'Amor de Mãe': o que Durval e Natália nos ensinam sobre apagamento de mulheres

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A história entre os personagens Durval e Natália em
A história entre os personagens Durval e Natália em "Amor de Mãe" tem gerado criticas de alguns internautas (Foto: Reprodução / Globo)

Neste texto, você encontra:

  • A mudanca de trama na segunda fase de 'Amor de Mãe';

  • As críticas ao relacionamento de Durval e Natália;

  • A narrativa de apagamento das personagens femininas.

Antes da pausa por conta da pandemia de coronavírus, a novela 'Amor de Mãe', da Globo, era um verdadeiro sucesso nas redes sociais. Com personagens femininas fortes e empoderadas, uma trama intrigante e muitos momentos emocionantes, o Twitter vivia em polvorosa por conta dos novos capítulos diários. No entanto, a "segunda temporada" (como algumas pessoas brincam online) da novela tem gerado uma série de desconfortos.

O principal ponto que levantado é como as personagens femininas têm quase perdido espaço para os homens, que estão traçando um arco de redenção em relação aos interesses amorosos. Um exemplo disso é a relação de Ryan (Thiago Martins) e Marina (Érika Januza). O casal volta a namorar depois que a tenista lança um livro e conta as dificuldades que passou ao longo do tempo, inclusive a falta de apoio do então namorado. Tocado pelas palavras da ex, Ryan decide ir até ela para pedir desculpas, e os dois retomam a relação.

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Um detalhe que merece atenção é que a personagem de Érika, no ponto alto da carreira, abre o coração para o mundo sobre as dificuldades que passou e a sua história de superação, no entanto, o protagonismo volta para Ryan, que acredita que um pedido de desculpas é o suficiente para resolver uma relação complexa. É como se a história de Marina fosse sobre ele e não sobre o talento dela e os obstáculos que ela superou para chegar onde chegou.

Essa trajetória fica ainda mais clara com o personagem de Enrique Diaz, o Durval. Isso porque, recentemente, ele voltou a morar junto de Natália, que passou 17 anos cuidando sozinha da filha do casal, Carol. Durval, aliás, abandonou Natália com a filha, e a relação das duas cresceu repleta de conflitos.

Quando descobre o pai, Carol decide morar com ele e começa a cobrar a postura mínima: que ele banque os seus estudos e ajude a mãe com a sua educação. E, cumprindo com esse mínimo, toda a história de luta e batalha de Natália, que criou um espaço para pais e filhos e cuida dele sozinha, é apagada porque o pai da sua filha decidiu agir como tal. E tem mais: inventa uma necessidade de mudança para ser convidado a morar com a ex-esposa e aumentar as suas chances de retomar o relacionamento.

A realidade de ser mulher e mãe no Brasil

Aqui, vale pontuar duas coisas importantes: antes de mais nada, o número de pais que não são presentes na vida dos filhos é maior do que se imagina. Em termos oficiais, são mais de cinco milhões e meio de crianças que não contam com o nome do pai na certidão de nascimento, de acordo com o Censo Escolar realizado pelo Conselho Nacional de Justiça – CNJ, de 2013.

O Brasil é um país gigante - isso não é novidade para ninguém -, mas ainda passa despercebido o fato de que quase metade das casas do país são sustentadas por mulheres. Ou seja, elas possuem a principal fonte de renda do lar. Segundo uma pesquisa liberada em 2018 pelo Ipea, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o percentual de casas comandadas por mulheres no Brasil saiu de 25% em 1995 para quase 45% em 2018 - mais de 57 milhões de lares, diz o IBGE. Esse aumento, claro, tem como influência o aumento da participação feminina no mercado de trabalho, mas também é um sinal de luta e conquista.

Some-se a isso o fato de que, fora da televisão, o Brasil lida com uma realidade em que mais de 11 milhões de mulheres são mães solo, ou seja, cuidam sozinhas dos filhos. Tudo isso significa que ser mulher e mãe, por aqui, não é simples, principalmente porque a nossa sociedade é extremamente paternalista e machista - o que significa que mulheres que cuidam sozinha dos filhos são, ainda, vistas com maus olhos, são apagadas, historicamente, e vistas como detentoras de toda a responsabilidade de criar uma criança. Não é à toa que os índices de abandono parental são tão grandes.

O que nos leva de volta à história de Durval e Natália. Também não é sem motivo que uma narrativa que começou com personagens femininas tão fortes esteja, agora, enfrentando duras críticas por apagar esse histórico com a redenção dos personagens masculinos, tirando das mulheres o seu merecido protagonismo na trama.

Pense no caso dos "Pais de Facebook". Os homens que têm filhos, mas não assumiram responsabilidades ou, se assumiram, se resumem a finais de semana de "diversão" e que recebem uma chuva de likes e comentários fofos nas redes sociais quando postam fotos com declarações para os filhos. O carinho pode ser verdadeiro? Claro, mas isso não muda o fato de que, no caso das mães, os elogios ainda são menos frequentes que as críticas e cobranças.

'Amor de Mãe', com certeza, ainda é assunto nas redes sociais - principalmente nessa reta final, já que a novela chega ao fim nesta sexta-feira (09), no entanto, deixa um gosto amargo na boca, como se a necessidade principal fosse de dar um fim digno de filmes da Disney à personagens maravilhosas que desenharam narrativas dignas de admiração desde o começo. Transformar histórias tão bonitas e cheias de realismo em romances novelescos com arcos de redenção como os citados acima é, no mínimo, questionável.

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