'7 prisioneiros': Filme com Rodrigo Santoro e Christian Malheiros traz reflexões sobre poder, desigualdade, exploração e conflitos morais

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Rodrigo Santoro não tinha planos de trabalhar no começo de 2020, mas não conseguia tirar da cabeça o papo que tivera com o diretor e roteirista Alexandre Moratto. A sensação foi de ter sido atropelado pela história que tinha nas mãos.

— Fiquei muito abalado, comovido. Comecei a pesquisar imediatamente — diz Rodrigo.

O ator, então, organizou a agenda para entrar no filme “7 prisioneiros”, que estreia no próximo dia 11. O longa, vencedor do prêmio de melhor filme estrangeiro Sorriso Diverso do Festival de Veneza (uma das premiações paralelas do evento), conta a história de Mateus, um jovem pobre do interior de São Paulo que aceita um emprego na capital. Ele e outros colegas chegam a um ferro-velho, têm os documentos confiscados pelo administrador, Luca, se veem cheios de dívidas por conta de despesas com transporte, alojamento e comida e começam a viver numa situação análoga à escravidão.

O rapaz passa a bolar estratégias para sair dessa condição, o que lhe rende uma série de conflitos éticos. O protagonista do filme, que chega aos cinemas e também à Netflix, é vivido por Christian Malheiros, estrela de “Sócrates” (2018), o primeiro filme de Alexandre Moratto. A produção, aliás, lhe rendeu uma indicação ao prêmio de melhor ator no Independent Spirit Awards, o Oscar do cinema indie. A Rodrigo coube o papel do algoz Luca.

— É aquele tipo de história que te persegue. Tenho cada vez mais oportunidades de trabalhar no mercado internacional, mas sempre estive conectado às histórias, onde quer que elas estejam. Independentemente de eu estar contando essa narrativa no Brasil, até porque ela poderia acontecer em qualquer lugar do mundo. Os dados dizem que são 40 milhões de pessoas hoje no planeta nessa situação (análoga à escravidão) — diz Rodrigo. — E o personagem me fisgou. Era uma sensação de atração e repulsa.

Ferida aberta

Christian, ator que Rodrigo diz ter enorme “ força e carisma no silêncio”, também teve os mesmos sentimentos. Quando foi apresentado a Mateus, logo topou embarcar no projeto por enxergar que na exploração atual no Brasil há o agravante da herança colonial escravocrata. À medida que o trabalho foi se desenrolando, a aflição foi crescendo.

— Quanto mais entramos nesse processo, vemos o quanto é cruel. Às vezes, dá vontade de desistir. Será que quero tocar nessa ferida? Será que dou conta? — diz Christian, cujo personagem toma decisões que o aproximam do algoz e incrementam as discussões do filme sobre moral e relações de poder. —Porque não sou uma pessoa que foi escravizada, estou me emprestando para aquilo. Será que tenho estofo? Foram vários questionamentos.

Alexandre Moratto começou a pensar nesse filme antes mesmo de terminar “Sócrates”. Viu uma reportagem e ficou obcecado com o tema. Dali, saiu o roteiro do longa, em parceria com Thayná Mantesso. A produção ficou a cargo de Fernando Meirelles, da O2, que tinha finalizado “Sócrates” e esperava outras oportunidades para trabalhar com Moratto mais a fundo. Uma ironia do destino, diante da forma como se deu o primeiro encontro dos dois.

— Conheci o Fernando quando eu tinha 14 anos. Estava no ensino médio em São Paulo, e a filha dele estudava no mesmo colégio. Ele exibiu “Cidade de Deus” na escola e conversou sobre o filme. Depois, tinha uma multidão de jovens em volta dele. Fiquei esperando a minha vez e falei: “Sou Alexandre Moratto e vou ser um cineasta.” Ele deu um sorriso simpático, ficou uns dez minutos me dando dicas. Esse sonho de infância acabou se tornando realidade 15 anos depois — conta o diretor, que hoje vive nos Estados Unidos.

Unidos na questão ambiental

O fato de o filme “7 prisioneiros”abordar um aspecto da desigualdade faz com que ele se encaixe perfeitamente no portfólio da O2, diz Fernando Meirelles, o diretor por trás de “Cidade de Deus”.

— Fizemos e ainda estamos fazendo muitos projetos sobre desigualdades e temas correlatos. É um universo que nos incomoda. Mas gosto muito de “7 prisioneiros” porque ele não é só sobre oprimidos e opressores, mas também sobre dilema moral. Grande parte dos políticos brasileiros vai se identificar muito com o Mateus (personagem de Christian Malheiros). O poder nos faz flexibilizar ideias e princípios. E essa discussão é um grande trunfo do filme.

Meirelles tem trabalhado a temática do meio ambiente (“Estou terminando um roteiro sobre a crise do clima, é um projeto internacional grandão”), algo que, para ele, não deixa de estar conectado com as desigualdades.

— Nos próximos anos, vai ter muito mais gente vulnerável por causa de seca, enchente. Quando se está vulnerável, você está sujeito a ser explorado. Não necessariamente colocado atrás de uma grade, mas a trabalhar por US$ 2 ao dia. Infelizmente, vai acontecer uma “mateusização” do mundo — reflete Meirelles.

No mesmo embalo segue Alexandre Moratto, que voltou seus esforços criativos para retratar o desmatamento da Amazônia e as iniciativas comunitárias para enfrentar o problema sem a ajuda do governo. O roteirista e diretor passou seis meses em Manaus para pesquisar e desenvolver um argumento sobre o assunto.

— Eles estão em defesa de suas casas, famílias e comunidades — diz Moratto. —Essas questões do aquecimento global e do desmatamento na Amazônia, algo totalmente horripilante, são assuntos que me interessam muito e estou correndo atrás para roteirizar. (Talita Duvanel)

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