Abdulrazak Gurnah, autor acidental que se tornou a voz dos deslocados

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Exemplares de "Afterlives", o livro mais recente de Abdulrazak Gurnah, vencedor do Nobel de Literatura, em livraria de Londres (AFP/Tolga Akmen)

Abdulrazak Gurnah, escritor de origem tanzaniana premiado nesta quinta-feira (7) com o Nobel de Literatura, é um profundo observador dos efeitos do colonialismo e da imigração durante uma carreira de décadas aclamada pela crítica.

"Quero apenas escrever com a maior veracidade possível e tentar dizer 'algo nobre'", explicou em uma entrevista concedida na Alemanha em 2016 o autor nascido em Zanzibar em 1948, que começou a escrever após sua mudança para o Reino Unido no fim dos anos 1960 para estudar.

"Foi nos primeiros anos morando na Inglaterra, quando tinha 21 anos, que comecei a escrever", explicou em uma entrevista ao jornal The Guardian.

"Comecei a escrever casualmente, com uma certa angústia, sem um plano em mente, mas com pressa e vontade de dizer algo mais", explicou. "Em grande medida, teve relação com a sensação esmagadora de estranheza e diferença que senti ali", recordou, a respeito de seus primeiros anos de emigração.

Passaram quase 20 anos antes da publicação de seu primeiro romance, "Memory of Departure", em 1987. Em seguida vieram "Pilgrims Way" um ano depois e "Dottie" em 1990.

Os três livros falam sobre as experiências dos imigrantes no Reino Unido daquela época.

A aclamação por parte da crítica veio com seu quarto romance, "Paradise" (1994), ambientado no leste da África colonial durante a Primeira Guerra Mundial e que foi finalista do prestigioso Booker Prize britânico.

Sua obra de 1996 "Admiring Silence" narra a história de um jovem que retorna a Zanzibar 20 anos depois da mudança para a Inglaterra, onde se casou com uma britânica e trabalhou como professor.

- Migração e identidade -

Em sua primeira entrevista à Fundação Nobel, o premiado fez um apelo à Europa para que mude sua visão dos refugiados da África e reconheça que "eles têm algo a oferecer".

"Não chegam com as mãos vazias", afirmou o escritor, detacando que são "pessoas com talento e energia".

"Percebo que a academia (sueca) escolheu destacar esses temas que estão presentes em toda a minha obra, é importante abordá-los e falar deles", disse também à agência de notícias britânica PA.

As obras de Gurnah são "dominadas pelas questões de identidade e deslocamento, e como estas são moldadas pelos legados do colonialismo e da escravidão", escreveu sobre ele o acadêmico Luca Prono no site do British Council, organismo público que promove a cultura britânica.

"Todos os relatos de Gurnah se baseiam no impacto que emigrar para um novo contexto geográfico e social tem na identidade de seus personagens", destacou.

"As questões que apresento não são novas", reconheceu o escritor ao jornal The Guardian ao comentar seu trabalho. "Mas se não são novas, são fortemente influenciadas pelo particular, pelo imperialismo, pelo deslocamento, pelas realidades do nosso tempo", considerou.

"E uma das realidades do nosso tempo é o deslocamento de tantos estrangeiros para a Europa", completou.

Assim, em 2001, com "By the Sea", Gurnah voltou a abordar o tema com a história de Saleh Omar, um demandante de asilo que acaba de chegar ao Reino Unido.

Suas últimas obras incluem "Desertion", de 2005, pré-selecionado para o prêmio de escritores da Commonwealth de 2006, e "The Last Gift" (2011), que a revista Publishers Weekly descreveu como um "romance inquietante, com uma trama sólida, com reflexões poderosas sobre a mortalidade, o peso da memória e a luta para estabelecer uma identidade pós-colonial".

O romance mais recente de Gurnah, "Afterlives", foi lançado no ano passado e conta a história de um menino que foi vendido às tropas coloniais alemãs.

O escritor se aposentou recentemente como professor de Literatura Inglesa e Pós-Colonial na Universidade de Kent e vive em Brighton, sul da Inglaterra.

Bashir Abu-Manneh, chefe do departamento de Literatura Inglesa, destacou nesta quinta-feira sua "luta pela voz individual, pela justiça, por se sentir em casa em um mundo que sempre muda".

"Ninguém que escreve hoje em dia articulou tão bem as dores do exílio e as recompensas do pertencimento. Canterbury e Kent são, por sua vez, seu exílio e seu lar", acrescentou.

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