5 tipos de ansiedade e depressão sobre os quais pouco falamos

Foto: Divulgação

Por Juliette Virzi
The Mighty

Quando pensamos em ansiedade e depressão, geralmente os primeiros adjetivos que nos vêm à mente são “estressado” e “triste”. Embora estas palavras não estejam tecnicamente “erradas”, elas não transmitem a realidade sobre como é conviver com essas doenças psicológicas.

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Se nós queremos aumentar a conscientização em relação à saúde psíquica, precisamos nos aprofundar na realidade da vida com ansiedade e depressão. Ou seja, definir e compartilhar exemplos reais de como é conviver com diferentes tipos de ansiedade e depressão – alguns dos quais você pode até ter experimentado, sem saber que havia um nome para defini-los.

Para destacar alguns dos tipos menos conhecidos de ansiedade e depressão, contamos com a ajuda de Deborah Serani, psicóloga, professora da Adelphi University e autora premiada do livro ‘Living with Depression’ (Viver com Depressão).

Entenda 5 manifestações da ansiedade e da depressão:

1. Alexitimia

Se você nunca ouviu falar em alexitimia, não está sozinho. Na verdade, este não é um diagnóstico oficial reconhecido no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM). Mas segundo a Dra. Serani, pesquisas sugerem que ela afeta aproximadamente 8% dos homens e 2% das mulheres num espectro que vai de leve à moderado e grave.

O termo “alexitimia” foi cunhado pelo psiquiatra Peter Sifneos em 1973 para se referir a pacientes que têm dificuldade de reconhecer emoções. Serani diz que crianças e adultos com alexitimia lutam para entender como os outros pensam e se sentem, bem como entender suas próprias experiências com a emoção.

“Geralmente uma pessoa com alexitimia não consegue nomear bem os seus sentimentos, e costuma unir muitos tipos de experiências diferentes em uma frase,” disse Serani ao The Mighty. “Ela pode dizer ‘Estou cansada’ ou ‘Me sinto triste’, mas quando pedimos que descreva melhor do que está sentindo, isso se torna uma tarefa impossível. Ela pode dizer ‘É difícil fazer isso’, ou ‘Eu não sei como explicar melhor’”.

A disfunção no processamento das emoções está associada a uma variedade de condições de saúde mental, incluindo depressão, transtorno do estresse pós-traumático e esquizofrenia. Sobre a forma como a alexitimia se manifesta em pessoas com depressão, Serani disse:

“Quando alguém com alexitimia diz: ‘Estou deprimido’, isso pode significar que ele está muito triste. No entanto, também pode significar que está se sentindo frustrado, solitário, decepcionado, pesaroso, vazio, fatigado, perdido, desamparado. Grande parte da depressão pode ser reduzida com alterações no pensamento e no sentimento. Então, é vital que uma pessoa que tenha depressão [e alexitimia] entenda melhor os detalhes dos seus próprios sintomas para saber quais técnicas deve colocar em ação.

Embora aprender a ampliar a consciência emocional deva ser difícil para alguém com depressão e alexitimia, Serani afirma que a psicoterapia pode ajudar muito.

“A chave para tratar a depressão é aprender a identificar os diferentes tipos de estados sentimentais para que possamos resolver o problema com precisão,” disse ela.

2. Transtorno de adaptação

O transtorno de adaptação é uma condição de curto prazo que resulta da incapacidade de uma pessoa lidar ou se adaptar a uma grande mudança em sua vida ou a uma fonte significativa de estresse.

A condição pode ser chamada de “depressão situacional”, porque a pessoa que vive com ela costuma exibir sintomas de depressão, como sentimento de desesperança e perda de interesse em atividades que normalmente apreciava. Embora existam algumas semelhanças com depressão clínica, as pessoas com transtorno de adaptação geralmente não experimentam os sintomas “graves” e prolongados da depressão, como pensamentos suicidas, alterações no sono e no apetite, etc.

