Felipe Rigoni e o embate entre os movimentos de renovação e os partidos tradicionais

O deputado federal Felipe Rigoni (PSB-ES) / Yahoo Notícias


A onda antipolítica que tomou forma na avenida Paulista em 2013 e rebentou Brasil afora em 2018 mudou as bases do que até então era chamado de presidencialismo de coalizão.

Eleito no segundo turno com um forte discurso contra “tudo isso que está aí”, Jair Bolsonaro prometeu governar sem montar uma base aliada formal no Congresso. Isso significava deixar de fora do jogo das negociações as lideranças partidárias que desde 1988 ajudaram a alavancar (ou a travar) os projetos de presidentes e governadores eleitos sem formar maioria no Legislativo.

O diálogo entre Executivo e Parlamento previa um desenho suprapartidário a partir de bancadas temáticas, que se aglutinariam a partir de debates específicos, como a reforma da Previdência.

Paralelamente a este movimento, resultado direto da crise da chamada política tradicional, grupos de renovação e movimentos de rua que cresceram durante o impeachment se organizaram para eleger a própria bancada.

Não criaram novos partidos, mas instalaram representantes em siglas de orientações diversas. Representantes do MBL, por exemplo, se abrigaram no DEM.

Tabata Amaral se elegeu deputada pelo PDT em São Paulo.

Como ela, Felipe Rigoni também faz parte do movimento Acredito, fundado em 2017 com a bandeira da renovação política.

E, assim como a jovem liderança paulista, o deputado do PSB do Espírito Santo, primeira pessoa com deficiência visual a assumir uma vaga na Câmara, também é alvo de embates em sua legenda em razão da desobediência partidária.

Rigoni foi um dos deputados suspensos pelo PSB após contrariar a orientação da legenda e votar a favor da reforma da Previdência.

Oitavo entrevistado do programa “Vozes da Nova Política”, Rigoni, de 28 anos, diz ter votado conforme a própria orientação - e não do movimento que reúne empresários e tem o suporte, entre outros, de Luciano Huck, um dos apoiadores de sua candidatura em 2018.

Nascido em Linhares (ES), Rigoni recebeu 84,4 mil votos e tem sido um duro crítico de medidas do governo Bolsonaro, sobretudo na educação. Ele protagonizou um embate com o agora ex-ministro Ricardo Velez Rodriguez quando este foi à Câmara mostrar (que não tinha) ideias para a área.

O jovem parlamentar classifica os atuais titulares da Educação, Direitos Humanos, Meio Ambiente e Relações Exteriores de “quatro cavaleiros do Apocalipse”. Guarda elogios, porém, ao ministro de Infraestrutura, Tarcísio Freitas.

Rigoni, que estudou engenharia e antes de ser eleito fez mestrado em Oxford, na Inglaterra, diz não ter interesse em disputar eleições majoritárias tão cedo, embora manifeste interesse em concorrer à Presidência no futuro.

A trajetória de Rigoni é um exemplo da fragilização e do dilema dos partidos políticos brasileiros pós-2013. E também dos movimentos de renovação.

De um lado, as legendas tradicionais, alinhadas ou não à pauta do governo Bolsonaro, não podem fechar as portas para as novas lideranças que já demonstraram ter potencial de angariar votos e atrair um eleitorado refratário aos vícios da chamada “velha política”; de outro, correm o risco de se tornarem meras legendas de aluguel, transformando em formalidade a orientação partidária. Em uma ponta e outra está a fragilização aguda do sistema partidário, e consequentemente da própria política brasileira.

Esse dilema aparece cada vez que um jovem político sem atuação partidária de base se manifesta sobre as siglas pelas quais foi eleito.

Hoje no DEM, o deputado estadual em São Paulo Arthur do Val, outro entrevistado do programa, já fala de uma espécie de teto de sua legenda às suas pretensões políticas e eleitorais. Uma delas, disputar a prefeitura de São Paulo nas eleições do ano que vem. Para isso não descarta mudar de partido. Qual?

A exceção é o deputado mineiro Tiago Mitraud, também entrevistado no programa, que foi eleito pelo Partido Novo e diz ter encontrado na sigla uma maior propensão a novas ideias, por mais que a intenção esbarre na prática, como se vê no governo de Minas.

No caso do PDT e do PSB de Tabata e Rigoni, o embate se acentuou em temas espinhosos como a reforma da Previdência. “Os partidos são muito importantes. Não se sabe se a estrutura partidária vai continuar no futuro porque a democracia e o mundo estão mudando muito rápido. Mas ainda são importantes, e é melhor que sejam coerentes e tenham uma visão específica do mundo”, admite Rigoni.

“Agora, impor (posições) a pessoas que pensam diferentes e estão no partido, não acho correto. Meu partido faria melhor se tivesse trabalhado onde tinha consenso. A reforma previdenciária teria ficado melhor”, conclui, dando indicações de que conflitos como este estão longe de terem um fim.