Abdulrazak Gurnah é só o quarto autor negro a vencer Nobel em 120 anos

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O Nobel de Literatura não é conhecido exatamente pela diversidade. Dos 118 escritores premiados desde a fundação do prêmio, apenas quatro são negros, incluindo o vencedor deste ano, Abdulrazak Gurnah, nascido na Tanzânia.

Gurnah foi escolhido, segundo o comitê do Nobel, "por sua rigorosa e compassiva investigação sobre os efeitos do colonialismo e os destinos dos refugiados na lacuna entre culturas e continentes".

Lembre abaixo quem foram os outros três.

WOLE SOYINKA

Primeiro negro a vencer o Nobel de Literatura, em 1986, Soyinka nasceu na Nigéria e tem proximidade com a cultura brasileira, apesar de só ter dois livros traduzidos aqui —a fábula "O Leão e a Joia" e "Aké: Os Anos de Infância". No último, publicado no ano passado, ele volta aos anos 1930 e 1940 para narrar a sua infância. Descendente do povo iorubá, procura, por meio de um relato memorialístico, explorar a fricção entre a tradição e a modernidade.

Assim como Abdulrazak Gurnah, o ganhador deste ano, ele também aborda em sua obra as contradições do colonialismo e não hesita em incluir referências diretas da sua realidade, explorando os reflexos da colonização britânica à qual a Nigéria esteve submetida até 1960.

Soyinka foi crítico do regime ditatorial que se iniciou em 1966 no país, o que o levou à prisão. O período resultou na coletânea poética "Poems from Prison" (poemas da prisão), ainda não publicada no Brasil.

TONI MORRISON

Única mulher negra a ganhar o prêmio na história, em 1993, ela é a autora de clássicos da literatura americana, como "Amada", que venceu o prêmio Pulitzer, o estudo de não ficção "Jazz" e a pungente narrativa de "O Olho Mais Azul", seu primeiro romance. Morrison morreu em 2019, aos 88 anos.

De modo geral, sua obra é marcada por personagens mulheres negras que revelam as heranças míticas do escravagismo da sociedade americana a partir de suas narrativas. É o caso de Sethe, a protagonista de "Amada", que se vê obrigada a matar a própria filha para impedir que ela seja capturada por senhores de escravos.

Destacam-se em seus livros um complexo trabalho de linguagem. A fim de transitar com fluidez entre as vozes das personagens, ela manipula o registro popular, o inglês falado pelas pessoas afro-americanas, sem resvalar para o exotismo nem para a comicidade. Nas palavras da escritora Conceição Evaristo, que escreveu um texto sobre a americana no jornal Folha de S.Paulo, o estilo de Morrison pode ser descrito como um "brutalismo poético".

DEREK WALCOTT

Poeta nascido na ilha de Santa Lúcia, no Caribe, ganhou o prêmio um ano antes de Morrison, em 1992. Suas obras são marcadas pelo multiculturalismo e por uma veia cômica e luminosa. O comitê do Nobel descreveu seu trabalho como "uma obra poética de grande brilhantismo, sustentada por uma abordagem histórica".

Primeiro autor caribenho a receber a maior premiação literária do mundo, Walcott teve sua grande estreia editorial com "In A Green Night: Poems", uma coletânea de poesia que compreendia sua produção entre os anos de 1948 e 1960. Nela, ele celebra a história e a cultura caribenhas, bem como investiga as marcas da colonização, já que, assim como a Nigéria de Wole Soyinka, seu país também foi uma colônia britânica.

Seu livro "Omeros" foi publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2011. A obra consiste num poema épico que une o ambiente tropical dos pescadores de Santa Lúcia e os arquétipos da poesia grega clássica. O autor se aposentou em 2007 como professor da Universidade de Boston, nos Estados Unidos. Morreu em 2017, aos 87 anos.

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