Kayla Balserak, colaboradora do Mighty, sabe como é conviver com o transtorno de adaptação. Em seu texto ‘Adjustment Disorder: The Mental Illness We Don’t Talk About’ (Transtorno de Adaptação: A Doença Mental Sobre a qual não Falamos), ela escreveu sobre sua mudança da cidade de Tucson, Arizona, para outra muito menor. Um dos sintomas que ela sentiu mais intensamente foi a falta de motivação.

“Havia momentos em que eu sentia uma onda de motivação para ir à academia ou fazer alguma coisa… mas ela desaparecia com a mesma rapidez com que havia chegado,” escreveu ela. “Eu não gostava mais de fazer as coisas que costumava fazer em Tucson. Eu estava extremamente infeliz e me sentia muito sozinha”.

O transtorno de adaptação tem tratamento, mas é importante ser acompanhado por um profissional. Se não for tratado, ele pode se transformar em uma depressão ou em outros distúrbios do humor em algumas pessoas.

Balserak recebeu tratamento para o seu transtorno de adaptação e melhorou bastante. Ela disse:

“Comecei a fazer terapia e também passei a tomar medicamentos (principalmente para a minha ansiedade e depressão). Comecei a dar aulas de spinning em uma academia local para sair de casa. E também fazer trabalhos voluntários, conhecer pessoas. Na terapia, falamos sobre porque tive dificuldade para me adaptar à vida nesta cidade pequena, e a resposta é simples: sinto falta de Tucson e da minha vida antiga. O meu ‘normal’ mudou”.

Se você passou por uma perda ou uma mudança de vida recentemente, você não está sozinho. Nós queremos incentivá-lo a buscar a ajuda de um profissional de saúde qualificado na sua região. Mudanças são difíceis, e você não precisa enfrentá-las sozinho.

3. Anedonia

Se você já teve depressão e dificuldade para sentir prazer, pode ter experimentado um caso de anedonia, mesmo que não soubesse que aquela sensação tinha um nome. Embora não seja um “tipo” oficial de depressão, a anedonia é um sintoma comum em pessoas deprimidas.

De acordo com Serani, a anedonia se refere à perda do prazer ou interesse por experiências que traziam felicidade. Este sintoma da depressão está associado a problemas no circuito de recompensa do cérebro.

A anedonia se manifesta de duas maneiras: fisicamente e socialmente. A anedonia social pode roubar a alegria de passar um tempo com pessoas com quem você geralmente gosta de estar, enquanto a anedonia física pode fazer com que seus alimentos preferidos percam o sabor, e pode fazer com que o sexo se torne insatisfatório.

“Eu luto todos os dias contra a anedonia – a incapacidade de sentir prazer,” escreveu Jeannette Whalen, colaboradora do Mighty. “Alguns dias eu sinto vontade de ser mais feliz. Mas não tenho a habilidade de sentir. Tenho zero emoções”.

Em alguns casos, medicamentos psiquiátricos podem favorecer o surgimento da anedonia. É difícil dizer se ela é decorrente da depressão ou da medicação, motivo pelo qual Serani enfatiza a importância de manter um diário dos seus estados mentais diários com seu médico.

“Conforme a depressão melhora, geralmente a anedonia diminui. Tipicamente, os medicamentos reduzem a depressão e, como um ganho secundário, combatem o sintoma. Por outro lado, há casos em que a medicação pode favorecer o surgimento da anedonia. É fundamental prestar muita atenção ao seu humor enquanto está fazendo uso da medicação. Se você se sentir menos feliz ou notar perda de prazer ou interesse em fazer coisas que lhe traziam felicidade, pode ser preciso alterar a dosagem, o medicamento, ou buscar tratamentos alternativos”, diz Jeannette Whalen.

Se você está lutando contra a anedonia, é importante buscar ajuda – tanto das pessoas que você ama quanto de profissionais de saúde. Alan Eisenberg, colaborador do Mighty que convive com a anedonia, tem algumas palavras de incentivo para pessoas que estejam apoiando alguém que sofre com a anedonia.

