Cineastas reagem à paralisação da Ancine: 'Movimento cinematográfico está sendo calado'

A cineasta e diretora-presidente da Spcine, Laís Bodanzky, no set do ainda inédito 'Pedro'. (Foto: Alexandra da Silva/Divulgação)

O cinema brasileiro está sob ataque, dentro do próprio país. Essa é a sensação de alguns dos principais nomes da área, que nas últimas semanas têm demonstrado insatisfação com a paralisação da Agência Nacional de Cinema (Ancine), a partir de um imbróglio com o Tribunal de Contas da União (TCU) por conta de questionamentos a respeito do sistema de prestação de contas para produções que recebem investimento público.

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O cenário é agravado também pela decisão da Petrobras de não renovar patrocínios a eventos como a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o Festival do Rio, o Festival de Brasília, o Festival de Vitória e o Anima Mundi, maior festival dedicado à animação na América Latina. O corte, na prática, impõe grandes dificuldades orçamentárias e adaptações que devem significar encolhimento de tamanho.

“O que me deixa triste é que um movimento cinematográfico está sendo calado”, diz a cineasta Gabriela Amaral Almeida, roterista e diretora de ‘O Animal Cordial’, lançado no ano passado, e ‘A Sombra do Pai’ (que chega aos cinemas no próximo dia 2), em entrevista ao Yahoo!.

“A gente pode até fazer um filme ou outro nesse período, mas ele vai ecoar onde? Se a gente não tem onde ecoar, não tem essa caverna, que são os festivais de cinema, os críticos que cobrem esses festivais, a vontade de extensão desse cinema com o cinema do outro, você não tem cinematografia”, afirma.

A cineasta Gabriela Amaral Almeida (Foto: Divulgação)

A Spcine, órgão responsável por fomentar o cinema em São Paulo, publicou nas redes sociais uma carta aberta em defesa do audiovisual brasileiro. O texto assinado pela cineasta Laís Bodansky (de ‘Bicho de Sete Cabeças’ e ‘Como Nossos Pais’), diretora-presidente da entidade, manifesta “repúdio ao que considera o desmonte da política audiovisual brasileira.”

Ainda de acordo com a carta aberta, os acontecimentos recentes “põem em risco um setor responsável por alavancar anualmente mais de R$ 20 bilhões no PIB do país e empregar mais de 330 mil trabalhadores.”

"Não é uma questão financeira”, considera Gabriela Amaral Almeida. “O valor que vai ser poupado com essa medida é risível. É uma questão ideológica mesmo."

Repercussão internacional

A paralisação da Ancine acontece no mesmo momento em que sete filmes com produção nacional acabam de ser selecionadas para participar do Festival de Cannes, o mais prestigiado do cinema mundial. Incluindo ‘Bacurau’, de Julianno Dornelles e Kleber Mendonça Filho (mesmo diretor de ‘Aquarius’), que compete pela Palma de Ouro, principal prêmio do evento.

"O que é preciso fazer pra que essas pessoas entendam a importância que a gente já tem?", lamenta Almeida, ressaltando que o ganho cultural também tem que ser levado em conta quando se analisa o trabalho no setor artístico.

Mendonça foi outro nome importante do cinema brasileiro que se manifestou publicamente preocupado com a situação do audiovisual nacional. “É preciso anos para construir algo, mas a destruição é bem rápida”, escreveu num post no Twitter, compartilhando uma matéria da revista norte-americana Variety que repercutia o assunto.

A reportagem, publicada numa das principais referências do mercado cinematográfico internacional, pontua que o audiovisual brasileiro está em “estado de choque e intenso temor sobre seu futuro”.

Apesar de ressaltar que a investigação do TCU começou em 2017, antes, portanto, da eleição de Jair Bolsonaro, a Variety salienta que “o congelamento do incentivo chega num contexto de clara animosidade entre a indústria brasileira de cinema e TV e muitas partes do governo Bolsonaro, que consideram a indústria brasileira de entretenimento algo que drena o orçamento público”.

Ainda há esperança?

Na próxima semana, o TCU deverá julgar um processo que pode encerrar a paralisação da Ancine e retomar, pelo menos em parte, o repasse às produções aprovadas pela agência.

Enquanto isso, empresas de capital estrangeiro como a Netflix se tornam um refúgio para realizadores. A plataforma de streaming anunciou esta semana que pretende fazer 30 filmes e séries brasileiras até 2021.

O ambiente de incerteza faz com que Gabriela Amaral Almeida, considerada uma das vozes mais promissoras do cinema nacional, pense até mesmo em sair do país para poder trabalhar. "Eu preciso estar onde eu seja necessária”, reforça. “Adoraria ser necessária aqui, mas parece que não é esse o plano”.