Alvo dos holofotes, paternidade de Scooby reflete raízes da nossa sociedade

·6 min de leitura
Pedro Scooby no
Pedro Scooby no "BBB22". Foto: Divulgação/Globo

Resumo da notícia:

  • Paternidade de Scooby volta aos holofotes com participação no "BBB22"

  • Quantos Scoobys você não conhece? Comportamento do surfista reflete nossa sociedade

  • No entanto, é importante entender que o mínimo não deve ser superestimado

História conhecida pelas redes sociais antes do "BBB22", a relação de Pedro Scooby com a paternidade voltou à mira dos holofotes ao ingressar no reality da Globo. Isso porque o pai dos filhos de Luana Piovani é constante alvo de comentários sobre a criação de Dom, de 9 anos, e dos gêmeos Ben e Liz, de 6 anos, em meio a declarações da própria atriz, de quem se separou há alguns anos. Mas quantos Pedros não conhecemos, inclusive, dentro de casa?

Mas o assunto é muito mais complexo do que um meme do Twitter com brincadeiras sobre a Luana "jogar as crianças" para dentro da casa mais vigiada do Brasil. Aos 33 anos, a personalidade livre e "bon-vivant" do surfista confunde com a de um pai ausente (e quantos não são?), marcas de uma sociedade machista, em paralelo à cobrança social materna que Luana assume como toda mulher que dá à luz a um ser humano.

Tapa de Pedro Scooby no rosto do filho não é normal; especialista alerta sobre traumas

Para entrar no "BBB22", Scooby precisou fazer um acordo em que a esposa Cintia Dicker compartilhará a guarda dos enteados com Luana. "Acho que o Pedro já é o grande vencedor desse 'Big Brother'. Isso porque ele tem duas mulheres segurando a onda dele, né, meu amor? Ele tem a Luana, que é a ex, e a Cíntia, que é a atual. Se ele não é o vencedor, não sei quem é. O Pedro tem duas mulheres que vão cuidar das demandas dele muito melhor do que ele cuidaria", declarou a atriz ao site "UOL" ao deixar claro que ele se segura na responsabilidade das mulheres de sua vida.

Nas redes sociais, por exemplo, Pedro já declarou que lições de casa seriam desnecessárias por ser muito tempo de estudo para as crianças, o que mostra que é a favor de uma educação mais livre. "Quem foi o ser humano que inventou dever de casa? Dever de casa é muito chato. A criança já fica de segunda à sexta na escola, chega no fim de semana e tem que fazer dever de casa? O Dom e o Bem, por exemplo, estudam das nove da manhã às quatro da tarde [...] Qual vai ser a memória da criança? O que ela fez na infância dela? Estudou? Só? Acho que lugar de estudar é na escola", afirmou o surfista em novembro e chegou a reiterar o pensamento dentro do "BBB22".

Em contrapartida, Luana já usou as redes algumas vezes para reclamar de alguns descuidos quando deixa as crianças com o pai, como a pequena Liz chegar cantando um verso de funk +18 ou os meninos perderem a aula de karatê. "Ainda assim, tento evitar o quebra pau para não viver o que eu vivi quando era pequena, que era esse quebra pau entre pai e mãe. A gente já teve um momento muito forte de terror, que foi quando nós nos separamos. Apesar disso tudo, ainda agradeço a Deus que ele mora do lado da minha casa, que ele gosta dessas crianças e que ele é uma pessoa honesta", comentou a atriz em dezembro. Confira o vídeo:

"Ele até me ajuda"

Para Samara Felippo, mãe solo de Alícia, de 12 anos, e Lara, de 8 anos, frutos de seu casamento com o ex-jogador de basquete Leandrinho., exaltar um pai porque ele gosta dos filhos é descabido da realidade. "Vou dar um troféu porque ele ama os filhos? É o mínimo mesmo. Esse pai tem que entender que essa paternidade não é um favor dele”, reflete.

“A mãe veste essa camisa do ‘ele até me ajuda’, ‘apaixonado pelos filhos’ e ‘ele paga pensão’. São muitas coisas que temos que quebrar e derrubar para que os pais entenderem que essa criação de filhos é dividida. Não é responsabilidade só da mãe. Essa mãe tem sonhos, tem desejos e quer criar coisas além de filhos”, completa a atriz.

Quantos Scoobys você não conhece?

E se o comportamento de Pedro for o espelho de uma maioria de pais do mundo? Talvez o problema seja estrutural apesar de não eximir sua responsabilidade.

Antes de precisar pensar em criação de filhos, a vida de Pedro foi marcada pela ausência da figura paterna em sua trajetória, o que obrigou o atleta a buscá-la em outros rostos e "se jogar no mundo" cedo, o que pode ter interferido em sua forma de lidar com os herdeiros. “Desde os 10 anos, ele [pai] já era ausente. Com 15, 16, ele sumiu e a gente não tinha nada provido dele. Com 9, 10 anos, já ia para aula de ônibus sozinho, já ia para praia sozinho. Coisas que hoje em dia são fora da realidade. Eu, com 15 anos, já dirigia”, declarou em conversa com brothers no "BBB22".

“Eu já tinha essa 'responsa' de cuidar das minhas coisas. Tive que ajudar minha mãe e meu irmão. Ele deu uma pirada. Meu irmão está no caminho certo, mas já fez várias coisas erradas e poderia não estar aqui [..] Para mim, foi ótimo, corri atrás das minhas paradas...Para mim, era uma fuga [sair dos problemas familiares], mas o meu irmão poderia não estar aqui. Ele correu todos esses riscos e poderia não estar aqui”, completou ao relatar o que viveu.

"Para pensarmos no casal que desejou constituir família, devemos pensar em um homem e uma mulher que trazem uma bagagem histórica e biológica que forma e interfere em seus anseios pessoais, e, do casal, em relação ao projeto ter os filhos", reflete a psicanalista Gisa Aquino, mestranda em Ciências da Saúde pelo Einstein, sobre o impacto do que a pessoa já testemunhou antes de ter seus filhos.

Não ao mínimo

No entanto, a sociedade segue perpetuando a obrigação social da mãe em assumir a responsabilidade e a superestimação de qualquer ato mínimo de paternidade. "Tem a ver com um Mito Social, que está enraizado na cabeça da mulher, no qual ela, quando se torna mãe, não deseja nada além de ser mãe. 'Agora você é mãe e não será mulher'. Isto é altamente idealizado e desobriga o pai de se implicar nesta relação mãe e filho. Supondo nesta toada que a mãe é tudo para seu filho", declara a psicóloga.

"Talvez, seja preciso ainda, construirmos socialmente um novo olhar, no qual os cuidados dos filhos possa ser uma função assexuada, não destinada somente à mãe", complementa Gisa. "Para isso acontecer, ambos os papéis precisam ser revistos para as mães poderem gestar, dar à luz, amamentar e confiar seus filhos aos pais que elas desejaram para seus filhos", conclui a psicanalista.

"Hoje em dia, já lido de uma forma muito mais livre. Já consegui arrebentar essas amarras que a sociedade impõe para a mãe, para a gente mulher e espero que eu consiga levar até outras mulheres essa liberdade de ser quem se quer ser, independente se é mãe ou não”, afirma a atriz Samara.

Questionada sobre o que faria com as filhas caso entrasse no "BBB", Samara não titubeou na resposta. “Tem pai, né? Mesmo que ele more fora, se eu escolhesse entrar no 'BBB', elas, obviamente, ficariam com o pai. Caso ele não pudesse, elas ficariam com a avó, a minha mãe. Mas em primeiro lugar, é o pai. Ponto”, concluiu.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos