Aluna é proibida de amamentar a filha durante aulas online: "Desmotivada e humilhada"

Marcela De Mingo
·5 minuto de leitura
Marcella Mares foi repreendida por um professor ao informá-lo que precisaria fechar a câmera no Zoom para amamentar a filha de 10 meses (Foto: Instagram / Marcella Mares)
Marcella Mares foi repreendida por um professor ao informá-lo que precisaria fechar a câmera no Zoom para amamentar a filha de 10 meses (Foto: Instagram / Marcella Mares)

Há uma pandemia lá fora e outra acontecendo do lado de dentro. Entre quatro paredes, Marcella Mares precisa cuidar do seu bebê de 10 meses ao mesmo tempo que ajuda com as tarefas domésticas e tenta manter o ritmo de estudos universitários - à distância, claro. Até aí, muitos de nós seguem tentando equilibrar todos esses pratinhos. Mas tudo isso veio abaixo quando um professor impediu Marcella de amamentar o bebê durante a aula.

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A amamentação em espaços públicos é uma questão muito discutida atualmente, principalmente por aqueles que parecem não entender que essa é uma necessidade normal de qualquer bebê - e que, claramente, não anotam em uma agenda os horários que precisam do leite materno.

Em sua página no Instagram, Marcella, uma estudante da Califórnia, nos Estados Unidos, conta que recebeu um e-mail de um professor dizendo que precisaria que todos os alunos ficassem com as câmeras e microfones abertos durante a aula para receberem presença. Ela respondeu que não teria nenhum problema com isso, mas que precisaria fechar a sua câmera de tempos em tempos para dar de mamar para sua filha. "A resposta dele foi: 'Isso não é o que você deveria estar fazendo durante a aula, faça isso no seu tempo livre'", escreveu ela.

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Mas não é só isso. Quando a aula começou, oficialmente, o professor falou para toda a turma que recebeu um e-mail "estranho" de uma aluna dizendo que precisaria fazer "coisas inapropriadas" durante a aula. "Vocês precisam entender que vocês têm prioridades agora, e vocês precisam colocar todas essas distrações de lado ou serem criativos quando o seu filho precisar de você e dar a sua atenção completa para a minha aula", disse ele, de acordo com a publicação de Marcella.

A estudante continua, dizendo que se sentiu muito desmotivada e humilhada pelos comentários do professor durante a aula (que acontecia via Zoom). "Depois, eu percebi que ele deveria ser humilhado. Ele me descriminou, assim como muitos outros, e disse para colocarmos essas distrações de lado ou sermos criativos quando a sua criança precisar de você. Como assim? Estamos falando de uma criança, não de telefones ou TVs ou qualquer outra coisa", escreveu ela. O desabafo acompanhou uma imagem de Marcella amamentando a bebê enquanto assiste aula, demonstrando que consegue, sim, prestar atenção no conteúdo ao mesmo tempo que dá de mamar para a filha.

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De acordo com a CNN, Marcella entrou em contato com Lorraine Smith, a reitora da universidade comunitária da cidade de Fresno, onde estuda, e alguns dias depois recebeu um pedido de desculpas oficial do professor em questão. Não só isso, o professor disse que ela poderia amamentar a bebê a qualquer momento da aula e fechar a câmera se assim fosse necessário, sem precisar justificar o porquê. Segundo a lei da Califórnia, as universidades locais são obrigadas a acomodar estudantes que estejam grávidas ou com crianças que necessitem de amamentação sem qualquer tipo de discriminação ou impeditivo - isso inclui dar de mamar durante uma aula, por exemplo.

Por que amamentar é um problema?

Marcella não é a primeira, nem será a última mulher a lidar com questões como essa. Já ouvimos muitas histórias de mulheres que foram julgadas ou repreendidas por amamentarem em público, como se esse fosse um ato ofensivo e vergonhoso - algo como transar com alguém na rua ou sair de casa nu.

No Brasil, por exemplo, já existem leis que garantem o direito de amamentar em qualquer lugar. Em São Paulo, o aleitamento materno é permitido em estabelecimentos culturais, comerciais, recreativos ou de prestação de serviços, com multa de R$ 500 em caso de descumprimento e valor de multa dobrado em caso de reincidência.

Ainda assim, a questão da amamentação em público é olhada de forma torta por muita gente por um único motivo: historicamente, o corpo feminino foi sexualizado e objetificado a ponto de não ser considerado normal a mulher deixar um seio à mostra para alimentar uma criança sem que isso seja visto como uma provocação de cunho sexual. É só comparar com a liberdade que os homens têm de passar um dia inteiro sem camisa na rua, em um dia muito quente, para perceber que eles jamais são tratados da mesma maneira.

Some-se a isso um momento de pandemia, em que muitas mulheres se veem sobrecarregadas com o trabalho doméstico, estudos e a carreira, ao mesmo tempo que lidam com as próprias dificuldades e inseguranças em relação à situação presente e ao futuro. Que direito alguém tem de dizer o que essa mulher pode ou não fazer dentro da própria casa para manter o mínimo de ordem e cuidado com os próprios filhos?

É tudo uma questão de perspectiva e a dificuldade que as pessoas têm de compreender umas às outras. O professor, um homem, olha para os alunos a partir de uma perspectiva. A aluna, mãe de primeira viagem, olha para a aula e para o professor a partir de outra. Um dizer que sabe o que é melhor para o outro e determinar o que ele deve ou não fazer, desrespeitando inclusive uma lei estadual, é falta de empatia. E vice-versa, essa falta de compreensão pode existir para qualquer um dos lados.

A solução para isso tem, sim, que ser a comunicação clara entre as pessoas, além de um trabalho de desconstrução - o que, podemos dizer, já está sendo feito. Basta uma olhada pelo feed das redes sociais ou pelas notícias para perceber como os valores estão mudando e como isso é algo positivo. Resta esperar, no entanto, que essa seja uma transição rápida e indolor (mas há de se considerar que talvez não seja).

"Mamães que estão amamentando ou qualquer mamãe que esteja tentando equilibrar os estudos, o trabalho e um filho deveriam ser exaltadas e não desmotivadas e humilhadas. Eu amo o meu bebê e escolheria a sua saúde a qualquer outra coisa ou pessoa, qualquer dia da semana", bem finalizou Marcella.