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Vida E Estilo

“Casais acham mais fácil fazer sexo do que revelar fantasias”, diz pesquisador

Nathalia Ziemkiewicz
Yahoo Vida e Estilo
Unsplash

Nove em cada dez pessoas fantasiam com um ménage à trois. 65% curtem a ideia de sentir dor na cama (tapas, mordidas, cera quente etc). Sexo em público ocupa o quarto lugar no ranking fetichista. 58% se empolgam com a possibilidade de ver o(a) parceiro(a) transando com alguém… Mas quantos têm coragem de admitir e quantos negarão até a morte?

No recém-lançado livro Tell me what you want (“Me conte o que você quer”, sem versão em português), o psicólogo Justin Lehmiller, do respeitado Instituto Kinsey de Sexualidade, discute esses e outros resultados da pesquisa sobre desejos sexuais que conduziu com mais 4 mil americanos entre 18 e 87 anos. Nesta entrevista, ele explica por que temos vergonha do que nos excita – e como superá-la a dois.

– Todo mundo tem fantasias sexuais? É normal?

JUSTIN – A grande maioria, sim: 97% dos participantes da minha pesquisa disseram ter fantasias sexuais. Um dos motivos pelos quais as pessoas se sentem constrangidas e culpadas a respeito de seus desejos tem a ver com a estreita definição de “normal” que nos é imposta socialmente. Muitos fazem sexo como acham que devem fazer, tentando se encaixar em padrões bastante limitados e ignorando suas reais fantasias. Se conseguimos falar sobre elas e compartilhá-las com o(a) parceiro(a), reduzimos a ansiedade e ficamos livres para curtir o sexo de verdade. Isso nos aproxima do outro, cria uma base para melhorar a vida sexual e amadurecer o relacionamento.

– Segundo a sua pesquisa, sexo a três é a fantasia sexual mais comum (admitida por 89% dos entrevistados). Esse resultado te surpreendeu?

JUSTIN – Não (risos). Sexo com múltiplos parceiros é algo bem popular na pornografia… Acredito que o apelo dessa fantasia está em proporcionar muita novidade e coisas diferentes ao mesmo tempo. A maioria disse que se imagina com o(a) próprio(a) parceiro(a) e uma terceira pessoa. Ou seja, não querem substituir ninguém, mas diversificar – especialmente em longos relacionamentos que experimentam a queda do desejo e da frequência sexual.

– E como você explica o segundo lugar ocupado pelas fantasias BDSM (sigla pra Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo)?

JUSTIN – Essas práticas envolvem [um jogo de] poder, controle e/ou sexo “rude”. Elas criam um estado mental de atenção plena. A pessoa se concentra no “aqui e agora”, esquecendo muitas angústias que normalmente a impedem de se envolver e aproveitar o momento. O masoquismo, por exemplo, tem mais a ver com se entregar à situação do que com sentir ou não dor.

O psicólogo Justin Lehmiller, autor do livro “Tell me what you want”, entrevistou 4 mil pessoas sobre fantasias sexuais (Foto/Divulgação)

– O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), elaborado por médicos e psicólogos, classifica como “parafilia” os desejos sexuais “incomuns”. Quais deles você considera que não deveriam estar ali?

JUSTIN – Sadomasoquismo, podolatria [fetiche por pés] e cross-dressing [vestir roupas do sexo oposto] são muito comuns. Além disso, o fato de uma fantasia não ser estatisticamente comum, não quer dizer que ela faça mal à saúde e deva ser diagnosticada como um transtorno mental. Pesquisas mostram que não há nada de errado com a maioria das pessoas que tem desejos BDSM, por exemplo.

– Quando uma fantasia sexual se torna preocupante?

JUSTIN – O principal indicativo é se ela te traz muita angústia, interfere na sua produtividade, na capacidade de estabelecer o tipo de relacionamento que você gostaria. Também é o caso de procurar ajuda profissional se você tem fantasias recorrentes que envolvem atos não-consensuais ou perigosos para você ou outra pessoa.

– É possível ter uma vida sexual satisfatória sem realizar as próprias fantasias sexuais?

JUSTIN – Acho que sim. Às vezes só de conversar com o outro sobre seu desejo já é interessante. Não cabe a mim dizer se a pessoa deve ou não colocar em prática porque existem diferentes personalidades, relacionamentos… Vocês podem ficar mais próximos enquanto casal e realmente curtir a experiência. Mas realizar uma fantasia sexual também envolve riscos, como ver suas expectativas frustradas.

Como falar abertamente disso no relacionamento?

JUSTIN – Os casais acham mesmo mais fácil fazer sexo do que falar sobre ele. É muito importante estabelecer esse tipo de diálogo com frequência, seja pra discutir métodos contraceptivos ou dizer na hora como você gosta de ser tocada(o) etc. Também existem muitas formas de iniciar a conversa sobre desejo especificamente: assistindo um filme erótico a dois, surpreendendo com uma lingerie nova ou um brinquedinho, criando jogos sexuais…

E se um não topar a fantasia do outro?

JUSTIN – Tudo bem! Pode ser que você não curta uma ou outra coisa, mas as pessoas têm várias fantasias sexuais. Meu conselho é não desistir de procurar interesses mútuos. Tente se manter aberto e sem julgar o(a) parceiro(a) – porque você não quer ser julgado também. Cuidado com a sua linguagem não-verbal [sabe aqueles olhares e caras e bocas?] enquanto ele(a) se expõe. Você não precisa topar ou colocar em prática a fantasia sexual dele(a). Essa conversa tem a ver, antes de qualquer coisa, com construir um ambiente de intimidade e confiança.

*Nathalia Ziemkiewicz, autora desta coluna, é jornalista pós-graduada em educação sexual e idealizadora do blog Pimentaria

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