"A gente não tem liberdade até hoje", diz Preta Rara sobre mulheres negras

Preta Rara (Foto: Instagram)

Foi em 2016 que Joyce Fernandes, também conhecida como Preta Rara, abriu uma página no Facebook para falar sobre a realidade das trabalhadoras domésticas no Brasil. Chamada de "Eu, Empregada Doméstica", a página viralizou ao dar voz a uma classe de trabalhadoras que, historicamente, seguem a mesma função de seus ancestrais no começo da história do Brasil: a mulher negra que serve à família branca.

Já conhece o Instagram do Yahoo Vida e Estilo? Segue a gente!

Anos depois, a rapper e educadora transformou os milhares de relatos que recebe de mulheres negras contando a forma como são tratadas no ambiente de trabalho em livro, lançado pela Editora Letramento este mês. Mas não para por aí. Em entrevista ao Yahoo, ela explica um pouco dessa trajetória e o seu papel na luta constante contra o racismo por aqui.

Leia também

Brasil e a "abolição não conclusa"

Joyce explica que começou a compartilhar a sua própria história - ela trabalhou sete anos como empregada doméstica - na internet depois que já era professora de História formada. Em um de seus primeiros relatos, ela diz que tinha sido contratada como cozinheira, mas não podia se alimentar da própria comida. A postagem gerou um movimento enorme, em que outras mulheres em situações semelhantes começaram a contar as suas próprias vivências.

Pode parecer que esse tipo de tratamento é antigo, mas ele segue muito atual. Ainda hoje, com mais de 163 mil seguidores, a página já acumula em torno de 4 mil relatos e recebe uma média de 10 histórias por dia.

"Senti um impacto muito forte de contar essas histórias para mostrar que o Brasil ainda vive esse resquício de uma abolição não conclusa. Há um grande engano de achar que a abolição da escravatura acabou no dia 13 de maio [de 1888]. Mesmo hoje sendo dia 1º de agosto de 2019, a gente vive ainda sob a sombra de 14 de maio de 1888, que eu chamo de 'O dia da dura realidade', em que os escravizados acharam que teriam realmente a sua liberdade garantida - e a gente não tem a liberdade até hoje", diz ela.

A liberdade a qual ela se refere é a de direitos assegurados. Para se ter uma ideia, o trabalho doméstico é um dos mais antigos do Brasil, mas só em 2015 foi aprovada uma legislação, a PEC das Domésticas, que assegurava direitos trabalhistas e reconhecia esse trabalho como uma profissão.

A luta, claro, não é só de Joyce. Ela explica que percebeu a necessidade de dar continuidade ao trabalho de outras mulheres que já abriram o caminho para essa conversa, como Laudelina de Campos Melo, mulher negra criadora do primeiro sindicato das trabalhadoras domésticas no Brasil. Como forma de manter a discussão em pauta, a publicação do livro "Eu, Empregada Doméstica" aparece como um reforço e um reconhecimento dessas vozes, historicamente abafadas.

"A importância de ter essas histórias publicadas é trazer à tona o protagonismo das trabalhadoras domésticas. Estou muito feliz com essa conquista, demorou dois anos para que esse livro realmente pudesse ser publicado, foram diversas portas fechadas, foram diversos ‘não’, mas sou filha da dona Maria Helena da Silva Fernandes, que não desiste de nada, bebê", comemora.

"O livro vai trazer essa narrativa, tanto para falar sobre como o trabalho doméstico é hereditário para as mulheres pretas. Minha avó foi trabalhadora doméstica, minha mãe foi... E, na época, o que sobrou pra mim foi ser, eu não tinha uma outra opção. Quando morava em Santos e nos comércios pediam currículo com 'boa aparência', essa 'boa aparência' nunca era personificado numa pessoa igual a mim, preta, gorda… Um lugar que me recebeu de braços abertos foi o trabalho doméstico".

O movimento da geração incômodo

Preta ficou conhecida não só pela página no Facebook, mas por iniciar um movimento que chama de "geração incômodo". A ideia é, justamente, incomodar a ponto de gerar questionamentos que, depois, podem ser refletidos em mudanças reais na forma como a nossa sociedade se comporta.

"A geração incômodo é para tentar praticar a empatia das pessoas. Muito se fala no Brasil que trabalho doméstico é um trabalho como qualquer outro, mas é um trabalho como qualquer outro no qual eu não vejo ninguém desejando isso para o seu filho ou para a sua filha", diz.

Para ela, não adianta apenas ler relatos como os do livro se isso não é um gatilho para uma mudança de comportamento efetivo, quando o discurso empático fica apenas na teoria. "O incômodo é esse, se colocar no lugar do outro. Será que você realmente ia gostar de trabalhar 8 horas por dia para ganhar R$ 550 por mês? Porque existem trabalhadoras domésticas no Brasil ganhando esse valor".

O objetivo da fala incisiva é estimular um questionamento que vá além e faça com que as pessoas, especialmente a população branca, questionem se algo, de fato, mudou desde o fim da escravidão no Brasil. "A fala é sempre incisiva e dura para mexer nas feridas, para que realmente a gente consiga sanar esse dano que existe desde o processo de escravidão no Brasil. As pessoas, para diminuir esses danos, chamam de ‘secretária do lar’, uma ‘companheira’, ‘minha amiga’... Mudam-se os nomes da função, mas a exploração continua a mesma".

É por isso também que Joyce diz que "a mudança está nos lugares por onde a gente passa". Se, a cada momento, conseguir abrir a conversa e diminuir as opressões que acontecem diariamente não só com a população negra, mas também indígena no Brasil, o caminho já evoluiu. Mas, é óbvio, ele ainda é longo.

"O racismo é um problema de quem tá no poder, de quem sempre teve a fatia maior do bolo do privilégio, que são as pessoas brancas", explica. "Estou nesse mundo para disputar narrativa com as pessoas brancas. Não adianta falar que 'eu sou branca e reconheço o meu privilégio'. Ok, você reconhece de que forma? Porque a gente ainda está abaixo da pirâmide social".

Em um país onde a maioria da população doméstica é composta por mulheres negras (são 78,8%, segundo dados do DIEESE, o Departamento Intersindical de Estatutos e Estatísticas Socioeconômicas), a conversa se mostra ainda mais importante. Até porque, do ponto de vista econômico, o racismo ainda atravessa - e muito - a ascensão dessas mulheres à uma qualidade de vida melhor.

"Estou nesse mundo para disputar poder, e poder é dinheiro. Quando a gente fala de dinheiro, enquanto mulher preta, gorda, as pessoas brancas lembram do capitalismo. Elas lembram que 'Ah, mas aí é o capital, olha a Preta Rara está querendo ostentação'. Cara, dinheiro é poder e desejo poder para todas as mulheres pretas, principalmente para as trabalhadoras domésticas, que elas consigam alterar essa situação".