A estreia do ‘Zorra’ e os ataques ao humor

Quadro ‘Infância dos Famosos’, da nova temporada do programa (Divulgação)

Hoje estreia a segunda temporada do ‘Zorra’. O programa volta em um momento interessante (no sentido de esquisito mesmo) para o humor. Há poucos dias o Porta dos Fundos, o mais popular canal humorístico da internet, se viu em meio a uma polêmica em que “foradilmistas”, aborrecidos com o quadro ‘Delação’, pediam boicote ao grupo. Em outro episódio, poucas semanas atrás, Boni, o ex-todo poderoso da Globo, atacou o programa ‘Tá No Ar’ dizendo que 90% das pessoas não entendiam suas piadas.

São dois episódios e críticas diferentes, mas que acertam um mesmo alvo: o humor. No primeiro incidente o que se revela é o festival de intolerância que assola o país. O humor por natureza é – ou pelo menos deveria ser – anárquico. Ele atira para todos os lados, sem dó nem piedade. Digamos que, em uma briga, o humor não é aquele que tenta separar os contendores, mas o que vê a briga de uma sacada e faz piada com o ridículo da situação. É óbvio que em um ambiente de polarização ele, o humor, seria a principal vítima de ambos os lados. É como ser ateu em uma guerra entre católicos e protestantes.

Antonio Tabet, um dos fundadores do Porta dos Fundos, veio a público para defender o grupo e escreveu o óbvio: humor não tem lado nem fronteiras e faz parte da democracia aceitar as diferenças. Infelizmente deve ter pregado no deserto, já que as pessoas andam muito ocupadas se armando ideologicamente e não têm tempo para dar atenção a pontos de vistas alheios.

Sobre Boni e suas opiniões, a questão é outra. Há tempo o ex-chefe da Globo vem batendo forte na emissora. Acha que tudo está errado por lá. “O humor na TV brasileira foi para o espaço! Perdemos o Chico, o Jô que não faz mais, o Casseta & Planeta, que não tinham estrutura”, disse em um programa de rádio. É irônico que Boni tenha citado o Casseta & Planeta como referência. Poucos se lembram, mas o grupo de Bussunda, Claudio Manoel e companhia foi severamente criticado quando estreou na Globo. Críticas muito semelhantes as que são feitas ao ‘Tá No Ar’.

Na entrevista coletiva de apresentação da nova temporada do ‘Zorra’, Marcius Melhem rebateu Boni: "O público entende o que é bom. É um preconceito muito forte dizer que o povo não é capaz de entender uma piada e falar que o humor inteligente não é popular. Geralmente quem fala isso não é capaz de entender o povo”. Melhem foi perfeito em sua colocação. Dizer que o povo não entende piadas mais elaboradas é como afirmar que produto popular tem de ser rasteiro e que só a elite merece consumir produtos de qualidade.

Boni, um senhor tão vivido, deve ter se esquecido que nos anos 1970 as paradas de sucessos (portanto feitas com canções ouvidas pelo povão) tinham no topo da lista artistas como Elis Regina, Chico Buarque, Luiz Melodia, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Pelo raciocínio do ex-global esses artistas seriam completamente inadequados para tocar em rádios populares.

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Não é segredo que o Marcius Melhem peitou gente poderosa dentro da Globo para botar o novo ‘Zorra’ no ar. Agora o programa volta com a missão de mostrar que é possível fazer humor mais elaborado e obter bons índices de audiência. Se isso acontecer, é bem provável que muita gente dentro da emissora fique (mais) irritada.

No Twitter: @telaplena