Principal atleta feminina do boxe brasileiro lida com a falta de patrocínio: “O que mais preciso fazer?”

(Foto: Reprodução/Instagram)

Por Stephanie Calazans

Adriana Araújo foi a primeira – e única – mulher a trazer para o Brasil uma medalha olímpica: ela conquistou o bronze em sua primeira Olimpíada, ocorrida em Londres, em 2012. Além disso, ela mal retornou aos ringues (ficou fora deles por um ano e oito meses, cumprindo punição da Confederação Brasileira de Boxe) e já se consagrou campeã mundial silver. Apesar dos resultados pra lá de expressivos, a soteropolitana ainda vive uma situação financeira difícil, sofre com a falta de patrocínios e já teve que abandonar a carreira, tornando-se motorista de Uber, para pagar as contas.  

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A vida de Adriana nunca foi fácil. Ela, que antes gostava mais de jogar bola e quase se tornou uma profissional do futebol, nunca teve apoio de seus pais, amigos e nem mesmo dos colegas da academia onde treinava. A atleta de 38 anos ouvia de sua família que o esporte era perigoso e violento e, de seus colegas, que ela “deveria estar dirigindo um fogão”. À exceção de sua irmã mais velha, todos acreditavam que a nossa campeã estava no “lugar errado”.

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Com 16 anos, Adriana ouviu de seu pai que se quisesse qualquer coisa além de moradia e alimentação, ela deveria conseguir por conta própria. “Meu pai era o provedor da casa e a dificuldade financeira era muito grande, até por isso abandonei o futebol”, conta. “Eu tive que escolher, e optei por estudar e trabalhar. Aos 16 eu conquistei meu primeiro emprego, que era como zeladora de um prédio”.

Foi durante esse trabalho, após largar o futebol, que Adriana começou a ganhar peso e ouviu de uma amiga que o boxe era uma ótima maneira de recuperar a forma física.

“A Aline Magalhães me fez o convite e, por três meses, eu rejeitei”, conta. “Até então eu achava o esporte muito agressivo, achava que não era para mim. Mas como meu corpo estava me incomodando, eventualmente eu acabei topando”, relembra. E foi assim, despretensiosamente, que a carreira de Adriana começou a ser traçada. “Aos 17 anos eu fiz minha primeira aula e durante oito meses o Rangel Almeida, que foi meu primeiro treinador, viu em mim a possibilidade de crescer”.

Porém, sem estrutura para manter a atleta na academia, Rangel encaminhou Adriana para uma academia local de Salvador, a Champion, e a baiana ficou sob os cuidados do professor Luis Dórea. Em cerca de um ano, o novo treinador começou a mudar a cabeça da atleta.

“Ele começou a trabalhar a minha mente, falou que eu tinha possibilidade de ser campeã mundial, que tinha boxe para conquistar o mundo”, disse. “Assim ele começou a alimentar sonhos e desejos dentro de mim”.

Mas a primeira oportunidade real apareceu quando Adriana, aos 21 anos, foi convidada a lutar contra uma das maiores pugilistas brasileiras da época, Simone Duarte. Foi lá que ela percebeu o tamanho de seu potencial.

“Foi minha primeira luta fora de Salvador, nunca tinha lutado fora da academia. E o melhor é que eu fiz uma luta de igual para igual com uma atleta que tinha história, experiência, enquanto eu era apenas uma menina cheia de sonhos”, lembra. “Foi ali que eu vi que eu realmente tinha talento e vontade para conquistar o mundo”.

Mas a trajetória de Adriana ainda sofreria algumas reviravoltas. Logo após a histórica medalha de bronze em Londres, Adriana fez duras críticas ao presidente da CBBoxe, Mauro Silva, e sofreu uma punição que a tiraria dos ringues por um ano e oito meses – período que ela teve que “se virar” para pagar as contas e chegou, inclusive, a trabalhar como motorista de Uber.

“Foi um momento muito difícil na minha vida, tive várias perdas pessoais como meu pai e minha mãe, e eu estava muito ferida. Fui punida simplesmente por falar a verdade e em um momento histórico: eu havia trazido tanta alegria para o meu país e foi assim que eu fui recebida”, desabafa. “O mais doloroso foi que os órgãos superiores ainda aceitaram tudo isso”. 

