'Aguinaldo Silva parecia um presidente em crise', diz especialista sobre final da novela das nove

Foto: Cesar Alves/Globo
Chega ao fim 'O Sétimo Guardião' (Foto: Cesar Alves/Globo)

Alívio ou frustração? Não dá para saber exatamente o que Aguinaldo Silva, autor da trama ‘O Sétimo Guardião’, sente neste momento. A novela exibida no horário nobre da Globo terminou nesta sexta-feira (17), mas as polêmicas externas, envolvendo elenco e autores colaboradores, chamaram mais atenção que a própria trama.

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Para Claudino Mayer, especialista em TV pela USP, Aguinaldo foi vítima da própria ingenuidade. Analisando todas os lados, dizer que a novela foi um fracasso chega a ser injusto com o produto e o autor — que merece respeito por sua trajetória.

“É algo muito simplista. Essa é a visão de quem não entende e é contra a telenovela. O Aguinaldo Silva se manteve no poder como um presidente em crise e errou porque tentou inovar”, defende o expert.

"Valeu a pena?”

Desde a estreia do folhetim, em novembro de 2018, Aguinaldo foi acusado e processado por plágio. Ele e sua equipe começaram 2019 lidando com as consequências da separação de Débora Nascimento e José Loreto, que afetaram diretamente os protagonistas da novela, sobretudo a menina de seus olhos: Marina Ruy Barbosa.

Logo depois, o autor precisou de um plano B quando Bruno Gagliasso foi internado para uma cirurgia de emergência. Como se não bastasse, em fevereiro, preocupou-se com a repercussão da morte de um dos figurantes em uma gravação. Agora, já na reta final, Caio Blat foi acusado de assédio nos bastidores.

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Dá para dizer que os acontecimentos de fora dariam uma novela melhor que a exibida. Mas teriam sido as polêmicas a culpa de tantas críticas?

Aos 75 anos, o escritor possui um currículo de dar inveja e novelas de sucesso na bagagem. Tentar inovar dialogando com o cinema e a literatura, porém, foi o seu ponto fraco em ‘O Sétimo Guardião’.

“Um autor pode colocar até um avião dentro de casa, mas se o público vai aceitar e comprar a ideia é outra história. O Aguinaldo (Silva) foi ingênuo quando achou que isso daria certo no horário nobre”, afirma Mayer, que não aprovou o realismo fantástico na trama que se despediu, para a nossa alegria, da grade de programação.

“É bom dialogar com outras áreas, mas não dá para esquecer que a dramaturgia exige um padrão e tem a sua própria linguagem. O Aguinaldo estava em uma fase mais livre, leve e solto, só que desapontou. A novela não teve a cara dele se olharmos para outros trabalhos do autor”, analisa Claudino.

Foto: Cesar Alves/Globo
Foto: Cesar Alves/Globo

Ainda na visão do pesquisador, o autor reconheceu, tentou arrumar os erros e recuperar a novela enquanto o “bonde andava”, mas não teve tempo suficiente. Um exemplo disso são as mudança que alguns personagens tiveram ao longo da novela, como Valentina (Lilia Cabral), Mirtes (Elisabeth Savalla) e Judith (Isabela Garcia).

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“Ele fez rupturas. É como se tivesse recomeçado uma novela depois de três, quatro meses no ar. O sítio arqueológico foi um acerto porque aquela fonte só atrapalhou. Ele tentou trazer a trama para perto da realidade, mas não teve tempo para fazer uma novela dentro da outra”, avalia o especialista.

Foto: João Miguel Júnior/TV Globo
Juliana Paes será protagonista da nova novela das nove, "A Dona do Pedaço" (Foto: João Miguel Júnior/TV Globo)

Claudino também pontua a falta de uma trilha sonora marcante e popular, como vai acontecer em ‘A Dona do Pedaço’, substituta da polêmica trama de Aguinaldo Silva. Na divulgação, inclusive, o elenco já está cantando ‘Evidências’, de Chitãozinho & Xororó. Algo que atrai o público e gera identificação.

Pontos positivos (juramos que existem!)

Mesmo com todas as críticas, é preciso reconhecer que ‘O Sétimo Guardião’ acertou em alguns pontos. A atuação de Marina Ruy Barbosa, por exemplo, entra na lista de vitórias do renomado autor.

“Foi uma mocinha plugada na sociedade atual, que não exagerou e representou as mulheres de 2019 sem aguentar desaforo”, elogia Mayer, lembrando a carga pesada que a atriz enfrentou em sua vida pessoal e não deixou de dar o seu melhor.

Foto: Estevam Avellar/Globo
Foto: Estevam Avellar/Globo

Além dela, vale a pena elogiar a responsabilidade social de Aguinaldo Silva ao trazer Nany People para o elenco da novela das nove e discutir temas tão importantes, como a transfobia.

“A personagem foi uma trans diferente, não estereotipada. O personagem do Theodoro Cochrane também contribuiu rompendo preconceitos ao doar o sêmen na história. Outros tema bem explorado foi a importância da água”, afirma Claudino, que enxergou metáforas ao longo da trama.