Amamentação e bebida alcoólica, pode? Entenda porquê estão criticando Virgínia Fonseca

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Virgínia Fonseca e Zé Felipe (Foto: Instagram)
Virgínia Fonseca e Zé Felipe (Foto: Instagram)

Neste texto, você encontra:

  • O que aconteceu com a influenciadora Virgínia Fonseca;

  • Onde entra o machismo nas criticas que ela recebeu;

  • A relação entre amamentação e bebidas alcoólicas.

Quem determina o que é melhor para a amamentação de um bebê? É a própria mãe? São os médicos responsáveis? Ou são os fiscais de internet? Pois é, na última semana, tivemos que observar como o corpo de uma mulher virou, mais uma vez, alvo de críticas online por conta da opinião de um homem.

A história é a seguinte: a influenciadora Virgínia Fonseca tirou o último final de semana para celebrar um ano de namoro e três meses de casamento com Zé Felipe, e publicou, inclusive, algumas imagens em que aparece consumindo bebidas alcoólicas. Mas tem um porém: Virgínia acabou de dar à luz sua primeira filha, Maria Alice, ainda em fase de amamentação, com 30 dias de vida.

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No Instagram, em uma das postagens do fim de semana a dois, um usuário da rede comentou sobre o fato de Virgínia estar tomando bebidas alcoólicas e, supostamente, parar de amamentar a filha. "O povo se espantando com a Virgínia desmamando a Maria Alice tão cedo. Isso eu já tinha notado desde antes dela ir para o hospital. Do jeito que ela sempre foi obcecada com a busca pelo corpo perfeito. Isso já era certo. Tanto que ela se estressava demais na gravidez", escreveu.

Zé Felipe não aceitou o desaforo e acabou respondendo, no impulso, ao comentário. Dias depois, a atriz Tatá Werneck também entrou na conversa, dizendo: "E o melhor é um homem se metendo na amamentação de uma mulher. Você que pariu pela rol* querido? Você sentiu a dor de amamentar?".

Uma questão de machismo

A conversa sobre amamentação rende uma discussão longa, principalmente porque, ainda hoje, muita gente tem problemas com mulheres que amamentam em público - tanto que virou crime impedir uma mulher de amamentar o bebê livremente, em qualquer espaço que seja.

A questão cultural é a que mais pesa, e, sim, estamos falando de machismo. Ele é um vilão invisível, do tipo que muita gente não sabe que alimenta, mas que está ali, crescendo toda vez que um homem critica o corpo ou a conduta de uma mulher, acreditando que sabe mais do que ela sobre a sua própria vivência. No caso de Virgínia, isso fica claro quando um homem comenta que já imaginava como a influenciadora se comportaria porque "sempre foi obcecada com a busca pelo corpo perfeito". O que lhe dá o direito de falar dessa forma, se não uma ideia de que ele sabe mais sobre ela do que ela mesma?

Esse é um tipo de comportamento comum - e histórico. Na questão do aborto, que talvez seja ainda mais complexa, vemos posturas semelhantes. Homens, em sua maioria, certos de que sabem o que é melhor para uma mulher e para a vida de uma criança, não dando às mulheres a liberdade de decidirem o que querem fazer com o próprio corpo. É por isso que a quantidade de mulheres que morrem vítimas de abortos ilegais (e, consequentemente, inseguros) é tão grande por aqui - os números são incompletos, mas alguns estudos falam em 770 mortes no período de 2006 a 2015, sem contar, claro, as subnotificações. O que muda é a taxa de mortalidade, principalmente, segundo a classe social: mulheres mais jovens, negras e de baixa renda, morrem mais por falta de acesso a instituições que, ainda que façam o procedimento de forma ilegal, são mais seguras.

Mas voltemos à amamentação. Na verdade, voltemos ao julgamento masculino sobre a conduta feminina. Existe, ainda hoje, no imaginário social, uma conduta perfeita para uma mulher que é mãe - ela gira, principalmente, em torno da ideia de que essa mulher é 100% dedicada e devota aos filhos, adepta de um arquétipo de perfeição que só se vê nos filmes.