O período fez Adriana ficar “totalmente desacreditada de tudo e de todos”, até Sérgio Batarelli, ex-lutador e promotor de eventos, aparecer para a pugilista como uma luz no fim do túnel.

“Sou muito grata ao senhor Batarelli. Ele me deu a oportunidade de disputar o título latino-americano e também o mundial silver e, mesmo depois de tanto tempo sem treinar, eu fui lá e consegui. Por isso, todos os dias eu acordo, me olho no espelho e repito para mim mesma: ‘você é f*!’”.

“Conquistar o mundial me fez refletir que eu sou uma mulher lutando contra tudo e contra todos para adquirir e conquistar meu espaço em meio a tantas dificuldades. Não tenho como me definir de outra forma, eu sou f* mesmo”.

Infelizmente, Adriana não é valorizada como deveria e não recebe patrocínio à altura dos resultados que traz para o país. A atleta admite, tristemente, que ainda não dá para viver do esporte no Brasil – e por isso estuda Educação Física e pretende, quando se aposentar dos ringues, virar treinadora e formar muitas ‘Adrianas’ por aí.

“Eu sou a prova viva de que não dá para viver do boxe. Fui medalhista olímpica em Londres, me consagrei campeã mundial silver de uma das maiores organizações mundiais do boxe em outubro e ainda me encontro sem patrocínio, sem poder viver 100% do boxe”, desabafa. “Talvez isso se dê pelo machismo, porque eu realmente não sei o que mais preciso fazer para conseguir um patrocínio digno, para que eu possa me alimentar, treinar, deitar a cabeça no travesseiro tranquila sem me preocupar com os boletos. Resultado eu tenho, então o que mais eu preciso fazer?”.

De fato, o machismo é bastante presente no boxe não só pelo fato de ainda haver muito preconceito em ver mulheres praticando o esporte, como pela gritante diferença salarial. A atleta conta, inclusive, um episódio em que conseguiu igualar o seu salário ao de outros lutadores ao bater boca com o responsável na época.

“A diferença é descomunal, tanto em salários, quanto em incentivos, bolsas e patrocínios – o que para nós, mulheres, é uma dificuldade até para conseguir um. Quando eu comecei a receber na Seleção eu não sabia qual era o salário dos meninos e, talvez eu tenha sido muito ingênua, mas eu achava até que eu ganhava mais do que eles, porque eu trazia mais resultados que eles”, conta. “Até que um dia fui assinar o comprovante e vi que alguns atletas homens ganhavam R$ 4.200 enquanto eu, que trazia resultados muito mais expressivos, ganhava R$ 2.500”.

Foi então que ela conversou com o diretor técnico, que era o responsável pelos salários, e ouviu dele que a diferença salarial era uma regra que não poderia ser mudada. Sem abaixar a cabeça, ela peitou o dirigente e declarou: “Se isso não mudar, mudo eu. A partir da próxima competição, se eu estiver escalada para viajar, eu não vou”. Dentro de uma semana, Adriana teve seu salário reajustado.

Com muitos percalços e dificuldades pelo caminho, a boxeadora garante, porém, que a maior luta das mulheres é fora dos ringues.

“Nós, mulheres, temos que lutar no ringue, mas nossas maiores lutas são fora dele: temos que lutar contra preconceito e principalmente contra o machismo. Essa é a nossa luta dia após dia, mês após mês, ano após ano. Não existe maior”, declara. “Queria chamar atenção também para a homofobia, pois eu já recebi diversas mensagens de meninas que deixam de praticar a luta, seja ela qual for, por escutarem piadinhas machistas e homofóbicas que eu mesma escuto desde o começo da minha carreira. Luta não define a orientação sexual de ninguém”.

Recado dado, agora a nossa campeã, que pretende conquistar ainda muitos mais títulos nos próximos dois anos (pois ela pensa em se aposentar aos 40), pede para que a CBBoxe traga mais visibilidade ao esporte. “É preciso fazer eventos e trazer mídia para o nosso esporte, assim como fizeram com o judô. É preciso mais campeonatos e é preciso que a TV aberta os transmita”. E finaliza: “Valorizem as atletas. A mulher tem o direito – e a capacidade! – de estar onde ela quiser”.

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