Anitta, Leonardo DiCaprio e a nova tentativa de silenciamento das mulheres

Anitta e Leonardo di Caprio contra Bolsonaro (Foto: Getty Images)
Anitta e Leonardo di Caprio contra Bolsonaro (Foto: Getty Images)

Se alguém ainda tem dúvidas de que Anitta se tornou uma potência internacional… É melhor pensar novamente. A cantora, antes tão criticada pela falta de engajamento político, tem se mostrado incansável quando o assunto é a política do Brasil. Tanto que foi atrás de ninguém mais, ninguém menos, que Leonardo DiCaprio para pedir ajuda.

No último baile do MET, um dos eventos mais quentes da moda, que acontece sempre na primeira segunda-feira do mês de maio, a cantora brasileira começou uma amizade de milhões com o astro do cinema. O motivo? Os rumos das eleições por aqui. Tudo começou como um bate-papo amigável no after-party do evento, mas acabou virando uma conversa de horas sobre o que tem acontecido por aqui.

Porém, entre o aspecto inusitado desse encontro e os efeitos que ele teve - Leonardo DiCaprio se uniu ao ator Mark Ruffalo para pedir aos jovens brasileiros que tirem o seu título de eleitor dentro do prazo, válido até 4 de maio deste ano -, Anitta precisou dar um aviso ao seu público: "não levem pro mal sentido, não tem ninguém flertando com ninguém".

Parece um comentário engraçadinho e descontraído, bem o tipo de coisa que falaríamos no Twitter. Mas há de considerar a cortina de fumaça que costumamos criar quando duas pessoas famosas começam a conversar - principalmente se forem homem e mulher.

Mesmo que a história toda se torne um flerte de verdade, achamos importante fazer um recorte que mostra como, ainda hoje, o envolvimento de mulheres na política pode ser facilmente mascarado por fanfics sobre um suposto novo romance - daí a necessidade da própria Anitta dizer que, de flerte, a interação com DiCaprio não tinha nada.

Por ser uma pessoa de tanta visibilidade, Anitta provavelmente já está acostumada a lidar com a crítica, e é verdade que ela usou o período de pandemia para assumir um posicionamento político, tão cobrado pelo público que a acompanha. No entanto, a visibilidade escancara também um movimento comum de deslegitimação de discurso.

A cantora se adianta em uma questão que, ela sabe, pode roubar a cena do verdadeiro assunto: a política brasileira. E, para isso, todo mundo sabe que o flerte, o romance entre duas celebridades, é só uma das facetas.

O presidente Jair Bolsonaro entregou de bandeja a outra: a conexão da artista pop com o crime e o "caminho do mal". Não só isso, mas ao invés de explorar as ações positivas que tem feito (se é que existem) como resposta às críticas de Anitta sobre o seu posicionamento a respeito do meio ambiente, debochou do encontro da artista com um dos mais famosos ativistas pela crise climática do mundo.

Vale lembrar que Leonardo DiCaprio fundou em 2010 uma fundação que leva o seu nome e que, até agora, já arrecadou mais de 80 milhões de dólares para causas climáticas e financiou mais de 200 projetos em 50 países. Ele também foi eleito, em 2014, como o Mensageiro da Paz da ONU para o clima.

Ok, concordamos que o seu histórico com mulheres não é dos melhores, ele tem fama de namorar apenas as "novinhas" e muitos disseram que o seu maior desafio profissional recente foi fazer o par romântico de uma mulher da sua idade no filme "Não Olhe Para Cima", da Netflix. No entanto, isso também é usar um recorte para deslegitimar ações concretas que o astro fez pelo meio ambiente mundo afora.

O silenciamento do discurso feminino

Voltemos ao assunto: não é de hoje que as relações e vivências das mulheres são usadas como uma ferramenta para tirar o foco do seu trabalho e até do seu discurso. Pegue as vítimas de estupro ou de abuso sexual, por exemplo: as suas roupas, o seu nível de embriaguez e até o lugar onde estão são frequentemente usados como "desculpas" para deslegitimizar uma acusação de violência sexual.

O caso Amber Heard e Johnny Depp também vale de exemplo. Em uma batalha judicial eterna, em que é possível perceber que os dois lados, de certa forma, foram violentos, Amber foi de vítima a vilã em menos de 10 segundos. Isso porque o ator de Hollywood usou de tudo em seu poder para provar que não foi violento (apesar de ter sido) e que a ex-mulher é louca (o que não é verdade).

E, ok, talvez esse seja um caso extremo em que as variantes negativas são maiores que as positivas. Podemos usar a própria Anitta como exemplo, mais uma vez. O seu tipo de música, a sua origem, até mesmo as roupas que ela usa em seus clipes e nas suas apresentações já foram usadas como arma contra ela, tirando o valor das suas opiniões, das suas falas e até das suas ações.

É onde entra a vulgaridade da resposta. Sem argumentos contrários para rebater uma opinião negativa, é comum as pessoas partirem para a agressão (às vezes, puramente verbal) demonstrando que o outro feriu valores importantes para as "pessoas de bem".

No Brasil, um país onde o machismo ainda prevalece e o corpo feminino ainda é visto como patrimônio público, usá-lo contra as próprias mulheres, culpabilizando-as pela violência que sofrem, usando suas escolhas de vestimenta e de atuação no meio social para diminuir e silenciar os seus discursos é mais comum do que pensamos.

Anitta, ainda bem, parece muito à frente de todos nós ao simplesmente não responder comentários que não merecem sua atenção - e até de bloquear certas pessoas nas redes sociais. Para todas as outras, resta buscar abrir os olhos para a deslegitimação de discurso no seu entorno até que, possivelmente, isso não seja mais necessário no futuro.