"A Dona do Pedaço": é homofobia Cássia sofrer por Agno ser gay?

Foto: Divulgação/TV Globo)

Por Elisa Soupin (@faleparaelisa)

Nesta semana em ‘A Dona do Pedaço’, Cássia (Mel Maia) resolveu confrontar o pai quanto à afirmação da mãe Lyris (Deborah Evelyn) de que ele é gay. Agno (Malvino Salvador), que já saiu do armário para todos os personagens da novela, negou a homossexualidade à filha, que disse: "Ainda bem que você não é gay, eu ia sofrer muito".

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A fala não pegou bem e, nas redes sociais, muita gente questionou a reação da adolescente, considerada um desserviço, já que a homossexualidade não deveria ser motivo de tristeza para ninguém, né?






A reação ruim da adolescente, no entanto, é muito mais comum do que se pode imaginar. Na realidade, pode ser até pior, explica a terapeuta Denise Figueiredo, que há 25 anos atua como especialista em terapia de casal e família.

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"Existe um movimento que traz um pensamento mais aberto, mas a aceitação ainda não é tão tranquila. Uma adolescente que viveu a vida inteira com o pai achando que ele é uma coisa e de repente apresentam para ela algo diferente daquilo que ela conhecia pode entrar em choque e esse é um sentimento legítimo. Nesse momento, ela pensa: quem é esse pai com quem eu me relaciono? Ele mentiu para mim o tempo todo? Como pude não perceber? É um momento de dor", explica Denise.

Vamos cooperar, Lyris

Outro fator que pode complicar a aceitação e a forma como Cássia lida com o pai é o fato dele ter acabado de sair de casa, deixado a família de forma abrupta e dela ter sabido da sexualidade de Agno por meio de um rompante da mãe, Lyris, que tem feito de tudo para colocar a jovem contra o pai. Longe da gente defender o Agno, mas Lyris não está colaborando.


Denise explica que o ideal seria que a iniciativa de ‘sair do armário’ tivesse partido do próprio pai, mas que casos como o da novela, infelizmente, não são incomuns.

"Isso acontece com muita frequência. Quando uma pessoa é deixada por outra por uma relação homoafetiva, todo o sentimento de choque e medo que ela tem vem à tona e muitas vezes a pessoa quer se vingar, revelando aquilo como forma de envergonhar o outro, destruindo a relação daquela pessoa com toda a rede de contatos. Quando isso acontece com os filhos, é muito prejudicial à criança, que é privada de ter aquela conversa com o pai em um momento mais apropriado, em que a parte envolvida escolha conversar", explica.

Novela da vida real teve texto melhor

O jornalista Daniel Silveira e a filha Beatriz Silveira (Foto: Arquivo Pessoal)

O jornalista Daniel Silveira, de 35 anos, já era separado da mãe de sua filha Beatriz Silveira, de 17 anos, desde que ela era criança e, na adolescência da jovem, quando começou um relacionamento sério com um homem, decidiu abrir o jogo.

"Quando ela tinha uns 11 anos, sempre falava que eu tinha que casar. Certo dia, eu disse brincando que, se um dia eu casasse, seria com um homem. Ela achou estranho, mas não insistiu no assunto", conta ele, que, até esse momento não sentia que deveria dividir com ela sua vida amorosa.

"Quando comecei a namorar sério, ela estava com 13 anos e achei que era hora de contar. Preparei um discurso, pensei a semana inteira como seria. Falei: 'Bia, lembra que uma vez eu te disse que casaria com um homem? Você achou que era brincadeira?' e Ela: 'Não!'. A resposta dela foi tão espontânea que desarmou o discurso. Disse para ela que eu estava namorando sério e ela disse que já sabia, que sentia a minha energia perto do meu ex. Questionei o papo de energia e ela: 'pai, eu saí do seu pinto, como não vou sentir sua energia?'", ri ele.

"Pensava que meu pai podia ser gay, porque não via ele pegando nenhuma mulher. Quando ele me apresentou o ex, como amigo dele, eu senti uma conexão entre eles, e pensei que eles estavam ficando. Até que um dia ele me contou. Depois que ele se assumiu pra mim, nossa relação até melhorou. Acho que se ele fosse hétero, eu ia achar meio estranho. Ele me conta dos namoridos, dos casos dele. Acho o máximo ter um pai gay e todos meus amigos também acham. Só queria ter sabido antes", diz Bia.

Desde então, Bia conviveu com o hoje ex-namorado do pai, de quem gostava muito e com quem se dava super bem.

"Ela passou a dizer para todos os amigos que tinha dois pais e uma mãe. Desfilava com nós dois e nos apresentava para todo mundo. Quando terminamos, ela sofreu muito e me disse 'Eu tinha vocês como um exemplo de amor para mim'. O namorado que ela tem hoje é parecido com o meu ex, acho que ela realmente procurou para si coisas que via na minha relação com ele", conta Daniel, emocionado.

Denise Figueiredo esclarece que, em casos como o de Bia e Daniel, contar pode ser muito bom.

"Em uma situação familiar em que o pai dá sinais e o filho já intui aquilo, saber a verdade pode ser muito confortável. Dá sentido a fatos anteriores, acaba com as dúvidas e é muito bom para a relação, se dá de maneira positiva", explica.

Resta torcer por um final como esse da história de Agno e Cássia ir pelo mesmo caminho.