Anitta x Rock in Rio: cantora foi precursora do funk no festival?

Anitta recebendo o prêmio de Melhor Clipe Latino por
Anitta recebendo o prêmio de Melhor Clipe Latino por "Envolver" no VMA 2022 no Prudential Center em agosto de 2022 em Newark, Nova Jersey. (Foto: Theo Wargo/Getty Images for MTV/Paramount Global)

Logo após o Rock in Rio 2022 chegar ao fim, a cantora Anitta usou as redes sociais para lamentar a falta de espaço que os artistas brasileiros têm no festival e como ela precisou lutar para levar o funk para o Palco Mundo na edição de 2019. A artista declarou no Twitter que passou por uma “guerra silenciosa” para fazer o funk ser respeitado e, ao ver tantos músicos se apresentando no último fim de semana, sentiu que “aquela briga não foi à toa”.

De acordo com a carioca, “o funk só estava lá porque foi obrigado a ser engolido pelo festival”. Em diversos momentos, Anitta já afirmou que está comprometida a fazer o ritmo, que por tanto tempo foi classificado como uma “cultura inferior” por ser popular nas periferias do país, ser respeitado. Mas antes dela, o ritmo já começava a ganhar notoriedade nos festivais de música brasileiros.

“O funk vem numa crescente por razões que transbordam aquilo que o define como gênero. Os gêneros musicais são organismos vivos que se transformam, e isso aconteceu com o funk”, explica Lize Antunes de Oliveira, professora universitária e pesquisadora de festivais de música, em entrevista ao Yahoo.

“Essas nuances que flertam como sonoridades mais ‘pop’ não são algo novo, mas ainda é possível identificar nessas canções o que é originário daquilo que, musicalmente, sedimentou a trilha que Anitta percorre como artista”, acrescentou a especialista, que atualmente pesquisa o Rock in Rio e o Glastonbury, um festival que acontece na Inglaterra.

Show de Anitta no festival

Em 2017, a organização do festival foi questionada pela ausência de Anitta no line-up - naquele ano, a artista já iniciava sua carreira internacional. Na ocasião, a produção justificou que o funk não era um estilo para o festival.

"Era uma obrigação nossa. O funk não tem a ver com o Rock in Rio... Não é meu estilo de música, faço pesquisa de mercado. Gosto de Guns N' Roses, senão eu não teria chamado tantas vezes e não teriam me enchido o saco", declarou Roberto Medina, criador do festival de música.

A afirmação gerou críticas por parte do público do evento e, em 2019, Anitta foi convidada a se apresentar no Palco Mundo, o principal do festival. A mesma edição também inaugurou o "Espaço Favela", palco dedicado a artistas e estilos antes ignorados pelo festival.

No show de Anitta, ela misturou funk, pop e reggaeton e colocou o paredão do Furacão 2000 como cenário. Entre as faixas apresentadas, estavam "Show das Poderosas", "Bang", "Sua Cara", “Loka", "Essa Mina É Louca", "Movimento da Sanfoninha", "Vai Malandra" e "Bola Rebola”.

“Eu ousaria dizer que, se Anitta esteve no Palco Mundo em 2019, foi mais por essas nuances e menos pelo funk que ela promove, já que foi isso que a colocou no patamar de artista que ocupa. Por outro lado, ela foi certeira em levar algo da cultura estética do funk pro Palco Mundo, e certamente ela tem mérito por fazer isso”, disse Antunes.

Por nuanças, a pesquisadora quis dizer os elementos pop que a artista carrega em suas apresentações e repertório. Esse ano, a brasileira se apresentou no Coachella, festival norte-americano, e ganhou repercussão mundial por representar o funk carioca e levar a bandeira do Brasil, as imagens das favelas do Rio de Janeiro, musicais nacionais e coreografias virais para o evento dos Estados Unidos, fazendo jus ao título de “Girl From Rio”.

