Anna Maria Maiolino mostra que mundo vive uma espiral de guerra e de autoritarismo

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***ARQUIVO*** SÃO PAULO,  SP - 06.04.2022 -  Anna Maria Maiolino (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)
***ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP - 06.04.2022 - Anna Maria Maiolino (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Era 1967 e muita gente no Brasil estava paranoica com escutas telefônicas do regime militar. Anna Maria Maiolino era uma delas e decidiu, neste mesmo ano, levar uma obra de um grande ouvido estofado e pintado, que ela chamou de "Psiu", para uma mostra de resistência no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro durante a ditadura, a "Nova Objetividade Brasileira".

A onomatopeia era um lembrete daquela orelha que tudo escuta, mas não só. A depender do estado de espírito de quem ouve esse "psiu", ele pode ser um silenciamento, uma bronca, uma paquera ou um sussurro de quem precisa se comunicar pelas poucas brechas que restaram.

Mesmo marcada pela tragicidade, a obra tem o aspecto jocoso das situações que são ambivalentes, diz Maiolino. A peça original se perdeu, mas sua ideia é retomada na grande retrospectiva da artista no Instituto Tomie Ohtake que começa neste sábado, com cerca de 300 trabalhos.

e também a vida imigrante de quem transita entre o italiano, o português e o espanhol com esse chamado que não está em língua nenhuma.

A mostra tem o mesmo porte de só outras duas feitas na instituição - a de Louise Bourgeois e de Yayoi Kusama - numa tentativa de apresentar a artista nascida na Itália e com uma obra extremamente brasileira para um público ainda mais amplo no mês em que ela faz 80 anos.

Não à toa, Maiolino é apresentada na primeira sala, que leva seu nome, com trabalhos que registram afetos, intimidades e deslocamentos. Nos "Mapas Mentais", se vê uma espécie de "jogo da vida" da artista, conta Paulo Miyada, que organiza a exposição.

Percorrer os quadrados do tabuleiro é acompanhar o nascimento dela na Itália em meio à Segunda Guerra Mundial, a fome, a imigração para a América do Sul, o amor, o casamento, o nascimento dos filhos, uma ida à Nova York, um retorno para o Brasil, uma separação, a solidão.

'Capítulo II', da série 'Mapas Mentais', obra de 1976 de Anna Maria Maiolino em retrospectiva no Instituto Tomie Ohtake Divulgação 'Capítulo II', da série 'Mapas Mentais', obra de 1976 Anna Maria Maiolino em retrospectiva no Instituto Tomie Ohtake **** "Durante muito tempo no Brasil tudo isso foi tratado, no caso da trajetória da Anna, como se fosse uma espécie de ruído, algo que seria recomendável que ela não expusesse, não transparecesse", afirma Miyada.

Muitas vezes essas eram as mesmas pessoas que se deliciavam comentando, por exemplo, sobre um lado sedutor de Brancusi, ou da série de amantes de Picasso, lembra o organizador. E tratavam o universo doméstico como algo menor, menos digno de retrato.

Não que Maiolino se afetasse muito por isso. "Se a pessoa faz uma crítica boa, tudo bem, mas eram imbecis", caçoa a artista. A postura jocosa também parece ser resultado de uma clareza do lugar do que é considerado menor. "Uma ideia escrita no papel pode ser uma grande coisa. Não achava que era necessário fazer algo grande, sempre achei que você poderia se expressar pelo pequeno."

A vida íntima transbordou para outros trabalhos que retomam uma espécie de árvore genealógica e até para a icônica "Por um Fio", em que essa linha da vida percorre mãe, avó e filha na fotografia. Existe uma certa dor dessa condição materna em "O Coração de Mãe", com o órgão representado de maneira tão agigantada que transborda do peito dessa mãe que se torna só uma silhueta.

