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Documentário faz panorama do Brasil durante regime militar, por meio de cenas das “pornochanchadas”

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Cartaz do filme ‘Histórias que Nossas Babás Não Contavam’, um dos 27 longas que tiveram trechos incluídos em ‘Histórias que Nosso Cinema (Não) Contava’. (Imagem: divulgação Boulevard)

Filme brasileiro é só sexo e palavrão. Você certamente já ouviu essa frase por aí, se é que não anda com ela na ponta da língua. Boa parte desta visão, que ainda domina o imaginário popular quando o assunto são as obras cinematográficas feitas no país, é um legado da “pornochanchada”, gênero que teve seu auge na década de 70, em plena Ditadura Militar. Porém, o documentário ‘Histórias que Nosso Cinema (Não) Contava’ chega esta quinta-feira aos cinemas para mostrar que havia ali muito mais do que se via na superfície.

“Acredito que todo filme revela algo sobre o período de sua produção e pode ser visto como um documento histórico, mesmo os mais improváveis”, diz a cineasta Fernanda Pessoa, que dirigiu e roteirizou o filme, em entrevista concedida por email ao Yahoo!. Para alcançar o resultado final, ela levou cinco anos: dois de pesquisa para chegar aos 27 longas dos quais usa trechos, e mais três para montagem, aquisição de direitos e busca pelas cópias em boa qualidade.

Na colagem de imagens que apresenta em tela, o Brasil é passado a limpo. Estão ali o sexo como demonstração de poder; a objetificação não apenas da mulher, mas também da classe trabalhadora; a repressão; homofobia; a migração para as metrópoles na busca de uma vida melhor; discussões sobre aborto e maconha; além do encanto com o consumismo, que desemboca numa crise econômica. São muitos temas e o documentário consegue dar conta de todos eles e ainda construir uma linha narrativa, sem apelar para depoimentos ou narração em off.

Estudiosa da linguagem mais experimental da sétima arte, a diretora cita a teórica francesa Nicole Brenez, que deu o nome de anamnese “à técnica de de agrupar e reunir imagens de mesma natureza, de forma a lhes fazer significar não outra coisa, mas exatamente aquilo que elas mostram e, no entanto, não se quer ver”, explica Fernanda. “Acho que é isso que o filme faz: mostra o que está lá, mas ninguém nunca quis ver”.

“Quando eu fui fazer meu mestrado em Paris, em 2012, eu fiz uma aula sobre a reutilização de imagens no cinema experimental”, conta ainda, falando sob sua inspiração para o documentário. “Lá eu vi um curta-metragem chamado ‘A Queda do Comunismo Vista Pelo Pornô Gay’, do William E. Jones, que começa com a seguinte frase: ‘Mesmo em um lugar improvável, é possível encontrar traços da nossa história recente’. Quando eu vi esse filme e li essa frase, eu tive a ideia de começar a olhar os filmes da “pornochanchada” com um olhar histórico e comecei a pensar no que fazer com isso.”

Muita coisa aconteceu nestes seis anos que separam a semente da ideia e o lançamento do filme nos cinemas. Uma delas foi a ascensão do feminismo como tema de debate em toda a sociedade, algo que torna ‘Histórias que Nosso Cinema (Não) Contava’ ainda mais contundente. “A representação feminina é uma das grandes questões do meu filme e perpassa toda sua duração. Eu acho que esses filmes são um retrato muito fiel do machismo da sociedade brasileira. Muitas vezes pensam que o Brasil é um país bem resolvido sexualmente e com igualdade de gênero, o que não é verdade: o Brasil é um país muito machista e era ainda mais nos anos 1970”, compara a diretora.

“Nos filmes, por um lado existe essa objetificação do corpo feminino muito forte e revoltante. Há um primeiro momento do filme em que mostro como o corpo feminino era usado como metáfora do milagre econômico, e a minha abordagem foi realmente mostrar isso à exaustão, usando a repetição do assunto como recurso para deixar claro o que está em jogo ali”, revela. “Por outro lado, há alguns filmes (que são a minoria dentro desse corpus fílmico, mas que sim existem) que retratam mulheres fortes, buscando sua independência sexual, querendo se divorciar ou mesmo realizar um aborto – algo que ainda hoje é proibido e tabu no Brasil”. Se ela acredita que este contexto mudou de lá para cá? “Houve avanços, com certeza, mas ainda é pouco.”

Hoje, num contexto no qual os grandes campeões de bilheteria do cinema brasileiro são comédias bem mais pudicas, como ‘Minha Mãe é uma Peça’, ‘Até que a Sorte Nos Separe’ e ‘De Pernas Para o Ar’, o sexo foi trocado por uma linguagem televisiva e apropriada para toda a família. Assim, em lugar das “pornochanchadas”, há o que convencionou-se chamar de “globochanchadas”. No entanto, apesar das diferenças, Fernanda consegue enxergar pontos em comum entre as duas vertentes.

“Algo muito recorrente tanto nas “pornô” quanto nas “ globo” chanchadas é a reiteração de papéis tradicionais de gênero, como nos recentes ‘Se eu fosse você’, ‘E aí, comeu?’, etc”, reforça. “Eu tenho certeza que se algum dia olharmos as “globochanchadas” com uma distância histórica e com um olhar voltado para isso, encontraremos coisas muito reveladoras sobre a nossa época. Confesso que não tenho assistido muito esses filmes, então essa tarefa vai ter que ficar para algum pesquisador ou cineasta no futuro”, incentiva.

No momento, Fernanda Pessoa se dá por satisfeita se ‘Histórias que Nosso Cinema (Não) Contava’ provocar uma reflexão e resgate dos títulos que pesquisou tão profundamente. “Eu espero que a gente veja o nosso passado e nossa memória de outra forma e olhe mais para eles”, torce. “Espero que esses filmes tenham uma preservação mais adequada, sejam mais acessíveis ao público, e sejam vistos com um olhar menos preconceituoso. E espero que o filme ajude a refletir sobre o período da ditadura militar, do qual nós somos herdeiros e ainda vivemos as consequências diretas.”

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