Alfred Enoch lembra episódio de racismo que sofreu quando era criança no Brasil

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Alfred Enoch (Foto: Anthony Ghnassia/Getty Images for Dunhill)
Alfred Enoch (Foto: Anthony Ghnassia/Getty Images for Dunhill)

Filho de brasileira, o astro britânico da série "How to Get Away with Murder", Alfred Enoch, guarda diversas memórias de suas passagens pelo Brasil. Um episódio, no entanto, o fez sentir na pele o racismo presente no país.

Enoch conta que era criança e estava na companhia de seus pais, no Rio de Janeiro, quando foi alvo do preconceito racial. "Eu lembro que eu tinha uns 6, talvez 8 anos de idade, e a gente estava visitando uma amiga da minha mãe, que estava ficando lá no [hotel] Copacabana Palace, no Rio de Janeiro. Eu estava assim de bermuda, chinelo. Meus pais passaram e o segurança me parou e disse: 'não, você não vai entrar'. Eu disse: 'como que não?' Ele disse: 'não, aqui você não entra'. 'Por que não? Meus pais estão aí, como que eu não vou entrar, vai me deixar aqui fora?'. Ele disse: eu não acredito que são seus pais, eu chamei: ‘mãe, mãe, mãe’. Ela voltou e me pegou. Percebi naquele momento que é uma parada completamente diferente", contou o ator.

O relato foi feito na tarde de quarta-feira (30) durante a coletiva de imprensa do filme "Medida Provisória", em Salvador. O longa-metragem, que chega às telas do cinema no dia 14 de abril, marca a estreia de Lázaro Ramos na direção e tem Alfred Enoch no papel do protagonista.

Alfred Enoch e Lázaro Ramos na pré-estreia do filme
Alfred Enoch e Lázaro Ramos na pré-estreia do filme "Medida Provisória", em Salvador (Foto: Divulgação)

A trama é inspirada na peça "Namíbia, näo!", escrita por Aldri Anunciação, ator e roteirista do filme. Ela se passa num futuro distópico em que um grupo tenta resistir a uma Medida Provisória (MP) que visa mandar todos os negros do Brasil para a África.

Diante de tal texto, as expressões do racismo e o combate a essa discriminação permearam parte das discussões sobre o filme. Ao falar sobre o assunto e solicitado a comparar o cenário no Brasil com o Reino Unido, Enoch avaliou que a diferença está apenas no fato de que "aqui é um negócio mais descarado", com uma desigualdade mais explícita.

Teste para Harry Potter

Enoch pontua que pela identificação que possui com seu pai, o ator britânico William Russel, demorou a perceber que os cidadãos em seu país o percebiam de forma diferente. Mas já criança ele sentiu que a cor da pele poderia lhe impor barreiras.

Na passagem por Salvador, o ator voltou a contar que deixou de fazer um teste para a saga Harry Potter porque só havia um personagem descrito como negro nos livros e ele era muito novo para o papel. “Os produtores de elenco foram lá pra minha escola pedir que as crianças se apresentassem no teste e eu não me apresentei por dois motivos. Primeiro porque eu não queria que alguém me dissesse que eu não tinha talento pra fazer o que eu já sabia que queria fazer da vida. Sabia que queria ser ator. Meu pai é ator. Eu já sabia, tinha esse sonho. Mas também conhecia muito bem os livros e eu ficava pensando: ‘nossa, o único personagem preto daqueles livros é o Lee Jordan’”, lembra.

O personagem em questão é o estudante que narra os jogos de Quadribol e é amigo dos gêmeos Jorge e Fred Weasley. No primeiro longa-metragem da saga — Harry Potter e a Pedra Filosofal —, ele dá vida a um menino que aparenta ter entre 13 e 14 anos. Enoch tinha apenas 11 anos na época.

“Aí eu pensei naquele momento, juro que é verdade: tem outro personagem e não diz que ele tem, sei lá, pele clara, não diz que ele é loiro, sabe? Poderia ser e é o Dino Thomas. Poderia ser negro. Será? Será que isso poderia acontecer? Mas eu não apostei nisso”, admitiu.

Enoch só foi escalado para o filme quando os produtores de elenco assistiram uma peça que ele fez e o chamaram para fazer o teste direcionado ao papel de Lee Jordan. Como esperado, ele não foi aprovado justamente por causa da idade, mas foi convidado a interpretar Dino Thomas, colega de Harry e Rony que até então não tinha a cor da pele definida.

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