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Por que vibradores pilham os homens?

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A História da humanidade é repleta de contradições e ironias. Por exemplo: o vibrador foi inventado na Inglaterra do século 19 para ajudar no tratamento da histeria, “doença” que acometia as mulheres da época com sintomas como insônia, ansiedade, choro compulsivo, falta de apetite, dor de cabeça etc. Acreditavam que a origem do problema estava no útero e a recomendação era alcançar o órgão “por dentro”. Na prática, a paciente deitava de pernas abertas em uma maca e tinha vagina e vulva massageadas pelas mãos do doutor até o ápice da histeria (leia-se orgasmo). Tão eficaz que ela relaxava horrores e marcava a próxima consulta.

Logo surgiram filas nos consultórios, assim como tendinite entre os profissionais mais dedicados. A jornada de trabalho não era exatamente prazerosa – pelo menos não para eles. Então, em 1869, o médico americano George Taylor criou e patenteou um aparelho para substituir o vaivém dos dedos. O “The Manipulator” era uma elaborada engenhoca a vapor que movimentava uma peça parecida com um pênis. Eis o precursor do vibrador, a tal CURA para a “histeria” feminina que hoje PROVOCA um comportamento histérico em muitos homens. “Pra que isso? Não tô dando conta sozinho? Ou ele, ou eu!”. Olha que o troço nem dorme de conchinha…

O que está por trás dessa competição e do tabu em torno de um simples eletrônico? Primeiro, a masturbação feminina. Homens descobrem como o corpo é fonte de prazer desde a pré-adolescência e o sexo solitário é visto com a maior naturalidade. Sabe-se e espera-se que meninos se masturbem. Sinal de virilidade e preparo para não “fazer feio” nas primeiras relações sexuais. Na vida adulta, para extravasar tensões e desejos do dia a dia. Mulheres são “castradas” ainda meninas até quando se tocam sem malícia: “Tira a mão daí, menina!”. Crescem recebendo mensagens (muitas vezes inconscientes) de que sexo é para a satisfação masculina e sua energia sexual deve ser canalizada para o parceiro. “Mulher não precisa DISSO”.

De acordo com uma pesquisa do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) da Universidade de São Paulo (USP), 40% das brasileiras não se masturbam. Dessas, uma em cada cinco nunca experimentou a prática. Não à toa, mais da metade das mulheres (55,6%) revelam ter dificuldade de chegar ao orgasmo no sexo – contra 3,5% dos homens. Sacanagem explícita! Outro estudo, gringo, apontou que elas levam cerca de 20 minutos para gozar na transa (quando gozam) e apenas 4 minutos sozinhas. O vibrador facilita e potencializa os orgasmos porque propicia estímulos bem direcionados sob o controle da mulher. Com muito mais variações que seus dotes manuais.

Aliás, me pergunto se os homens também têm ciúmes dos dedos das parceiras ou de seus chuveirinhos… Porque, né? Outro dado curioso é que 90% das mulheres dizem comprar acessórios eróticos como o vibrador com a intenção de usar a dois, segundo dados da Associação Brasileira das Empresas do Mercado Erótico e Sensual (Abeme). Elas querem ter mais prazer JUNTO com eles. Quem não frequenta sex shops nem está por dentro das novidades da indústria, costuma imaginar vibrador como um produto fálico imenso, de borracha, com aparência de um pênis de verdade e motor interno. Daí mais um motivo para o receio e o preconceito.

Um dos modelos mais vendidos são os chamados bullets: mini-estimuladores para o clitóris com cerca de 5 centímetros de comprimento. Não assusta em termos comparativos. Podem ser usados sobre o clitóris, por exemplo, enquanto acontece a penetração. Existem opções de vibradores em diferentes materiais (silicone, acrílico, metal etc); tecnologias (pilha, bateria, USB, controle remoto bluetooth); formatos (golfinho, batom, esponja de banho etc). Incrivelmente multifuncionais e eficazes, mas ainda assim… OBJETOS. Qual o tamanho da autoestima de um ser humano que se ofende na presença deles? E o homem deixa de masturbar sozinho quando está em um relacionamento? Pois é.

*Nathalia Ziemkiewicz, autora desta coluna, é jornalista pós-graduada em educação sexual e idealizadora do blog Pimentaria

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