Alimento “sem colesterol” também pode fazer mal ao coração

Cuidado com o "sem colesterol" (Foto: Getty Images)

Por Cristiane Capuchinho

O pacote mistura tons de verde em um fundo branco. Na parte da frente, selos indicam “alimento vegano”, “sem colesterol”, “com sal light”. E lá vai você para casa, sem culpa, com uma bolsa de chips de mandioquinha ou de banana, que, ainda por cima, não têm glúten.

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Apesar de parecer atrativo, o ‘sem colesterol’ não é um diferencial, já que produtos feitos com óleo vegetal não tem colesterol, característica típica de produtos de origem animal. O coração que batia tranquilo pode se preocupar, o risco para a saúde cardíaca está lá marcado nas informações nutricionais do produto, mas precisa ser decriptado.

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“Os vilões para o risco de doenças cardiovasculares estão nas gorduras saturadas, no colesterol e no sódio. No caso de diabetes ou obesidade, a atenção é para os açúcares e para as calorias”, explica Rosana Perim Costa, gerente nutricional do HCor (Hospital do Coração). “Não é porque um alimento é isento de colesterol que ele é bom”, conclui.

No caso de um pacote de chips de mandioquinha, por exemplo, as gorduras saturadas de uma porção de 25 g podem ultrapassar 20% do consumo diário sugerido, o pacote de 45 g inteiro é praticamente 38% da quantidade recomendada para um dia inteiro. A quantidade de gorduras saturadas ultrapassa mesmo a presente na mesma quantidade de batatas chips de algumas marcas tradicionais.

Tabela nutricional (Foto: Reprodução)

Além do limite de ingestão diária de gordura, a nutricionista lembra ainda que é preciso estar atento ao número de calorias ingeridas. “Um grama de gordura tem 9 calorias, proteínas e carboidratos têm 4 calorias por grama. Não é porque não tem colesterol que você pode comer à vontade e aumentar o seu peso.” A obesidade é um fator de risco importante para doenças cardiovasculares e diabetes.

Sal light é outro argumento de venda que pode levar ao erro. A ideia é que o sal light tem menor teor de sódio e mais potássio que o sal comum, o que é interessante na hora de usar para preparar alimentos de hipertensos.

No entanto, um alimento industrializado feito com sal light pode usar conservantes e ter altas doses de sódio, piorando o quadro de quem já tem pressão alta. “Esses produtos enlatados, congelados ou prontos têm alto teor de sódio não só porque tem sal, mas porque eles usam muitos conservantes com sódio”, esclarece Costa.

Para saber de tudo isso, não tem jeito, só comparando embalagens e ficando de olho nas informações nutricionais.

Saudável, só que não

“Este é um caso muito recorrente. Muitas vezes o que aparece no painel frontal é só um destaque para tentar dar entender que o produto é saudável em relação aos outros”, comenta Ana Paula Bortoletto, coordenadora de alimentação saudável do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor).

No Brasil, quem regulamenta as informações que devem estar estampadas nos rótulos de alimentos e o que não pode estar lá é a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), ligada ao Ministério da Saúde.

Desde 2014, um grupo de trabalho na Anvisa discute mudanças na regulação dos rótulos para que as informações nutricionais fiquem claras e sejam mais facilmente compreendidas. O novo modelo de rótulo está submetido a consulta pública até 8 de novembro.

Tabela Anvisa (Foto: Reprodução/Anvisa)

A proposta prevê que alimentos com alto teor de açúcar adicionado, gordura saturada ou sódio tenham na parte da frente da embalagem um alerta na forma de lupa. Três quesitos ligados ao risco de doenças crônicas, como diabetes, doenças cardiovasculares e hipertensão.

A proposta prevê que as empresas tenham um prazo de 42 meses para implementarem as novas normas, tempo criticado pelo Idec.

“O prazo é muito longo, levaríamos mais de três anos para ver isso no mercado. Vamos defender que 18 meses seriam o suficiente para mudar as embalagens”, argumenta Bortoletto.

Após o final da consulta pública, a Anvisa deve estudar as sugestões e aprovar uma nova norma em sua diretoria colegiada.