Aborto de Meghan mostra que nenhuma mulher deveria chorar em silêncio a perda de um filho

Marcela De Mingo
·5 minuto de leitura
Meghan Markle, The Duchess of Sussex at the Sydney War Memorial on Oct 20, 2018 in Sydney, Australia.
Meghan Markle escreveu um relato pessoal sobre o aborto espontâneo que sofreu para o The New York Times (Foto: Getty Creative)

Quando se fala em realeza britânica, a imagem que vem à mente é como um filme da Disney: um príncipe encantado, um casamento dos sonhos e, principalmente, um final feliz. A vida real, no entanto, muitas vezes fica bem distante disso - e Meghan Markle faz questão de mostrar o quanto ela é uma pessoa comum, com dificuldades e tristezas como qualquer outra. A mais recente delas? Um aborto.

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Em um texto bastante íntimo escrito em primeira pessoa para o The New York Times, Meghan conta sobre como perdeu o segundo bebê, em julho deste ano, por conta de um aborto espontâneo.

"Após trocar a fralda [do bebê Archie], eu senti uma pontada de cólica. Eu caí no chão com ele no colo, cantarolando uma cantiga de ninar para acalmar a nós dois, a canção animada um contraste ao meu senso de que algo não estava certo", escreveu ela. "Eu sabia, enquanto segurava o meu primogênito nos braços, que estava perdendo meu segundo filho."

Segundo o relato, Meghan diz se lembrar da vez que respondeu a uma pergunta fora do protocolo real de maneira que, também, fugia do tal protocolo. Enquanto fazia uma turnê pela África do Sul, no ano passado, e equilibrava a agenda oficial com a amamentação do pequeno Archie, um jornalista perguntou a Meghan: "Você está bem?". Para muitas pessoas, essa pergunta e sua resposta abre precedente para conversas importantes sobre como é a maternidade fora dos ideais e, principalmente, como as mulheres têm dificuldades ao se tornarem mãe.

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Voltando ao tema central do texto, Meghan explica que essa mesma pergunta foi o que começou o seu processo, e do príncipe Harry, de cura em relação a perda de um bebê.

Mais uma vez, inclusive, Meghan abre uma janela importante: falar sobre aborto ainda é visto como um tabu na nossa sociedade, ao ponto de uma menina de dez anos de idade, que sofreu violência sexual, ser massacrada por receber o direito de abortar um bebê que ela, do alto da sua infância, não queria ter.

No Brasil o direito ao aborto acontece apenas mediante três situações específicas, resguardadas por lei: em caso de gravidez decorrente de estupro, risco à vida da mãe e anencefalia do feto. Fora isso, ele é proibido por aqui, o torna os dados sobre o tema tão incompletos e vagos.

Alguns números são chocantes, outros nem tantos. Diz-se que meninas negras, menores de idade, moradoras das periferias são maioria quando se fala em mortes causadas por abortos clandestinos por aqui. Aliás, algumas estatísticas apontam para uma morte a cada dois dias por conta desses procedimentos.

Isso sem contar os casos como o de Meghan, de abortos espontâneos, que tiveram um aumento no número de atendimento 79 vezes maior do que aqueles previsto por lei, em um levantamento do site G1 feito em parceria com o DataSUS. No total, foram mais de 1000 abortamentos aprovados por lei e mais de 80 mil aspirações e curetagens, processos que esvaziam o útero após uma interrupção na gravidez, seja ela provocada ou espontânea. E isso tudo apenas no primeiro semestre de 2020.

Em seu texto, Meghan explica como fomos condicionados a lidar com questões emocionais de maneira tão fechada e tão sozinha que a relação entre as pessoas chegou ao nível do absurdo. Ela cita os casos de Breonna Taylor e George Floyd, duas pessoas negras assassinadas pela polícia norte-americana. Cita também o resultado das eleições dos EUA, que gerou discussões entre aqueles que, ao fim do dia, simplesmente não acreditavam nos resultados.

Principalmente, ela comenta como a falta de diálogo e de perguntas básicas, como "você está bem?", gerou uma polarização que coloca uma mulher na posição de chorar em silêncio a perda de um filho, mesmo que de forma "espontânea".

A conversa, claro, vai mais fundo. É importante citar, por exemplo, a questão da escolha de uma mulher em ter ou não um filho e com quem. Na dúvida de como isso funcionaria, é importante notar que os dados citados acima sobre o perfil das pessoas que mais buscam abortos clandestinos no Brasil são de adolescentes e de mulheres acima dos 40 anos sem companheiros. E, considerando que o número de crianças que nascem por aqui sem o registro do pai na certidão de nascimento (mais de 5 milhões), é fácil perceber que o papel do homem na relação com uma mulher, muitas vezes, termina após a ejaculação.

Entra nessa discussão também o quanto a maior parte das decisões relacionadas ao tema aborto foram tomadas por homens - com pouca ou quase nenhuma participação das mulheres. A visão machista que comanda a sociedade - e que ainda coloca na mulher a pressão por ser uma mãe responsável, como parte da sua função -, é o que eleva os números da clandestinidade.

Some-se a isso, ainda, a falta de acesso à informação. É essencial lembrar que boa parte do país não têm recursos como uma educação de qualidade, instrução ou itens considerados de necessidade básica nas grandes capitais, como luz, água encanada e, passando para o que ainda é um luxo para muita gente, acesso à internet.

A briga em cima do que é educação sexual e de onde ela deve partir também atravanca o processo de retirada do tabu sobre temas como aborto. Sem informações mínimas sobre prevenção de gravidez, sobre o que é assédio ou abuso sexual, muitas meninas se veem grávidas cedo demais e sem o desejo ou sem os recursos financeiros para serem mães. O que fazer, então? Permitir o crescimento da população miserável, deixar que essas mulheres se exponham à situações de grande risco para evitarem a gravidez ou dar à elas todo o suporte e a segurança necessárias para tomarem uma decisão com consciência e, principalmente, fazerem os procedimentos que desejarem sem a possibilidade de morrerem no processo?

A resposta parece óbvia, mas chegar até ela exige, como disse Meghan, começar conversas. Que seja perguntar para alguém que perdeu um filho se ela está bem, esse pequeno ato de empatia pode gerar efeitos em cascata que, eventualmente, nos levem a perceber que o que as pessoas merecem é todo conforto e segurança para tomarem as decisões que querem em paz.