A luta das transexuais e travestis em meio à pandemia

Indianara Siqueira, ativista transexual trabalha para proteger colegas do Covid-19 (Foto: Arquivo Pessoal)

Por Aline Takashima (@aline.takashima)

Desde o dia 16 de março só entra na Casa Nem quem tem autorização. O lar de travestis e transexuais decidiu se proteger contra o coronavírus antes mesmo do prefeito Marcelo Crivella decretar quarentena no Rio de Janeiro. O prédio no coração de Copacabana é a casa de 60 pessoas. Hoje, as pessoas só saem em casos de extrema necessidade. E, se depender de Indianara Siqueira, ativista transexual e idealizadora do projeto, o covid-19 não entra de jeito nenhum na casa. 

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Indianara testemunhou a morte de muitas amigas travestis e transexuais em decorrência do HIV na década de 1990. Perdeu uma irmã. "A gente teve que se organizar para sobreviver a um vírus. É um trauma." Por isso, quando o covid-19 chegou no país, a ativista explicou para os moradores da Casa Nem quais as maneiras de proteção e as formas de contágio. 

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Com óculos escuros e os cabelos loiros presos em um rabo de cavalo, Indianara explica por videoconferência que as trans já vivem um isolamento social há muito tempo. "A sociedade não nos aceita", resume. O Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais em todo o mundo. No ano passado, 124 pessoas foram assassinadas, revela pesquisa da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA). 

E a situação só piorou com a chegada do coronavírus. Entre março e abril, meses em que o Brasil entrou em isolamento social, 26 mulheres trans e travestis foram mortas no país. Um aumento de 13% comparado ao mesmo período de 2019, aponta a ANTRA. Os números impressionam. Mas não amedrontam quem está na linha de frente. 

Indianara é uma delas. Já denunciou cafetinas e policiais em esquemas de extorsão de prostituição; quase morreu assassinada; criou o PreparaNem - cursinho pré-vestibular para travestis e trans. Era amiga da ex-vereadora Marielle Franco, morta em 2018. Sua trajetória virou filme, o documentário 'Indianara', dirigido por Marcelo Barbosa e Aude Chevalier-Beaumel. Representou o Brasil no Festival de Cannes no ano passado, junto com 'Bacurau', de Kléber Mendonça FIlho. 


Enquanto Indianara conversa sentada em uma rede, os moradores da Casa Nem comemoram ao fundo: chegou a comida da xepa. O grupo apoia quem foi expulso das suas famílias por conta da orientação sexual. O acolhimento na Casa Nem acontece mesmo durante a pandemia. 

O quarto andar do prédio é para os novos moradores que chegam. Eles ficam 15 dias em quarentena. E depois, então, são liberados para circular nas áreas coletivas. Toda semana, chegam, no mínimo, duas pessoas. 

O local também oferece trabalho remunerado. Atualmente, 34 moradoras produzem máscaras de pano. A cada produto vendido, um é doado para a população vulnerável. O objetivo é produzir 5 mil máscaras. A iniciativa é uma parceria com o estilista Almir França. 

Há outros espaços de acolhimento espalhadas pelo Brasil. A Casa Nem faz parte da recém criada Rede Nacional de Casas de Acolhimento LGBTI+. Eles aceitam doações por meio de uma vaquinha virtual. Com o auxílio, travestis e transexuais recebem apoio emergencial como abrigo, comida, máscaras e álcool em gel.

Bruna Benevides, primeira trans nas Forças Armadas

Bruna Benevides, primeira trans nas Forças Armadas (Foto: Arquivo Pessoal)

Encontrar um espaço na agenda de Bruna Benevides, 40 anos, para uma entrevista é tarefa difícil. Entre reuniões e lives, a primeira sargento trans da Marinha é incansável. Ela coordena um pré-vestibular para comunidade LGBTI+ em Niterói, e é responsável pelo mapeamento da violência contra pessoas transexuais no Brasil, na Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA). 

Há oito anos se assumiu como transexual na Marinha. Foi afastada justamente por ser quem é. A corporação não a aceitou como mulher. Ela ainda é uma das poucas trans que tem um trabalho formal. De acordo com a ANTRA, apenas 4% das travestis e transexuais têm a carteira assinada. E, mesmo nestes casos, sofrem transfobia. "Somos qualificadas, mas passamos por diversas formas de violência. A nossa capacidade é contestada", explica. 

É por isso que 90% delas sobrevivem da prostituição. As trans são excluídas da sociedade e, consequentemente, do mercado de trabalho. Bruna também está à frente de projetos criados por conta da pandemia. O 'TransAção' irá beneficiar 150 travestis e transexuais que moram no estado do Rio de Janeiro e que não recebem qualquer tipo de auxílio do governo. O valor de R$ 200 será concedido por três meses. Qualquer tipo de ajuda é importante. O Mapa da Solidariedade é outra iniciativa que mapeia instituições e casas de acolhimento no país. O intuito é facilitar o contato para doações financeiras. 

A trajetória de travestis e transexuais não tem um início fácil. A maioria é expulsa da casa dos pais ainda quando criança, geralmente aos 13 anos de idade. A ativista faz parte da estatística. Foi abandonada pela sua família. Aos 15 anos morou nas ruas. E, aos 17 entrou na carreira militar. "Não tenho um vínculo com a minha família consanguínea. Eles ainda não conseguiram entender que eu luto pelo direito de ser livre. Não tenho escolha de ser outra pessoa. E se isso lhes causa algum problema, eles é que têm que resolver. Não sou eu que tenho que resolver porque não há nada de errado comigo." E conclui: "A minha família é formada por pessoas que gostam de mim, me admiram e me incentivam. Tenho uma família gigantesca que cresce a cada dia".

Duda Salabert, primeira mãe trans a ter licença maternidade

Duda Salabert, 38 anos, comemorou recentemente o seu primeiro Dia das Mães ao lado da filha Sol. A professora de literatura e companheira de Raísa Novaes foi a primeira mulher trans no Brasil a ter o direito de licença maternidade de 120 dias. "O nascimento de Sol foi uma revolução. Ela me faz olhar o mundo com outra perspectiva tendo como lente o afeto e o amor." 

A professora é uma pioneira. Também foi a primeira mulher trans a se candidatar a uma vaga no Senado, representando Minas Gerais, em 2018. Ela não conquistou a vaga. Mais foi a 4ª mulher mais votada nas eleições do estado. Suas vitórias não são só dela. E sim de todas as travestis e transexuais do Brasil. 

Há quatro anos, criou a ONG TransVest. O projeto oferece educação gratuita para travestis e transexuais em Belo Horizonte. "É uma pedagogia do afeto. A pessoas devem ocupar espaços de poder como a universidade", define. Desde que a pandemia começou, a ONG interrompeu as aulas. Mas não deixa de ajudar a comunidade. 

Atualmente oferece uma renda de R$ 100 para 150 travestis jovens. As idosas recebem R$ 200. São consideradas idosas as mulheres acima de 35 anos – expectativa das transexuais no Brasil. "A nossa luta é importante sobretudo para a democracia. Não existe democracia sem o respeito à diversidade e à pluralidade", defende Duda. E emenda:  "Nessas horas, a gente coloca à prova aquela frase famosa 'ninguém solta a mão de ninguém'. E então eu pergunto: a mão de quem vocês estão segurando neste momento?".