Filme novo de Adam Sandler dá nó na cabeça de fãs e haters

Por Diego Olivares

‘Joias Brutas’, que acaba de entrar para o catálogo da Netflix, está longe de ser o típico filme estrelado por Adam Sandler. Para se ter uma ideia, o ator chegou a ser considerado um dos potenciais concorrentes ao Oscar de 2020 pela performance, o que acabou não se confirmando - até mesmo críticos norte-americanos mordazes de suas comédias escrachadas acharam uma injustiça.

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A estreia do longa exclusivamente na plataforma de streaming no mercado brasileiro, sem passagem pelas salas de exibição, deve movimentar o tribunal das redes sociais nos próximos dias e merece atenção até mesmo daqueles que costumam torcer o nariz para o jeito “paspalhão” de Sandler. Já os fãs de produções como ‘O Paizão’, ‘Gente Grande’ e ‘Zohan’ certamente irão estranhar a aura de cinema marginal presente na obra dirigida pelos irmãos Safdie (os mesmos do insano ‘Bom Comportamento’, estrelado por Robert Pattinson).

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Adam Sandler vive Howard Ratner, o excêntrico dono de uma joalheria no centro de Nova York em meados de 2012. O vício em apostas esportivas é sua perdição, e quando o astro da NBA Kevin Garnett (que interpreta a si mesmo) visita a loja, o destino do protagonista ganha contornos inusitados.

Howard e Garnett negociam uma pedra preciosa vinda direto da Etiópia, contrabandeada dentro de um peixe e supostamente avaliada em cerca de US$ 1 milhão. Ambos têm razões para ficar com o item: o vendedor prometeu colocá-lo em um leilão, enquanto o atleta acredita que o objeto traz poderes especiais para sua atuação em quadra.

Para completar, o anti-herói vivido ainda tem outras negociações em andamento para dar conta: dívidas acumuladas, parceiros nem sempre confiáveis e um divórcio ainda não anunciado aos filhos são algumas delas. É um cotidiano caótico, e o ritmo de ‘Joias Brutas’ espelha isso. São 2 horas e 15 minutos alucinantes, com o personagem principal sob pressão o tempo inteiro, uma autêntica pilha de nervos.

Empatia imediata e tom soturno

É inegável que a persona de Sandler traz um efeito quase inconsciente ao espectador. Ao longo da carreira, o ator se caracterizou pela figura do homem ingênuo, de bom coração, praticamente uma criança em corpo adulto. Isso gera uma empatia imediata e faz com que quem esteja assistindo torça pelo protagonista com o mesmo fervor que ele dedica às apostas que faz.

Há pouco espaço para brincadeiras. Uma cena de Adam Sandler sendo abandonado completamente nu, no porta-malas de um carro, poderia ser engraçada na maioria de seus outros filmes. Aqui é um momento extremamente tenso, que dá a dimensão da situação delicada na qual se meteu. O mesmo exercício vale para diversas outras passagens do longa, que fazem valer a máxima de que a diferença entre comédia e drama é uma questão de ponto de vista. No caso dos irmãos Safdie, a escolha é por um tom soturno, pontuado pelos sintetizadores da trilha sonora composta por Daniel Lopatin.

O cenário de uma Nova York longe dos cartões postais acentua esse clima sombrio, pegando emprestada a atmosfera dos primeiros filmes de Martin Scorsese (‘Taxi Driver’, ‘Caminhos Perigosos’) - não à toa o cineasta é um dos produtores executivos do filme. É a mesma fonte da qual recentemente ‘Coringa’ também bebeu.

Sandler sério x Sandler cômico

Vale lembrar que essa não é a primeira vez que Adam Sandler mostra ao mundo sua versão mais séria. Há dezoito anos, ele ganhou elogios e foi ao Festival de Cannes (a meca do cinema autoral) pelo papel de um executivo solitário em ‘Embriagado de Amor’, dirigido por Paul Thomas Anderson. ‘Reine Sobre Mim’ (2007), ‘Tá Rindo do Quê’ (2009), ‘Homens, Mulheres e Filhos’ (2014) e ‘Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe’ (2017) são outros casos em que o ator interpretou personagens sem obrigação de provocar risadas.

Uma indicação ao Oscar por ‘Joias Brutas’ não apenas chancelaria essa faceta, mas também poderia servir como incentivo para Sandler investir ainda mais nesse tipo de opção. A justificada exaltação que ganhou pelo desempenho é prova de que o desprezo de parte da crítica não é nada pessoal, apenas resultado da saturação de um tipo de humor considerado ultrapassado.

De qualquer forma, para quem prefere que o astro continue fazendo as comédias no estilo que o consagrou, fica uma boa notícia. A Netflix acaba de anunciar que renovou o contrato com Adam Sandler e vai produzir mais quatro filmes protagonizados por ele, seguindo a linha de ‘The Ridiculous 6’ e ‘Mistério no Mediterrâneo’.