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Como é ser mãe de uma criança com alergias alimentares

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A Lombardi com seu filho, Gus, que tem uma alergia alimentar. (Foto cortesia de Lisa Lombardi)

Se você der uma laranja ao meu filho, ele vai perguntar: “Ela tem oleaginosas?”

Você pode pensar: “O que há de errado com este menino? Claro que não tem!”, mas eu penso “Que menino inteligente”.

Meu filho Gus tem uma alergia alimentar a oleaginosas, e até quantidades minúsculas ingeridas acidentalmente podem provocar uma anafilaxia – resposta imunológica grave que afeta diversos sistemas e pode levar o corpo a um estado de choque. Ela pode ser fatal, por isso qualquer consumo acidental significa que precisamos usar um dispositivo de epinefrina (como o EpiPen ou Auvi-Q) e correr para o pronto-socorro.

A parte mais difícil de criar uma criança com alergias alimentares é o fato de que você precisa ser perfeito. Você tem sempre que fazer aquela pergunta sobre as oleaginosas. Você precisa ler rótulos, mesmo de alimentos que já comprou um milhão de vezes antes (os ingredientes mudam). Para ser honesta, isso faz com que eu me sinta frequentemente ansiosa.

Há algumas semanas os noticiários divulgaram a história trágica de Alexi Ryann Stafford, uma menina de 15 anos da Flórida que faleceu após comer um biscoito da Chips Ahoy sem saber que ele continha pasta de amendoim. A parte de cima da embalagem estava rasgada, então quando ela pegou um, na casa de uma amiga, não percebeu que era uma variedade feita com amendoim, e não o biscoito original, que não possui o ingrediente e tem uma embalagem vermelha muito parecida. Apesar de ter sido tratada com dois dispositivos de epinefrina, ela teve um choque anafilático e morreu.

Histórias como esta são aterrorizantes, porque destacam que só é preciso um único momento para que algo fatal aconteça, mesmo que você seja cuidadoso todos os dias. A família de Alexi merece todo o reconhecimento por compartilhar a história de sua filha, na tentativa de garantir que nenhuma família cometa o mesmo erro.

Afinal, todos nós podemos errar, independentemente do quanto formos cautelosos. Uma vez, meu marido comprou alguns biscoitos no mercado. Ele leu o rótulo – ou pelo menos pensou que leu. Enquanto eu estava no trabalho na semana seguinte, nossa babá me ligou e disse: “Gus comeu um pedaço daquele biscoito e a boca dele está coçando”. Os biscoitos tinham noz-pecã, um fato que estava escondido em uma longa lista de ingredientes, e meu marido não percebeu. (Felizmente, a reação foi leve).

Em outra ocasião, levei um sanduíche italiano para casa sem perguntar se continha oleaginosas. Depois de uma mordida, meu filho disse: “Minha língua está estranha”.

“Ah não”. Estas são as palavras que você nunca quer ouvir se seu filho tem uma alergia alimentar. Eu abri o sanduíche e encontrei lâminas de pistache, uma das oleaginosas às quais ele é mais alérgico, nas fatias de mortadela italiana. O que foi que eu fiz? Imediatamente injetamos a epinefrina na coxa dele e corremos para o hospital.

Às vezes as coisas acontecem quando você está fora de casa e não consegue controlar as circunstâncias.

Há pouco tempo, numa noite de sexta-feira, levamos nossos filhos ao Yankee Stadium para ver uma partida dos Yanks contra os Mets, seu time preferido. Gus me disse que o homem sentado atrás dele estava comendo amendoins. Ele estava abrindo cada um deles e jogando fora as cascas, depois de consumir o fruto. Nenhum problema para ele, que estava apenas apreciando um jogo de beisebol em uma deliciosa noite de verão. Mas era um possível problema para Gus. Havia uma infinidade de cascas sob o assento do homem, e várias delas caíram embaixo do assento de Gus. Se um daqueles fragmentos chegasse aos nachos do meu filho, poderíamos ter uma emergência de vida ou morte em nossas mãos.

Enquanto Gus e seu irmão trocaram de assento, meu marido jogou os nachos fora e trocou a sua bebida. Eu me perguntei se deveria pedir que alguém nos mudasse de lugar, mas para onde poderíamos ir? O estádio estava lotado.

Esta é uma noite relativamente normal quando você está lidando com alergias alimentares. Queremos que o nosso filho cresça como as outras crianças, aberto a todas as incríveis aventuras que a vida tem a oferecer. Partidas de beisebol, festas, viagens – nós fazemos tudo isso. Mas ter uma alergia alimentar na família significa viver em um estado sempre pronto para emergências. Penso nisso sempre que cogito tomar uma segunda taça de vinho: será que eu conseguiria dirigir até o pronto-socorro?

A primeira reação séria do meu filho aconteceu quando ele tinha três anos de idade, em uma viagem de férias para Porto Rico. Eu ainda agradeço a Deus por tudo ter ficado bem, pois aquele dia poderia ter sido muito diferente se estivéssemos nas profundezas da floresta tropical e não em um hotel em San Juan. O rosto dele inchou muito depois de comer algumas nozes, e ele teve dificuldade para respirar. Foi aterrorizante.

Ele já teve reações depois de uma festa de família, depois de tomar uma bebida do McDonald’s que deve ter sido contaminada com vestígios de oleaginosas, e depois de um exame envolvendo o consumo de amendoim no consultório do alergista.

Às vezes eu não consigo dormir, pensando nos perigos.

A única coisa que me acalma, para ser honesta, é Gus. Crianças com alergias alimentares têm um superpoder: elas são muito mais maduras do que a idade que têm.

Gus tem 11 anos e consegue se expressar muito bem. Quando ele pede algo, seja em um restaurante ou local de fast food, ele diz: “Eu sou alérgico a todos os tipos de oleaginosas. Você tem certeza que nada que nós pedimos as contenha? Obrigado”.

Ele está bem. Ele é autoconfiante.

Ele vai conseguir.

Lisa Lombardi

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