Andre Matos expressava preocupações estéticas e técnicas do rock

Foto: Reprodução/Instagram

Por Thales de Menezes

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Morto neste sábado (8), Andre Matos foi um cantor incomum no cenário do rock pesado. Tinha o melhor vocal para o gênero entre os brasileiros, com anos de estudo de canto ajudando a fundir técnica impecável e muita potência gutural.

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Se suas gravações impressionam, era nas performances em shows que mostrava toda a sua força. Mas fora dos estúdios e dos palcos havia um Andre Matos que poderia surpreender muito mais.

Como Bruce Dickinson, do Iron Maiden, ou Geoff Tate, do Queensrÿche, ele transmitia uma imagem tranquila, séria até, longe do modelo farrista indomável que costuma acompanhar os vocalistas de rock.

Matos se mostrava um interlocutor muito articulado, que não deixava em nenhum momento de incluir em suas respostas nas entrevistas uma preocupação com aspectos estéticos e técnicos da vida no rock.

Certa vez, em conversa com este jornalista, fez um diagnóstico longo e detalhado sobre os problemas técnicos enfrentados pelas bandas que caem na estrada no Brasil. Apontava um despreparo extremo nos organizadores de shows pelo país, notadamente no circuito do heavy metal.

Falava de rock, mas parecia um executivo conduzindo uma reunião de negócios.

Matos também defendia uma excelência em gravações e fidelidade a uma busca por música inovadora. Dizia ser importante buscar o sucesso, mas queria estar sempre fora de uma zona de conforto.

Talvez essa renovação que impunha a si mesmo possa explicar sua permanência curta em grupos.

Com o Viper, o qual integrou ainda adolescente, foram apenas dois álbuns nos anos 1980. Bastou para que a banda tivesse reconhecimento até no Japão, mas Matos entraria a década seguinte a bordo de um grupo que seria gigante no metal nacional, só ficando atrás do Sepultura em termos de repercussão mundial.

Os nove anos de Angra foram intensos, com Matos cantando cada vez melhor, mas produziram apenas três álbuns completos. Pouco para quase uma década. No entanto, quem procura entender como é fazer progressive power metal no Brasil vai encontrar uma trilha empolgante em "Angels Cry" (1993), "Holy Land" (1996) e "Fireworks" (1998).

Na década passada, ele buscou na banda Shaman mais liberdade para pegar a mistura de metal e progressivo do Angra e expandir seus conceitos musicais.

Os anos de faculdade de música, de onde saiu maestro diplomado, permitiam voos muito mais ousados. Mas o Shaman teve também uma produção pequena, com os álbuns "Ritual" (2002) e "Reason" (2005).

A posterior carreira solo, inevitável para quem sentia tanta inquietação musical, se resumiu a três discos: "Time to Be Free" (2007), "Mentalize" (2009) e "The Turn of the Lights" (2012).

Para quem deseja conhecer bem as ideias musicais de Matos, há uma infinidade de registros dele em projetos colaborativos que tocou ao longo da carreira, com parceiros do mundo todo. Vale destacar as bandas Virgo e Symfonia. Cada uma gravou um disco, respectivamente em 2001 e 2011.

Bons momentos de Matos estão também em três álbuns que gravou com o Avantasia, projeto liderado pelo alemão Tobias Sammet, cantor da banda alemã Edguy.

Dedicado desde o ano passado a um retorno comemorativo do Shaman, provavelmente deveria ter um punhado de projetos na cabeça. Não teve tempo para concretizá-los.