'99% dos roteiros que recebo são uma me*#@', diz Leandro Hassum

(Imagem: divulgação Warner)

Estrela de filmes que ultrapassaram a rara marca, para as produções nacionais, de mais de 1 milhão de ingressos vendidos, como ‘Vestido Pra Casar’ (2013), ‘O Candidato Honesto’ (2014) e a franquia ‘Até que a Sorte Nos Separe’ (cujos três longas somados venderam mais de 10,6 milhões de entradas), Leandro Hassum é o comediante mais requisitado do cinema brasileiro.

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“Recebo, em média, quatro ou cinco roteiros por semana, entre filmes e séries”, conta ao Yahoo!, em entrevista exclusiva. “99% das vezes são uma merda”, dispara, sem meias palavras. “Mas às vezes até num roteiro que é uma merda você olha e vê um caminho. Vejo que tem piadas que estão quase lá, quase entrando no gol, mas tem um caminho ali. Eu já peguei filme que eu falava ‘cara, tá mal escrito, mas tem um caminho. Vamos juntar e pegar uma pessoa pra fazer?’. Às vezes deu certo e às vezes não deu.”

“O que me atrai é sempre uma boa história. E uma história em que eu veja que vou me divertir e poder colaborar e me divertir contando”. São esses elementos que encontrou em ‘Chorar de Rir’, sua nova comédia, que chega aos cinemas nesta quinta-feira.

Hassum interpreta Nilo Perequê, humorista que entra em crise existencial ao perceber que nunca terá o mesmo respeito entre seus pares que os atores dramáticos possuem. Disposto a mudar sua imagem, ele convence um renomado diretor teatral a ajudá-lo a encenar ‘Hamlet’, de William Shakespeare, uma das maiores tragédias já escritas. Ser ou não ser, eis a questão.

O personagem de Hassum tem uma rápida cena no início do filme na qual aparece trajado de Jerry Lewis na versão original de ‘O Professor Aloprado’. Apresenta um programa no qual interpeta vários tipos, como já fizeram Chico Anysio, Jô Soares e Tom Cavalcante. Usa o humor físico e de expressões elásticas tal qual Jim Carrey. Se veste como um dos Blues Brothers numa cena. Em outra, canta e dança parodiando Gene Kelly em ‘Cantando na Chuva’.

Como se vê, ‘Chorar de Rir’ é, antes de qualquer coisa, uma grande homenagem à comédia. Chance do ator, ele próprio um consumidor ávido do gênero, reverenciar seus ídolos. Hassum é tão fã de Jerry Lewis, por exemplo, que tem uma tatuagem do astro, com a caricatura do comediante ao lado de um autográfo que pediu para Lewis assinar em seu braço durante as filmagens de ‘Até que a Morte Nos Separe 2’, quando realizou o sonho de contracenar com ele.

“Ele sempre foi muito presente na minha vida, imitava-o sem saber que estava imitando”, lembra Hassum, que diz ter ficado ainda mais vidrado no astro norte-americano por conta de outro fã ardoroso, Marcius Malhem, seu antigo parceiro no programa de TV ‘Os Caras de Pau’. “Eu mesmo não tinha essa noção de como esse cara influenciou a minha carreira. Porque na verdade me espelhava em Jim Carrey, Steve Carell, Will Ferrell, que são todos vindos de um universo Jerry Lewis”, analisa.

“Tive a honra e o prazer de trabalhar com algumas das minhas referências, como Renato Aragão, Chico Anysio, Tom Cavalcante”, enumera. “Não tive a honra de trabalhar com Roland Golias, que sempre foi uma referência. Ele se foi antes que eu tivesse essa oportunidade”, lamenta.

Leandro Hassum também diz olhar para seus sucessores, como fonte de inspiração. “Acho o Fábio Porchat um cara brilhante no seu trabalho, acho que ele faz um tipo de humor que é inimitável. Coisas que só são engraçadas com ele fazendo. É o mesmo caso da Tatá Werneck”, elogia. “Não acredito num humor novo. Isso é papo velho”, brinca. “O que acredito é numa velocidade diferente de fazer a piada”.

Comédia vs Drama

Toniko Melo, diretor de ‘Chorar de Rir’, teve a ideia para o argumento do filme quando viu na televisão uma entrevista de Meryl Streep no início dos anos 2000. Já com dois Oscars na bagagem e diversas indicações ao Oscar, a atriz dizia que finalmente se via preparada para estrelar uma comédia. A declaração soou como uma epifania para Melo, que, com o longa, quer defender que o humor não deve ser visto como uma expressão cultural secundária.

Caíto Mainer, famoso por ser o apresentador do fênomeno da internet ‘Choque de Cultura’ e que praticamente repete o papel no filme, segue a mesma linha. “Essa crítica que o filme faz a quem encara a comédia como algo menor é bem interessante”, afirma. “Um dia desses ouvi alguém falar que perguntaram qual é o limite do humor, e ele respondeu ‘mas, primeiro deixa eu perguntar para você: humor é arte? Porque, se for, qual é o limite da arte?’”

Sua colega de elenco Carol Portes, da trupe do ‘Tá no Ar – A TV na TV’, conta que a pressão pode às vezes vir também de dentro. “Eu já me cobrei muito. Até que a hora em que falei ‘tá tudo bem’. Eu amo fazer comédia. Percebi que posso ser feliz e trabalhar com o que gosto”, diz. “Tem um pouco desse preconceito, mas agora isso está mudando. Principalmente quando é um humor mais crítico, que chamam de humor político. Aí a gente fica justificado, fica embasado”, analisa, na esteira dos quadros de sucesso do programa semanal da Globo.

“Mas isso não quer dizer que, sempre que você fizer humor, você sempre tem que fazer refletir”, ressalta. “Você pode ser só engraçado e ponto. Não tem problema, não precisa dessa cobrança nem de nós nem do público. Acho que pode ser mais leve”. Ao seu lado durante a entrevista, Mainer saca o exemplo perfeito: “Eu me amarro em ver Vídeo Cassetada. E não tem coisa mais sem crítica que Vídeo Cassetada. É só alguém caindo ou algo dando errado”, diverte-se.

“Tem uma frase que eu sempre digo e sempre vou repetir: o humor é o filtro da nossa vida”, conclui Leandro Hassum. “A hora que não tiver humor, deu merda. O que está acontecendo hoje com o planeta, e que a gente tem que começar a se cuidar muito, é que não se está tendo mais humor para rir de algumas situações trágicas. O tragicômico precisa encontrar seu lugar novamente, porque senão vai ficar muito chato esse mundo”.