Em Nova York, a ansiedade com o coronavírus contamina mais rápido que o próprio vírus

Nova York (EUA) virou um filme de terror? (Foto: Getty Images)

Por Renan Botelho (@renan_botelho)

"É assim que começa nos filmes!. A frase foi dita por um jovem millennial em um dos corredores do mercado onde eu estava em Long Island City, a quinze minutos de Manhattan nos EUA, na noite da última quinta-feira (12). O comentário parece exagerado, mas viver as consequências da pandemia do coronavírus em Nova York tem, sim, um apelo quase hollywoodiano.

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Afinal, não existe outra geração que foi tão bem servida de histórias que transformaram esta cidade em um cenário apocalíptico como a nossa, o que talvez explique parte do pânico que tomou conta da cidade nas últimas 72 horas. 

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Minha missão era apenas conseguir um queijo parmesão para uma receita de risotto. Cozinhar parecia ser uma ótima ideia para se distrair da presença massiva do coronavírus nas redes sociais, na televisão e nos jornais. Mas estava errado. O vírus, que vinha crescendo nos noticiários nas últimas semanas, simplesmente tornou-se um tema onipresente depois que 154 casos foram confirmados na cidade. As ruas ficaram vazias, pontos turísticos como a Times Square perderam sua popularidade, e eu acabei me perguntando: 'Para onde foram todas as pessoas?'. Às compras. 

O fim do papel higiênico em NY!

Tchau paple higiênico (Foto: Getty Images)

Os corredores do mercado estavam cheios de consumidores entre 20 e 40 anos fazendo compras do mês e lotando seus carrinhos com pacotes de pasta de dente, enlatados e congelados. Uma contradição ao estilo de vida dos nova-iorquinos, que estão acostumados a comprarem alimentos apenas para a semana - culpa dos apartamentos pequenos de Manhattan. Eu, que ainda tentava encontrar o bendito queijo, me vi preso em uma das alas, esperando as outras pessoas terminarem sua caça às prateleiras para conseguir me movimentar. Exatos sete minutos na espera, observando o casal com máscaras na minha frente que agia como se estivesse em uma competição da televisão aberta, e pronto, fui contaminado pela pânico do local. 

Peguei o primeiro carrinho que vi pela frente e saí imitando o que os outros estavam fazendo: comprando tudo o que parecia ser necessário para sobreviver caso o monstro de 'Cloverfield' (2008) surgisse na cidade ou, então, o tsunami congelador de 'O Dia Depois de Amanhã' (2004) - Em tempo, os filmes não mostram que o primeiro produto a sumir das prateleiras do mercado é o papel higiênico. Não se encontra nem mais em lojas online. 

As orientações do governo eram para que as pessoas deixassem produtos como máscaras e álcool em gel reservados para quem realmente precisasse, mas por conta da divulgação boca-a-boca, esses já haviam desaparecido das farmácias mesmo antes da OMS oficializar a pandemia do COVID-19 e do prefeito Bill de Blasio declarar estado de emergência. 

A ansiedade das ruas e das redes sociais é gigante e alimentada pela boataria. No caminho de volta para casa, ainda tentando entender o que tinha acontecido, ouvi pelo menos três pessoas diferentes espalhando informações inverídicas sobre o coronavírus que só favorecem ao caos - um radialista conservador chamado Alex Jones, por exemplo, foi processado após vender no seu site, falsos suplementos que supostamente 'curariam' a doença. Isso sem falar na hashtag #coronapocalypse que se tornou o assunto mais comentado no Twitter, turbinada por falsas informações sobre o tema. 

Depois dessa experiência, ficou impossível não imaginar como estarão os mercados, as ruas e a população de uma cidade tão mista e energética como Nova York, caso a crise dure por muito mais tempo e a ansiedade continue a contaminar as pessoas como faz agora: espalhando-se mais rápido que o próprio coronavírus. 

Sem SUS

Em Nova York, as preocupações com a infecção somam-se a outros problemas. O medo da doença em si é quase igual ou menor que o receio pelas contas dos hospitais, por exemplo. Na teoria, o teste para o COVID-19 pode ser feito gratuitamente em clínicas autorizadas, mas esta é uma informação pouco divulgada e já existem casos de pacientes que tiveram o pedido pelo teste negado. E daí você pode pagar até 1,2 mil dólares só para saber se está infectado. De acordo com o 'Business Insider', metade dos americanos não têm condições de arcar com o tratamento para o coronavírus. 

Sem CLT

Outra preocupação é com o trabalho. Aqui o funcionário é normalmente pago pela hora trabalhada e, caso fique doente, ele não recebe o seu salário. Se a ordem é ficar em casa ao apresentar os sintomas da doença, como eles irão pagar as contas? 

Em uma tentativa de conter que o vírus se espalhe, o governador Andrew M. Cuomo proibiu eventos que reúnam mais de 500 pessoas no mesmo lugar. Escolas cancelaram as aulas, shows foram adiados, museus, missas, bares e estádios fecharam as portas, e a Broadway entrou em recesso até o próximo dia 12 de abril - todos esses com funcionários que não irão receber pelos dias não-trabalhados. 

Uma pesquisa divulgada pelo Deutsche Bank mostrou que 15 milhões de americanos podem perder o emprego caso a crise se arraste. Em Nova York, o prefeito Bill de Blasio já estuda projetos que possam proibir possíveis despejos por dívidas de aluguel no futuro. 

Transporte público no álcool em gel

Os trens e ônibus passaram a ser higienizados a cada 72 horas, mas a orientação é para evitar os transportes públicos e utilizar a boa e velha bicicleta. Na última quarta-feira (12) o sistema responsável pelas linhas notou uma queda de 20% dos 5,5 milhões de usuários diários do metrô nova-iorquino. 

Já dentro das estações, o clima é de tensão. Observei uma mulher que ameaçou espirrar dentro do trem nesta semana e, antes mesmo do espirro se completar, todos os olhares já estavam virados para ela em tom de julgamento.

O prefeito disse que não pretende fechar as linhas de metrô e ônibus, mas não descarta tomar essa decisão caso seja necessário. 

Xenofobia

Uma mulher asiática de 23 anos levou um tapa na cara em Manhattan e sofreu ofensas xenófobas na última semana, quando o agressor a culpou pelo coronavírus. Ela, infelizmente, não foi um caso isolado. Um homem asiático de 59 anos levou um chute nas costas em Upper East Side, o bairro nobre da cidade, e um outro homem asiático de 47 anos foi empurrado na rua, no Queens. 

As lojas do bairro de Chinatown noticiaram uma queda de 50% das suas vendas desde que o coronavírus começou a surgir nos noticiários. A prefeitura teve que emitir um comunicado lembrando que o problema é mundial e pedindo respeito a comunidade asiática da cidade, que soma mais de um milhão de habitantes.