‘Annette’: Adam Driver e Marion Coutillard estreiam filme que rompe limites da comédia musical

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O diretor de cinema Leos Carax criou seu codinome artístico mirando na indústria americana: misturou as letras do nome de batismo, Alex, com as do prêmio Oscar. Até agora, porém, foi Cannes que marcou a carreira do realizador de 63 anos. No festival da Riviera Francesa ele despontou com “Os amantes da Pont-Neuf” (1991), ressurgiu com “Holy motors” (2012) e se consagrou, em 2021, vencendo o prêmio de direção por “Anette”. Estrelada por Adam Driver e Marion Coutillard, a comédia musical estreou sexta-feira na plataforma de streaming Mubi.

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Em coletiva realizada em um hotel no centro de Londres, Carax afirmou que “quis experimentar algo novo” com “Anette”, filme que causa estranheza ao transitar entre o pop e a música clássica para contar a história de um casal inusitado. Henry McHenry (Driver) é um famoso comediante de stand up que fez sua carreira ofendendo sua plateia. Ele se apaixona por Ann Defrasnoux (Coutillard), uma cantora de ópera cujo sucesso desperta o que há de pior em seu parceiro após o casamento.

Os dois viram alvo da imprensa de celebridades e têm uma filha, Annette — que desenvolve um dom especial e tem papel central na história na segunda metade do filme. Annette é interpretada por uma marionete por questões de efeitos especiais, mas também para representar uma metáfora sobre alienação parental.

O personagem de Driver é a personificação daquilo que hoje se chama masculinidade tóxica, mas Carax defende o personagem como alguém aterrorizado, talvez um reflexo de seus terrores pessoais.

— Sempre me interessei por comediantes de stand up. Acho assustadora a ideia de subir no palco com a obrigação de fazer as pessoas rirem. Para mim isso é um pesadelo. Ao mesmo tempo eu achei libertário poder fazer um personagem que não precisa fazer ninguém rir — diz Carax. — Eu acho que a comédia, pelo menos a boa comédia, é destrutiva. Autodestrutiva na verdade.

A ideia original do filme, conta o diretor, foi dos irmãos Ron e Russel Mael, que formam o duo pop Sparks. Ativos desde os anos 1970, os americanos participam da trilha sonora e assinam o roteiro com o diretor. Ron conta que o protagonista tem um quê de Andy Kaufman, comediante nova-iorquino morto em 1984 que desafiava plateias com seu humor.

— Ele era muito ofensivo e deixava a gente sem saber o que era personagem e o que era personalidade. Pesquisando, descobrimos que aparentemente ele era mesmo ofensivo com todos o tempo todo. Então, a discussão aqui é: quanto dessa comédia ofensiva é um reflexo do próprio comediante?

Cantoria no sexo oral

Além dos limites da comédia, “Annette” também parece fazer parte da safra recente de filmes que discute o machismo. Os Spark explicam, no entanto, que a história do comediante violento denunciado por abusar de ex-namoradas surgiu há nove anos.

— Claro que o movimento #metoo foi só a explosão de algo que sempre existiu, e todo mundo sempre soube disso — diz Russel.

Estas questões, no entanto, podem ficar em segundo plano por causa de uma cena específica que chamou a atenção de alguns críticos. Na sequência, o personagem de Driver aparece fazendo sexo oral na personagem de Coutillard, interrompe o ato para cantar um verso de uma canção e retorna à atividade anterior.

— A comédia musical é sempre algo em que nada acontece além de os personagens se apaixonarem. Ninguém transa, ninguém vai ao banheiro. Resolvi quebrar esse paradigma. Eles estão apaixonados e vão transar — explicou o diretor. — O burburinho em torno da cena é indicativo de um retrocesso moral pelo qual o mundo está passando atualmente e que se repete em ciclos.

O duo Sparks comentou achar triste que algumas pessoas reduzam a história de “Annette” a uma cena de sexo, mas, ao mesmo, aponta que ela é também uma representação do filme por inteiro, já que, segundo eles, é a primeira vez na história do cinema que algo desse tipo é feito e que o objetivo deles era romper com o cânone do musical.

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