É por esse motivo que a carga mental das mulheres é sempre tão alta. Ficou sob sua responsabilidade administrar a casa e os filhos - mesmo depois que entraram no mercado de trabalho -, enquanto aos homens ficou reservado o papel do provedor e, muitas vezes, do lado "divertido" da paternidade.

Uma mulher que teve um filho ainda é uma mulher, com desejos, vontades e queres próprios que independem da criança - o que não significa que ela abriu mão da sua responsabilidade como mãe para atender a essas vontades. Vale lembrar, aliás, que o número de mães solo no Brasil é gigantesco, e o número de crianças que não tem o pai no registro de nascimento passa dos cinco milhões. Se vamos falar de uma conduta em relação a um filho, porque estamos discutindo o corpo e as escolhas de uma mulher e não a responsabilidade do homem?

E outra: falar sem contexto, com base no que é postado numa rede social é bastante complexo. Virgínia é o tipo de influenciador que abre a vida para os seguidores, mas mesmo isso não significa que alguém sabe exatamente tudo o que acontece por trás do celular. Ou seja, emitir um julgamento desse tipo, falando sobre uma questão tão séria e íntima de uma mãe, sem total conhecimento de causa é bastante complicado e insensível.

Amamentação e bebida alcoólica: pode ou não pode?

Infelizmente, não existe uma resposta certa ou errada sobre o assunto. Existe uma combinação de bom senso com seguir as orientações médicas, e uma avaliação de cada caso. E o porquê disso está, justamente, na biologia da amamentação.

"As orientações em relação à bebida alcoólica são bem diferentes quando a mulher está grávida - em que ela ingere a bebida, o líquido cai na corrente sanguínea e passa pelo cordão umbilical para o bebê em uma grande quantidade", explica Cinthia Calsinski, Enfermeira Obstetra pela Unifesp e consultora de amamentação. "Na amamentação, ela ingere o álcool, ele cai na corrente sanguínea, passa pela vasculização e uma pequena quantidade vai ser absorvida na região da mama".

É por isso que as orientações variam, e o mais importante é consultar um profissional pediatra sobre o assunto. Alguns médicos recomendam um intervalo de, pelo menos, duas horas entre o consumo de uma bebida alcoólica e a próxima mamada - e até isso pode variar considerando a idade do bebê. Quanto mais novinho, mais frequente são as mamadas e, portanto, menos o tempo entre uma mamada e outra.

Existe também a questão da cama compartilhada. Cinthia explica que os bebês se sentem mais seguros ao fazerem cama compartilhada com a mãe do que com os pais, uma vez que as mães são mais receptivas aos bebê e mais atentas aos pequenos sinais que eles dão, inclusive enquanto dormem. O consumo de álcool pode atrapalhar essa relação, colocando a mãe em um sono mais profundo do que o normal, por exemplo. Por isso, é recomendado que a mãe evite a cama compartilhada nos dias em que bebeu. A questão no nível de consciência da mulher que bebeu também deve ser considerado, uma vez que um bebê exige muitos cuidados, ainda mais na fase de recém-nascido, fora a pequena ingestão alcoólica que acontece via amamentação - bem menor que durante a gestação, mas que, ainda assim, acontece.

Por outro lado, existem muitas recomendações sobre os limites a esse consumo e até sobre a bebida em si. Destilados (como a vodca) tem um teor alcoólico muito maior do que uma latinha de cerveja, por isso, devem ser consumidos em menor quantidade e levam mais tempo para deixar o organismo.

Outra recomendação, portanto, diz respeito ao planejamento. Se o desejo de consumir álcool surgir, o ideal é planejar com antecedência, ordenhando o seio antes do consumo e garantindo uma mamada segura e livre da substância. Ainda assim, o ideal é consultar um profissional para entender a melhor conduta, caso a caso.

De qualquer maneira, quando o assunto é Virgínia, não cabe a ninguém julgar as suas atitudes sem saber da história completa. Ser mão não é simples, a amamentação, muitas vezes, machuca a mulher e o cansaço no cuidado com um bebê é real. Resta apenas, oferecer empatia e solidariedade. 

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