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Vida E Estilo

Eu quero filhos, mas não os terei por causa do meio ambiente

Quando as pessoas avaliam se deveriam ou não ter filhos, costumam pensar em suas finanças, saúde, na força de seus relacionamentos e em suas habilidades parentais. Elas raramente levam o meio ambiente em consideração, e o imenso peso que essa decisão pode ter para o planeta (ou nos efeitos que o nosso clima poderia ter na vida dos futuros descendentes)

O primeiro dia de agosto desse ano foi o Dia da Sobrecarga da Terra: uma data simbólica, que marca o momento em que a população mundial já consumiu uma quantidade de recursos equivalente à produzida em um ano, e a população mundial não para de crescer a cada ano (em cerca de 83 milhões, segundo a ONU). Sendo assim, é de se esperar que comecemos a pensar seriamente nas consequências do crescimento populacional.

Isso inclui reconsiderar se realmente queremos procriar. Uma criança a menos por família poderia poupar uma carga ambiental equivalente a emissões de 58.6 toneladas de CO2 por ano, de acordo com uma pesquisa realizada pela Lund University, na Suécia, em 2017, fazendo com que trazer uma criança ao mundo seja mais prejudicial ao ambiente do que, por exemplo, o consumo de carne, dirigir constantemente um automóvel ou realizar viagens de avião. No entanto, decidir quantos filhos ter – ou não ter – é uma questão profundamente pessoal, e é uma escolha com a capacidade de dar um sentido e propósito às nossas vidas de uma maneira que automóvel nenhum seja capaz.

A decisão de não ter filhos é, portanto, considerada uma posição não ortodoxa, se não extrema. E é a postura adotada por Jemima, uma atriz de Londres, de 25 anos, voluntária em uma obra de caridade que cuida do meio ambiente. Ela fez um voto de não ter filhos biológicos em razão de sua preocupação com o planeta, por mais que sempre tenha desejado ser mãe. Aqui, ela explica ao Refinery29 a razão.

Eu soube que não queria ter meus próprios filhos uns três anos atrás. Eu até gostaria, mas não acho que eu deva tê-los. Meu ex-namorado era um ativista incrível, apaixonado, que acabou mudando minha perspectiva sobre várias coisas, e quanto mais observávamos a velocidade com a qual o planeta vem sendo degradado, mais convictos ficávamos de que, se continuássemos juntos, não teríamos filhos. Eu não estou mais com ele – nós terminamos no verão passado, e agora eu estou com um cara que quer suas próprias crianças, mas essa é uma outra história.

Se todas essas catástrofes climáticas estão ocorrendo enquanto eu estou com 25 anos, não consigo nem pensar em como será quando meus futuros filhos estiverem com a minha idade

Por mais que ele queira filhos, eu não acho que teremos os nossos, se ficarmos juntos. Eu não me sentiria bem vendo como seria a vida dos meus filhos nos anos que estão por vir, e isso não vai mudar mesmo que eu fique junto do meu atual namorado. Talvez eu escolhesse a adoção. No momento, desconheço quase todo o processo, e sei que não é tão fácil quanto parece, mas se existir a possibilidade e todos os requisitos forem cumpridos, seria algo maravilhoso de se fazer.

Você pode virar vegano, parar de usar aviões e tudo o mais, mas o impacto de se trazer uma criança ao mundo é imenso.

A principal motivação para a minha decisão é o discurso de que o planeta está mudando. Veja a onda de calor que temos vivido recentemente no Reino Unido, incêndios florestais na Grécia mês passado, e os constantes focos de incêndio na Califórnia. O clima só vai piorar. Se todas essas catástrofes climáticas estão ocorrendo enquanto eu estou com 25 anos, não consigo nem pensar em como será quando meus futuros filhos estiverem com a minha idade. E ainda que resolvêssemos a situação do clima amanhã – com novas regulamentações para uma transição para energias renováveis – a situação já está tão ruim que a vida deles seria pior que a nossa. Eu me sentiria egoísta, pois estaria tendo uma criança por mim, não por eles.

Na geração dos nossos pais, era raro ter filhos e pensar no clima, mas esse diálogo existe na nossa geração. As discussões sobre ter ou não filhos ainda são separadas das discussões ambientais, mas a conexão é importantíssima. Você pode virar vegano, parar de usar aviões, mas o impacto de se trazer uma criança ao mundo é imenso. O filme First Reformed, lançado recentemente, estrelando Amanda Seyfried e Ethan Hawke, explora o dilema entre os filhos e o ambiente, e a brilhante peça Lungs também discutiu isso, então o debate está se tornando mais popular.

É difícil, pois ainda é uma questão muito emocional – muito mais emocional do que deveria ser. É difícil colocar a lógica na frente do coração. Quando alguém argumenta que a raça humana acabaria, se todos pensassem como eu, explico que o mundo já está superpovoado, e que de acordo com a ONU, deverá haver 10 bilhões de pessoas em 2050. Isso não é sustentável para o planeta. É muito pouco provável que todos esses 10 bilhões decidam ser esterilizados.

Não costumo falar com as pessoas sobre a minha decisão pois é algo muito emocional – só mesmo os meus melhores amigos. Eu nunca menciono isso, e só falo a respeito do assunto se alguém me perguntar. Geralmente, quando falamos de algo que alguém não está fazendo, parece que estamos culpando essa pessoa, então eu sempre me sinto meio estranha com o que meus amigos possam pensar. Eu não quero que eles pensem que estou tentando transcender a feminilidade, não é nada disso. O ambiente é, cada vez mais, parte da narrativa sobe reprodução, então alguns dos meus amigos hoje dizem que só terão um filho e depois vão adotar.

No começo, minha mãe achou bem difícil aceitar minha decisão, até porque minha irmã simpatiza bastante com meu ponto de vista. Ela tem a cabeça aberta e nós conversamos sobre isso de um ponto de vista pragmático, deixando de lado as emoções – sobre como é egoísta de minha parte ter filhos somente para passar meus genes adiante. É possível viver todas essas emoções e se conectar a uma criança sem que ela tenha seus olhos. Eu repensaria a minha postura, se houvesse uma grande revolução energética. Eu sempre quis filhos, e minha menstruação veio quando eu tinha apenas 10 anos, então é chato que meu corpo tenha me preparado desde tão cedo para a maternidade.

Eu nunca quis tolher a liberdade de ninguém impedindo que tivessem filhos, isso seria terrível, mas eu acho que as pessoas deveriam pensar melhor, e que deveria haver mais literatura disponível a respeito do assunto. É uma decisão que deve ser tratada com sensibilidade, e que não deveria ser tão polarizadora.

Natalie Gil|

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