moderno, que bebe na tradição do canto lírico, tudo sob uma mise-en-scène habilidosa.

Nesse sentido, um elemento essencial do projeto é a presença de Adam Driver, definido por Carax como "um ser vindo de outro tempo". De fato, é difícil imaginar o personagem de Henry sem a vitalidade e estranheza de Drive, especialmente no stand-up sob a alcunha Macaco de Deus.

Se de um lado temos o macaco Adam com suas bananas, de outro há Marion Cotillard, que impregna Ann com seu ar etéreo e trágico, sempre mordiscando uma maçã -o trágico destino do pecado original. Como ressalta Henry, as heroínas operísticas estão sempre morrendo e se curvando para receber os aplausos do público.

Ann e Henry são dois personagens presos a suas mitologias, condenados a morrer ou matar todas as noites. E dessa união nasce uma criatura excepcional, com as orelhas do pai e a voz da mãe.

Vale apontar que "Annette" começa com uma sequência potente que acaba eclipsada pela estrutura da narrativa até o final. Contudo, estamos diante de um cinema único, experimental, excessivo e, às vezes, desequilibrado. Um desses filmes que comprovam que a Croisette é capaz de acomodar de tudo. Obrigada por mais essa viagem, Carax.

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