A vertigem da esquerda que não tolera críticas



Cena do documentário indicado ao Oscar 2020 "Democracia em Vertigem". Foto: Reprodução


Por Fhoutine Marie*, autora convidada


Há alguns anos a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie proferiu uma conferência no TEDx chamada “Os perigos de uma história única”.

No encontro, ela alertava que as narrativas hegemônicas a respeito de um povo podem nos conduzir, sem querer, a nos concentrar em apenas um aspecto da história, sem entender que sociedades e fenômenos sociais são complexos e, portanto, não podem ser entendidos por um único ponto de vista. Nesse sentido, falar sobre os perigos de uma história única é uma questão relacionada ao poder. O modo com que as histórias são contadas, quem as conta e quantas são contadas: tudo depende dessas estruturas de poder. 

Poder, neste caso, não seria apenas a habilidade de contar a história de outra pessoa, mas a possibilidade de fazer dessa história uma verdade definitiva sobre alguém. Deste modo, uma história que privilegia apenas um aspecto de uma trajetória repleta de complexidade é um relato incompleto; dependendo da posição de quem narra nessas estruturas de poder, a narrativa pode se tornar a única história que conhecemos sobre algo ou alguém.

É a partir disso que eu gostaria de pensar o alvoroço causado nas redes sociais em torno da indicação de “Democracia em Vertigem” para o Oscar 2020 de melhor documentário.

Deixando de lado os comentários de partidos que chamaram a obra de fantasia e ficção e os insultos proferidos por líderes políticos ao público do documentário, opto por me concentrar na reação das pessoas que se identificam como progressistas, defensoras do Estado democrático de direito ou como de esquerda, já que me interessa estabelecer diálogo e alianças com quem compartilha o interesse pela criação de uma realidade social mais digna e livre.

Deste modo, acredito que a indicação do documentário de Petra Costa é importante para chamar atenção internacionalmente para o golpe parlamentar ocorrido em 2016. Além disso, num momento em que a cultura nacional encontra-se sob ataque por parte do atual governo, sendo alvo de desmonte e censura, vem em boa hora o reconhecimento internacional de uma produção do cinema brasileiro.  

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Pessoalmente, como cientista política, discordo de alguns pontos de vista defendidos pela diretora.

Não há nenhum problema no fato de o documentário ser “parcial” ou defender um ponto de vista; quem não pode ser parcial é juiz de direito e procurador da República.

Do mesmo modo não é um problema que pessoas que não compartilham de uma visão de mundo mais à esquerda não gostem do documentário e façam críticas a ele.

Defender um ponto de vista em criações artística, gostar e discordar fazem parte da liberdade de expressão, tão cara às democracias ocidentais e necessária em tempos autoritários.

Porém, como qualquer obra cultural, o documentário de Petra Costa também está passível de críticas.

O que não faz parte da liberdade de expressão e do espírito democrático é acusar quem critica uma obra de ser fascista ou de compactuar com um golpe de Estado.

Na minha avaliação, que eu faço na condição de cientista política e não de crítica cinematográfica, ao privilegiar um ponto de vista partidário, a diretora acaba abordando os movimentos sociais que participaram das chamadas Jornadas de Junho de maneira um tanto superficial, o que dá margem para conclusões apressadas – e equivocadas – sugerindo uma relação de causa e efeito entre Junho de 2013 e golpe parlamentar.

Esta crítica, evidentemente, não invalida o trabalho da diretora e seu esforço para denunciar o golpe sofrido por Dilma Rousseff três anos depois. Mas esta abordagem é um problema para diversos militantes e ativistas que participaram ativamente das manifestações de 2013 porque tende a reforçar uma história única sobre os acontecimentos políticos recentes no campo da esquerda.

Recentemente o Movimento Passe Livre e o PSOL publicaram notas de repúdio às declarações do ex-presidente Lula ao jornalista Nacho Lemus, da TeleSUR, em dezembro de 2019.

Lula declarou que as manifestações daquele ano seriam responsáveis pela disseminação do ódio ao PT e teriam sido articuladas como parte do golpe contra Dilma Rousseff. Lula disse ainda, sem apresentar nenhuma evidência, acreditar que os Estados Unidos seriam responsáveis pela promoção dos atos de Junho.

Embora essa hipótese tenha alcançado alguma popularidade em alguns círculos da esquerda partidária, principalmente aquela mais simpatizante ao Partido dos Trabalhadores, trata-se de algo que ao longo dos últimos anos vem sendo amplamente refutado por intelectuais que defendem as manifestações de Junho de 2013 como um fenômeno social complexo. Entre eles estão nomes como André Singer, Flávia Biroli, Luís Felipe Miguel, Vladimir Safatle, entre outros.

