Alto número de casos e óbitos poderia justificar endurecimento da quarentena em SP antes das eleições

Dimitrius Dantas
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Os números de internações, novos casos e óbitos na Grande São Paulo já justificavam o endurecimento da quarentena desde o dia 17 de novembro, segundo análise feita pelo GLOBO nos dados da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade) divulgados na última quinta-feira.

Inicialmente, a reclassificação estava prevista para o dia 16 de novembro, mas foi adiada pelo governo de São Paulo para o dia 30 de novembro. A data foi criticada por políticos de oposição por ser um dia após o segundo turno. Segundo o governo, a mudança ocorreu em razão da instabilidade nos dados sobre óbitos e casos graves de coronavírus, devido a falhas no sistema do governo federal.

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Apesar de já identificar o aumento das internações, caso a decisão fosse tomada no dia 16, as regiões do estado continuariam ou avançariam para fase verde. Na ocasião, o secretário de Saúde, Jean Gorichteyn, destacou o crescimento das estatísticas de internação para justificar o adiamento.

— Por precaução e responsabilidade, o Governo do Estado optou por não realizar a reclassificação do Plano SP na data de hoje (16). Essa medida visa não só a transparência, como principalmente a segurança da população para que haja melhor análise dos índices de saúde — assinalou.

Os dados divulgados pela Seade, entretanto, apontam que no dia seguinte, 17 de novembro, a situação da saúde na região metropolitana de São Paulo justificaria uma reclassificação.

Até a última segunda-feira, a Secretaria de Saúde avaliava os números de acordo com a quantidade de novas internações nos últimos 28 dias, em comparação com o número de internações nos 28 dias anteriores a eles. Agora, os dados serão analisados com base nos últimos 7 dias, como era feito no início da pandemia. O governo estadual espera, com isso, captar melhor as tendências de curto prazo.

Segundo o Plano SP, que define as regras para definição da flexibilização das atividades econômicas, se esse índice for superior a 1, a classificação já é equivalente à fase amarela, que é mais rígida em relação a comércios e serviços.No dia 16, enquanto o Ministério da Saúde e o governo estadual ainda lidavam com o apagão de dados, o índice chegou a 0,99. No dia seguinte, passou a 1,01.

No dia 17, o indicador sobre novos casos e novos óbitos também já havia superado 1. Naquele dia, o índice de novos casos nos últimos 28 dias em comparação ao período anterior era de 1,5 e o de novos óbitos, de 1,27.

Desde então, as internações continuam subindo na Grande São Paulo. Nesta segunda-feira, data da reavaliação da fase de endurecimento da quarentena, já estava em 1,24. Nesta quinta-feira, chegou a 1,33.

O GLOBO questionou o governo estadual sobre a escolha do dia 30 para fazer a reclassificação. Em resposta, a secretaria de Desenvolvimento Econômico afirmou que a decisão para reclassificar no dia 30 foi detalhada na entrevista concedida pelos integrantes do governo no dia 16, quando anunciaram o adiamento.

— Pelos indicadores disponíveis, a maioria da população do Estado hoje seria promovida para a fase verde do Plano SP. Porém, indicadores de ocupação de UTI e internações, sob responsabilidade do Governo do Estado de SP, cresceram nesta última semana em relação à anterior. O momento requer precaução para uma análise mais completa para a proteção da população — afirmou o governador João Doria à época.

Para o pesquisador e doutorando do Instituto de Física Teórica, Rafael Lopes, integrante do Observatório Covid-19 BR, os dados apontam a necessidade de Plano SP ser mais ágil na análise de situação e reclassificação de fases.

— Isso quer dizer que ele precisa captar as mudanças correntes, desde as mais sutis até as de tendências mais longas. Sempre que o plano não é capaz de identificar e captar essas mudanças de forma rápida, potencialmente se perdeu tempo na tomada de ação — explica.

Para Lopes, captar as informações de forma rápida e clara contribui para a tomada de decisão das autoridades.

— É sempre importante que haja capacidade de acomodação dos doentes, mas também é preciso combater a pandemia se evitando contágios, o que pode ser feito com mudanças de normas previstas nas diferentes fases. Se o plano não consegue oportunamente mudar as fases de forma condizente com as tendências perdeu-se a oportunidade de evitar contágios que, por sua vez evitariam mais casos graves — diz.