A viagem de Karin

Fernanda Pompeu
Karin Hueck
Karin Hueck

Tem uma máxima que diz que a gente só muda quando as coisas estão ruins. Caso contrário ficamos sentadinhos onde estamos. Mas isso parece não ser verdade para a jornalista, blogueira e escritora Karin Hueck. Afinal a moça, de 28 anos, abriu mão de um trabalho criativo, dinâmico e razoavelmente bem pago. Era editora da revista Superinteressante e também responsável pelos infográficos - quadros que passam o máximo de informação por meio visual. Com eles, Karin ganhou alguns prêmios internacionais. "Aprendi a contar histórias visuais e a valorizar a beleza de cada página. Design e arte servem para tornar a vida das pessoas mais agradável, para dar sentido às coisas", ela esclarece. Foi procurando dar um novo sentido à própria vida que, ao lado do marido Fred, ela resolveu largar emprego e país e embarcar para Berlin, a 10 mil quilômetros e um oceano inteiro de São Paulo.

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Não foi um gesto tresloucado. Ela e ele juntaram uma grana durante os anos dos empregos estáveis, acrescentaram amor e coragem e bancaram a mudança. Karin conta: "Não foi e não é fácil ter dispensado a estabilidade financeira que nossos empregos davam. Mas sentimos que se não fizéssemos naquele momento, talvez nunca chegasse a hora." A escolha berlinense também não foi ao léu. Neta de avô paterno alemão, Karin domina o idioma de Goethe e dos Irmãos Grimm. Pela história cultural passada e recente de Berlin, a cidade é cenário amigável para quem quer emplacar projetos e estilos de vida não convencionais. É lá que a moça tenta uma forma diferente de fazer as coisas. "Estou empenhada em criar meu próprio trabalho e inventar minhas ocupações", diz.

O novo trabalho é o Projeto Glück, um site-blog, cujo objetivo é investigar a felicidade. Melhor, pesquisar o que as pessoas fazem em prol de sua felicidade. Produzido por uma rede de amigos e colaboradores - pois Karin Hueck é dessa geração hiperconectada, 4G, polegares no smartphone e olhos no Instagram - o site reúne narrativas verbais e visuais. Só no primeiro mês de vida, em outubro de 2013, ele somou 194 mil visitas! Sucesso que Karin credita não apenas ao acuro visual do projeto, mas principalmente ao tema. Afinal, ter uma vida mais feliz  - plena e qualitativa - está na ordem do desejo da maioria dos jovens. Isso no mundo inteiro. Em alemão, felicidade e sorte são a mesma palavra: Glück. O mais importante no site é a variedade das narrativas. As pessoas falam de caminhos diversos para viverem melhor. Ou seja, o Glück não é um receituário de dicas felizes e nem um relicário de autoajuda. "A felicidade dá trabalho. Você não pode passar a vida esperando que coisas boas aconteçam por mágica. Tem que cavar para descobrir o que o deixa feliz", Karin reflete.

Investigar a felicidade não foi algo que caiu de paraquedas no território de Karin Hueck. Ainda no Brasil, ela se envolveu na pesquisa "Chega de Fiu-Fiu" - hospedada no site Olga de Juliana de Faria - abordando as cantadas e assédios que a brasileiras escutam nas ruas. "Fui ouvir o que as mulheres achavam das piadinhas rasteiras e insistentes. Em dez dias, recebi oito mil respostas. A maioria, 83% das mulheres, se sente incomodada com esse tipo de assédio. Legal é a paquera, pois as duas partes estão interessadas. Já o assédio é coisa do poder masculino constrangendo o feminino", Karin analisa. Muita gente fechou a cara para a pesquisa. Em geral, as pessoas não gostam de questionar hábitos arraigados. O fiu-fiu é um deles. Mas a experiência da pesquisa, exitosa na sua visibilidade, mostrou que Karin estava no caminho certo. Ou seja, deixar o emprego com patrão, horário de entrada e saída e partir para uma maneira inventada de trabalhar. Palavras dela: "É nisso que estou no momento. Aberta e atenta a muitas possibilidade. O meu mundo é o da comunicação e sei que há novas e felizes maneiras de trabalhar com ela".

Inventar-se é o mantra de Karin Hueck, mas não é uma jornada solitária, ou voltada para o próprio umbigo. Para ela, trabalhos, vida pessoal, projetos valem a pena só e quando compartilhados. Por conta disso ela acredita muito na força das narrativas. Crê na capacidade que as histórias dos outros têm de nos influenciar. Sendo assim, a felicidade só é completa se for narrada. Se um caminho feliz consegue inspirar outros, ele se tornar socialmente relevante. Outra paixão de Karin são os livros. A leitura foi sua grande companheira de infância. "Eu fui uma criança muita tímida e reservada. Daí, rapidinho fiz dos livros meus amigos", ela rememora e acrescenta: "Vim para Berlin também para escrever um livro. Atualizar o meu lado escritora. Isso me faz muito feliz".