Almodóvar busca na atuação de Tilda Swinton o abrigo à sua alma gay

CÁSSIO STARLING CARLOS
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "A Voz Humana" é, como anuncia o título, um filme em torno da fala. O curta com 30 minutos de duração, que chega por aqui como parte da programação do Festival Brasil de Cinema Internacional, foi filmado durante a pandemia e reúne dois ídolos do cinema contemporâneo. Atrás da câmera, o diretor espanhol Pedro Almodóvar. Em frente a ela, a atriz britânica Tilda Swinton. Ou seja, um tipo de encontro que vem sendo cultuado antes mesmo de ser visto. O resultado equivale à expectativa. Almodóvar retoma um texto teatral de Jean Cocteau de 1930, um monólogo em um ato sobre uma mulher que, ao telefone, expressa suas dores amorosas ao companheiro que a abandonou. No cinema, o texto já inspirou uma lindíssima performance de Anna Magnani, filmada em closes intensos por Roberto Rossellini em um episódio de "O Amor", de 1948. E só na última década ganhou um punhado de versões, interpretadas por atrizes do porte de Sophia Loren ou Rosamund Pike. O próprio Almodóvar já usou a peça como referência para a construção de situações em "Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos", de 1988, e em "A Flor do Meu Segredo", de 1995. Devemos, por isso, reduzir o projeto com Tilda Swinton a mera reciclagem? Não. Por quê? Em primeiro lugar, "A Voz Humana" é como a realização de diversos desejos. O de um cineasta por uma atriz sem limites, o de uma intérprete por um diretor sensível a múltiplos tons e o do público por um encontro intenso, embora breve, entre os dois. Mas o filme também ultrapassa a condição de "produto de luxo". Um autêntico pensamento por imagens se elabora enquanto saboreamos imagens que exalam a assinatura almodovariana em cada um de seus centímetros e em meio às quais Tilda Swinton circula com a desenvoltura de atriz convidada. Com exceção de uma breve cena em uma loja de materiais de construção, tudo se passa num daqueles cenários hipercoloridos que os personagens de Almodóvar habitam desde "Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão", de 1980. Isso não é um elemento decorativo, pois no cinema do diretor espanhol a saturação cenográfica é uma solução expressionista por meio da qual o excedente emocional dos personagens é narrado visualmente. A cenografia de "A Voz Humana" é decisiva também porque nela coabitam dois espaços. No primeiro, vemos Swinton circular fora do set, em um vestido flamejante que não reaparece no filme. O que vemos ali é a atriz antes de entrar na personagem, uma forma posta em cena para satisfazer o desejo do cineasta de filmar e o nosso de a ver. O segundo espaço, em que acontece o telefonema, logo também se revela um cenário, uma estrutura sem tetos, recurso que serve para apagar as marcas da ficção e nos convida a apreciar apenas a performance. Nesse sentido, "A Voz Humana" pode ser visto como um filme experimental. Pela primeira vez, Almodóvar filma em uma língua que não o espanhol, desprotegido de seu idioma materno e sem a cumplicidade das muitas atrizes que sempre deram abrigo a sua alma gay desejosa das potências femininas. No centro desse dispositivo, Tilda Swinton se entrega e controla, dá e toma, finge que vai fazer drama e se distancia ironicamente do sentimentalismo do texto. É objeto, fetichizado pelo voyeurismo essencial do cinema, e sujeito, livre para pôr o filme e o público aos seus pés. * Quando Segunda-feira (5), às 14h Onde Kinoplex Tijuca, av. Maracanã, 987 - Rio de Janeiro Elenco Tilda Swinton Produção Espanha, 2020 Direção Pedro Almodóvar Link: https://www.7fbci.com.br/panorama-section-mostra-panorama Avaliação: Ótimo