Maiolino, que nasceu em Scalea, na Itália, passou a adolescência na Venezuela, se mudou para o Rio de Janeiro e ainda viveu alguns anos em Nova York e em Buenos Aires antes de se fixar de vez em São Paulo em 2005, também parece se recriar na escultura "Segmentada", com uma mesma matéria partida em diversos blocos daquele indivíduo que foi partido em mãe, mulher, amante, imigrante, artista e outras mais.

Ela já apontava para uma reflexão social e política de seu tempo nessa cartografia afetuosa. "Os anos 1970 foram uma década de censura e de repressão política, mas também de censura do afetivo", diz Miyada. "E hoje a gente tem todo esse discurso, principalmente o feminista, nos avisando que o íntimo é político, especialmente para as existências que não são a do homem branco heterossexual."

A artista também avança numa discussão macro dessa repressão. "Arroz e Feijão", instalação que vai ser remontada agora, foi feita durante a abertura do regime militar, quando o meio artístico estava fragilizado. Era um momento, segundo ela, que eles tinham até dificuldade de dialogar - parecia que faltava vocabulário, as palavras não vinham.

Em mesas que rodeiam uma outra grande com pratos com brotos, ela servia arroz e feijão para os artistas, num ato que, para Miyada, era o de compartilhar a fome, não a fartura.

A ironia de Maiolino também retorna em obras como "O Herói", o retrato de um esqueleto com um excesso de medalhas que apontam para uma certa falta de pudor no exercício do poder. Fome e autoritarismo são temas que encontram ecos agora, e que reforçam a tese que Miyada constrói na mostra de que o trabalho dela é espiralar, tal qual a história.

"O homem não aprende. Estamos novamente na estaca zero do que é o humano, do que é o respeito pelo outro", afirma Maiolino. "Sei o que é deixar uma cidade para se refugiar. Agora, temos a guerra na Ucrânia. Fico em pânico quando ligo a televisão. É muita dor."

Ela cavouca, no entanto, a beleza no que é trágico. Quando a artista morou na Argentina no final dos 1980, ela teve contato com as Mães de Maio. Saiu de uma das reuniões vomitando de tanta dor por essas perdas, mas esboçou um trabalho há 30 anos, "Las Locas - O Amor se Faz Revolucionário", que registra a força da movimentação das mulheres para encontrar seus filhos e é montado pela primeira vez agora.

As mães surgem desses blocos de argila em feições tão simples que ninguém pode ser identificada. É um gesto mínimo, quase primordial, que recria essas vidas tão variadas. "O princípio e o fim sempre se encontram. Quando estou perdida sempre volto para o princípio. Achei que era uma maneira de me reconhecer e ao, mesmo tempo, ser diferente e ir adiante", conta ela.

Miyada lembra ainda uma conotação importante dessa instalação. "As Mães de Maio não foram importantes somente para exigir a abertura do regime militar. Elas são até hoje fundamentais para impedir qualquer esboço de uma tentativa de relativizar a violência de Estado. Há certos pilares que, quando se tornam negociáveis, toda a casa se desmancha."

O mal-estar do que é ceifado num regime autoritário, no entanto, permanece. Várias obras que estiveram numa exposição de Maiolino no Rio em 1978, chamada "Aos Poucos", indicam essa expressão do luto que é sempre inacabado, do que nunca vai encontrar resolução.

Em fotografias delas, a língua é cortada por uma tesoura e pode se calar. Uma venda preta passeia pelo seu rosto e até libera o olhar, mas nunca sai totalmente.

O lembrete é ainda mais frustrante na mesa que ela monta com um jogo de paciência que nunca termina. Jogando, se percebe que algumas cartas saíram do baralho. E nunca será possível substituir qualquer uma delas.

ANNA MARIA MAIOLINO – PSSSIIIUUU...

Quando: 7 de maio a 27 de julho. De ter. a dom.: 11h às 20h

Onde: Instituto Tomie Ohtake - av. Faria Lima, 201, (entrada pela r. Coropés, 88), Pinheiros, SP

Preço: grátis

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