Ação entre amigos: governo usa máquina oficial em defesa de sua turma

Matheus Pichonelli
·3 minuto de leitura
BRASILIA, BRAZIL - JUNE 21: The blogger Allan dos Santos smokes during the protest in support of Brazilian President Jair Bolsonaro amidst the coronavirus (COVID-19) pandemic at the Esplanada dos Minsitérios on June 21, 2020 in Brasilia. Brazil has over 1.000,000 confirmed positive cases of Coronavirus and has over 50,000 deaths. (Photo by Andressa Anholete/Getty Images)
O blogueiro Allan dos Santos, que tanto bajulou o governo que ganhou de presente uma máquina federal para defender sua causa. Foto: Andressa Anholete/Getty Images

Por determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, 16 aliados e apoiadores do presidente Jair Bolsonaro tiveram os perfis bloqueados pelo Twitter na sexta-feira 24. Entre os alvos estavam Roberto Jefferson, Luciano Hang e Allan dos Santos, investigados por suposta disseminação de fake news no inquérito que apura ataques a ministros do STF e a engrenagem de notícias falsas da rede bolsonarista.

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Como quem tem amigo tem tudo, os investigados não precisaram se preocupar em mexer no bolso ao consultar advogados para reverter a decisão. Coube ao governo federal, que não era alvo da medida, tomar as dores dos aliados e protocolar no dia seguinte, via Advocacia Geral da União (AGU), uma ação direta de inconstitucionalidade no Supremo pedindo a suspensão do bloqueio.

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A AGU é o órgão que representa judicialmente a União perante o Poder Judiciário. Ao blog da jornalista Andréia Sadi, do G1, um integrante do STF disse que o órgão não tinha motivos para agir.

“Quando o governo compra uma briga que, tecnicamente, não é dele, ele deixa claro qual é a sua turma”, resumiu um parlamentar à jornalista.

Não é a primeira vez que um órgão público é usado para resolver querelas particulares.

Em maio, o Tribunal de Contas da União determinou que o Banco do Brasil suspendesse contratos de publicidade com alguns blogs, portais e redes sociais suspeitos de propagar informações falsas. O ministro Bruno Dantas fundamentava a decisão dizendo ser “inconcebível” que o aparato estatal fosse utilizado com desvio de finalidade.

Pouco antes, o BB já havia anunciado que não iria expor a sua marca em páginas do tipo, mas recuou após reclamação do vereador do Rio Carlos Bolsonaro (Republicanos).

Na semana passada, o presidente do Banco do Brasil, Rubem Novaes, deixou o comando da instituição queixando-se por ter seu nome incluído por Alexandre de Moraes no inquérito das fake news. Na famosa reunião do dia 22 de abril, Novaes se referiu ao TCU como “usina de terror”.

A pressa do governo em usar um órgão público para defender os negócios particulares dos aliados deixa ainda mais evidente a quem está a serviço.

Aos inimigos a conta se inverte.

Na semana passada, o repórter Rubens Valente revelou, no UOL, que o Ministério da Justiça deu início, na surdina, a uma ação sobre um grupo de 579 servidores federais e estaduais de segurança, além de três professores universitários, identificados como integrantes de movimentos “antifascistas”.

O dossiê continha fotos e endereços nas redes sociais dos monitorados.

A confusão entre público e privado, de ação entre amigos e ação contra inimigos, corre como se ninguém se preocupasse com as consequências.

Tudo isso em um momento em que o governo tenta formar um cinturão no Congresso contra eventuais questionamentos amarrando uma cenoura na linha à frente do nariz do centrão.

Pode estar comprando gato por lebre.

Ainda na segunda-feira, o grupo ficou desidratado após a notícia do desembarque do DEM e do MBD. Só na Câmara, o centrão, que chegou a reunir cerca de 200 aliados, tem agora 63 cadeiras a menos. O pano de fundo é a disputa pela presidência da Casa.