Conforme explica a antropóloga Rosana Pinheiro Machado, autora do livro “Amanhã Vai Ser Maior” (2019), a linha de pensamento que atribui às manifestações a causa do golpe e a ascensão da extrema direita no Brasil comete um erro de diagnóstico ao ignorar os antecedentes e desdobramentos dos protestos e não pensá-los como continuidade das lutas anarquistas e autonomistas da virada do século XX no mundo todo e dos protestos pelo transporte público que vinham acontecendo no Brasil desde 2013.

A autora diz ainda que é preciso descentralizar a narrativa e não pensar apenas nos atos que ocorreram em São Paulo, mas nas peculiaridades que essas manifestações adquiriram ao ocorrer em diversos estados brasileiros. Além disso, é preciso considerar que a ascensão da direita começou a se articular no Brasil pelo menos uma década antes dos atos de 2013, por meio da mobilização de empresários, como no Movimento Cansei, e atividades de entidades voltadas para difusão do pensamento ultraliberal, como o Instituto Millenium e outros.

Evidentemente Petra não tinha obrigação de entrar nessas questões se seu objetivo no documentário não era este.

Porém, infelizmente, há uma parcela da esquerda brasileira que, no afã de defender o que há de positivo, tende a silenciar a crítica acusando-a de fazer o jogo da direita, de ser a esquerda que a direita gosta, ou ainda, serem cúmplices do golpe parlamentar de 2016 e da ascensão do bolsonarismo.

Não se trata apenas do documentário “Democracia em Vertigem”, mas de qualquer crítica dirigida a artistas de esquerda, produtos culturais, trajetórias de líderes políticos e governos de esquerda passados. Isso é um problema, pois se trata da defesa do autoritarismo (quem critica é golpista) em nome do combate a um governo autoritário.

Como nos lembra Foucault em “Introdução a Uma Vida Não Fascista” (1977), para construir uma arte de viver contrária a todas as formas de fascismo é recomendável estar atento a um certo número de princípios essenciais. Entre eles está liberar a ação política de toda paranoia unitária e totalizante. Em outras palavras, aceitar a crítica e a pluralidade de pensamento e interpretações a respeito dos movimentos sociais sem acusar quem a profere de compactuar com o fascismo. 

Retomando a reflexão de Chimamanda, insistir numa história apenas é ignorar todas as outras que compõem um quadro. Portanto, se é importante entender o golpe de 2016 a partir do jogo político partidário antagônico que ocorre paralelamente com a ascensão da extrema direita, é importante pensar em outras narrativas importantes para a história política recente do Brasil.

Isso inclui considerar que existem outras formas de atuação política que não subordinadas à política partidária, e que se seus efeitos não podem ser mensurados em termos de quantidade de votos e resultados eleitorais. Isso não significa que elas sejam menos importantes ou possam ser reduzidas a pessoas sem lideranças disponíveis para serem manipuladas. 

A consequência de uma história única, diz Chimamanda é que ela rouba a dignidade das pessoas.

Porém, quando rejeitamos a história única e percebemos que nunca há uma história única sobre nenhum lugar, nós, de certa forma, “retomamos o Paraíso”. 

Insistir numa narrativa melancólica de ascensão da direita e que joga todas as esperanças para o plano institucional é retirar o protagonismo político das pessoas e, em certo sentido, roubar sua dignidade.

Ao rejeitarmos a narrativa linear que busca apenas causas e efeitos e se concentra na política partidária como protagonista da nossa história, nós retomamos as possibilidades de transformação social e de pensar a política como algo pertencente às pessoas e não aos governos. 

Espero, de coração, que Petra Costa traga a estatueta para o Brasil, pois se trata de uma mulher fazendo cinema em um mundo predominantemente masculino.

Do mesmo modo espero que o cinema nacional sobreviva às investidas conservadoras e obscurantistas do atual governo para que possamos contar muitos outros aspectos da história do Brasil recente, sem que nenhuma delas se sobressaia ou se torne a versão definitiva dos fatos — mas que, juntas, se potencializem no protesto coletivo de escrever uma outra História.


*Fhoutine Marie é doutora em Ciência Política e participa como autora dos livros “Tem Saída? - Ensaios Críticos Sobre o Brasil” (2017) e “Neoliberalismo, Feminismo e Contracondutas - Perspectiva Foucaultianas” (2019).