Adeus, guilty pleasure! Como gostar sem culpa de filmes e séries “ruins”

Natália Bridi
·5 minuto de leitura
Emily em Paris (Foto: Divulgação)
Emily em Paris (Foto: Divulgação)

A estreia de Emily in Paris na Netflix veio acompanhada de polêmicas. Claro, a série, criada por Darren Star (que também assina Sex and the City), chamou atenção pela sua representação repleta de clichês da França e dos franceses, mas o motivo da controvérsia não foi apenas o conteúdo da série em si. As reações positivas perante a sua qualidade duvidosa é que causaram mais espanto. Pessoas que se julgavam imunes a esse tipo de entretenimento usaram as redes sociais para registrar o choque: “como posso gostar de uma série ruim?”.

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Emily in Paris seria um clássico guilty pleasure, um prazer que vem acompanhado da culpa de perceber que a trama da série não é exatamente bem construída. Em uma análise fria pode se perceber que falta personalidade à protagonista, apesar de Emily conquistar tudo e todos ao seu redor, incluindo um guarda-roupa de grife que não caberia no orçamento de uma jovem profissional do marketing digital. Ao mesmo tempo, é justamente a sua superficialidade despretensiosa que a torna atrativa, principalmente em um período de crise como o da pandemia do novo coronavírus — desligar a cabeça por alguns minutos é essencial para a saúde mental.

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Então por que sentir culpa por isso? Essa sensação de “sacrilégio intelectual” tem origem no entendimento da cultura como fonte de autoafirmação. Quantas vezes não nos definimos pelo que gostamos escolhendo um filme, uma série ou uma banda como favorita? Ou usamos esse gosto para buscar afinidade com alguém? Logo, queremos que nossos favoritos sejam traços de qualidade. O que também explica as divergências de opinião entre público e crítica ou entre diferentes grupos de fãs. Nesse sentido, a avaliação negativa sobre um filme ou uma série pode ser vista como um ataque pessoal.

O guilty pleasure também se origina dos diferentes níveis aplicados à cultura, que é dividida por muitos entre superior e inferior dentro de um mesmo parâmetro. A arte é vista como uma competição, um esporte em que certos critérios precisam ser atendidos para atingir a maior pontuação. Há quem aplique assim a mesma lógica de avaliação de Parasita, vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2020, para uma série como Emily in Paris: um é arte, o outro motivo de vergonha. Esse “elitismo cultural” cria uma rixa parecida como a dos fãs de Marvel e DC. Para se afirmar intelectualmente, um lado despreza o outro, como se não fosse possível gostar das duas coisas.

Assim nasce a culpa. Declarar essa “falha” que foge aos seus critérios de autoafirmação se torna motivo de vergonha — “o que vão pensar de mim?”. O rótulo de guilty pleasure surge, em parte, para aliviar esse fardo, como se automaticamente dissesse “eu gosto, mas sei que é ruim”. Por outro lado, dá um peso desnecessário para um elemento que existe justamente para nos ajudar a lidar com os problemas, seja ampliando a nossa visão da realidade ou descansando nossa cabeça depois de um dia difícil no trabalho.

Para se livrar dessa “remorso cultural” é preciso entender o que parece quase a moral da história de uma fábula infantil: gosto é uma combinação única, cada um tem o seu. Logo, é impossível determinar uma regra de qualidade que agrade a todos, certo? Nesse contexto, discutir bom gosto equivale a um debate sobre qual é a “melhor cor favorita”. Isso não significa que é preciso abrir mão do senso crítico, ou que não existem técnicas e ferramentas a serem aprimoradas, mas é importante saber que uma opinião diferente não existe para a anular a sua (deixando claro que preconceito não é a mesma coisa que opinião).

Há quem não gosta de Parasita e há quem considera o filme uma obra-prima. Há quem não viu nenhum defeito em Emily in Paris, há quem gostou apesar das suas “falhas”, há quem gostou por causa dessas “falhas” e há ainda quem não aguentou um episódio sequer. Essa é uma questão completamente subjetiva e tentar aplicar qualquer regra a ela é torcer pela frustração. Parece bastante óbvio, mas bastam cinco minutos nas redes sociais para saber que não é assim.

O maior argumento, enfim, é que 2020 pede leveza, onde quer que ela possa ser encontrada. Com tantas questões sérias ao nosso redor, não dá para perder tempo explicando o que trouxe alguns minutos de paz. Não há tempo para o medo de julgamento. É preciso assumir de uma vez: gosto sim, e daí?

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