Além disso, Lize ressalta que, no mesmo ano que Anitta se apresentou no Rock in Rio, Ludmilla também estava na Cidade do Rock, participando de um show que homenageava o funk no Palco Sunset: “Falamos de um espaço que ali foi inaugurado por muitas figuras, mas, principalmente, duas mulheres.”

Funk no Rock in Rio

Em 2013, a cantora Beyoncé pegou de surpresa o público do evento carioca ao incluir na setlist uma homenagem aos brasileiros. Após a performance de “XO”, ela emendou “Passinho do Volante (Ah Lelek Lek Lek Lek)”, fazendo a famosa coreografia com os Les Twins.

Esse ano, a cantora Ludmilla foi a primeira brasileira a se apresentar como headliner do Palco Sunset, no dia 11 de setembro, último dia do festival. Ela convidou Tati Quebra Barraco, MC Soffia, Tasha & Tracie e Majur para participar de um momento especial da performance, dando visibilidade para as artistas: "Na minha mesa, essas mulheres sempre terão lugar".

"No Brasil, toda mulher tem que lutar, as mulheres negras têm que lutar cem vezes mais", disse Ludmilla em vídeo exibido antes de suas convidadas chegarem. "Eu tenho a sorte de ter uma família, que é minha base feminina de concreto, sempre comigo e me deram força para que eu construísse a minha mesa e convidasse outras mulheres para dividir esse momento comigo.”

Investir em sonoridades que já foram consideradas periféricas e marginalizadas se tornou “uma estratégia de grandes festivais para promover a circulação das pessoas no espaço e atrair outros públicos”. Apesar de ser uma grande vitrine para os músicos, Antunes informa que “os festivais de música atuam mais como reflexo do gosto de determinados públicos, ainda que isso aconteça com um certo 'atraso'”.

“O funk e outros gêneros vêm ocupando um espaço no Rock in Rio, pois o festival entende a necessidade de entregar pro público o que eles querem, então é evidente que há um sentido da estratégia mercadológica aí”, destaca a pesquisadora.

Para ela, o show de Ludmilla no festival é um acerto "benéfico para a marca”. “Um show redondinho, com funk, pagode e letras sobre drogas certamente está a serviço dessa estratégia. Mais do que ceder espaço e dar vistas a esse aparente reconhecimento, há o fator de gerar conversas sobre o que rola nos palcos – e o funk tem servido isso muito bem ao Rock in Rio”, explicou.

Rock in Rio deixa rock de lado e ganha “Espaço Favela”

O Espaço Favela foi anunciado pela organização do festival em 2018, com uma cenografia colorida para representar as comunidades cariocas e dar espaço para novos artistas. A ideia era reforçar o pensamento de “esperança a partir da movimentação da economia criativa“.

Nas últimas duas edições, o espaço vem dando protagonismo para diversos artistas e também precisa criar condições para que as pessoas se interessem e realmente vão ao evento com o intuito de assistir aos shows. “A curadoria não apenas do Favela, mas de outros palcos, também têm um papel fundamental nesse processo. Entender que um festival de música é uma oportunidade de conhecer artistas novos não depende apenas da curiosidade de quem está lá, mas daquilo que o próprio festival promove”, completa Lize.

Funk invade os festivais de música

Em 2019, última edição do Lollapalooza antes da pandemia, uma das apresentações mais comentadas do festival foi o momento em que Post Malone convidou MC Kevin O’Chris para subir ao palco. O autódromo de Interlagos, em São Paulo, foi a loucura enquanto o brasileiro cantava o famoso “Medley da Gaiola”.

A edição de 2020 reservava um espaço quase que exclusivo para o gênero, mas acabou sendo adiada e teve o line-up alterado quando retornou, em 2022. Kevin O’Chris ganhou espaço em show no festival e se apresentou com WC no Beat.

Já no Rock in Rio Lisboa, o funk também vem ganhando espaço nos últimos anos. Antes de Anitta se apresentar na edição portuguesa, Deize Tigrona já havia cantado, em 2008.