“Se você conhece alguém que parece estar completamente desinteressado e desmotivado, mas já enfrentou situações de estresse, ansiedade e/ou depressão, não desista desta pessoa. Eu certamente gostaria de voltar a sentir o que sentia, mas também entendo o que está acontecendo comigo, e acordo todos os dias pronto para enfrentar a anedonia. Na maioria dos dias eu venço a batalha com a ajuda de pessoas que se importam comigo. Acho que isso é tudo que eu posso pedir nesse momento”.

4. Transtorno depressivo persistente

De acordo com Serani, o transtorno depressivo persistente (previamente chamado de transtorno distímico ou distimia) é a experiência crônica, de longo prazo de um humor depressivo. Para adultos, isso geralmente significa sentir pelo menos dois anos de depressão crônica, e para as crianças, um ano.

Embora não seja tão intenso quanto a depressão, é caracterizado por um humor levemente deprimido que se repete todos os dias. Isso é algo que Jody Betty, colaboradora do Mighty, escreveu em seu texto ‘What It’s Like Living With the Weight of Persistent Depression’ (Como é Conviver com o Peso do Transtorno Depressivo Persistente). Ela disse:

“Em poucas palavras, a distimia é a depressão crônica. Ela é considerada uma forma mais ‘leve’ de depressão do que o transtorno depressivo maior, mas pode ser tão, ou até mais, debilitante, já que geralmente os sintomas duram mais tempo.”

“Alguns dias eu me sinto cansada, velha e frágil, como se a brisa mais leve fosse capaz de me derrubar, ou o toque mais suave pudesse me despedaçar. Para resumir, minha distimia faz com que sinta que estou caminhando por aí segurando um guarda-chuva pesado, que faz uma sombra sobre a minha cabeça e me impede de ver os raios de sol”.

O transtorno depressivo persistente corresponde a um terço dos pacientes que buscam tratamento para a depressão, de acordo com Serani. Sintomas típicos incluem evitar interações sociais, dificuldade de concentração, apatia, fadiga e sentimento de inutilidade.

Se você acredita que pode estar enfrentando um transtorno depressivo persistente, converse com um profissional de saúde. Segundo Serani, a intervenção terapêutica costuma envolver sessões de psicoterapia, onde o paciente aprende a identificar os sintomas depressivos, redirecionar percepções sobre seus estados de humor, construir resiliência para reduzir os pensamentos negativos e melhorar a capacidade de resolução de problemas. Em alguns casos, os médicos também podem receitar medicamentos.

5. Emetofobia

A emetofobia é um medo intenso de vomitar, geralmente desencadeado por uma experiência traumática relacionada ao vômito, no passado. Assim como todas as fobias, a emetofobia é caracterizada por uma resposta ansiosa e, em alguns casos, pode ser uma manifestação do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).

De acordo com Ken Goodman, assistente social clínico, alguns indivíduos com emetofobia ficam ansiosos diante do simples fato de ver a palavra com “V”. Ele diz que pessoas com estas condições costumam desenvolver “comportamentos protetivos”, como evitar novos alimentos, fechar os olhos durante cenas de vômito na televisão e em filmes, e cozinhar demais a comida para matar potenciais patógenos – tudo para evitar vomitar ou testemunhar o vômito de outras pessoas.

Fobias como a emetofobia podem parecer “bobas” para algumas pessoas, mas é importante lembrar que elas são debilitantes para quem é afetado por seu sintomas. Isso é algo que Claire Fox, colaboradora do Mighty, mencionou em seu texto ‘The Reality of Emetophobia and How I’m Beating It’ (A Realidade da Emetofonia e o que Estou Fazendo para Enfrentá-la):

“Eu simplesmente não podia estar perto de alguém, amigo ou não, que tivesse vomitado ou que corria o risco de vomitar. Essa não é a reação padrão de quando alguém diz ‘Eca, isso é nojento’. Desde que eu me lembro, qualquer caso de vômito faz com que eu mergulhe em um pânico cego, e muitas vezes fico tão perturbada que chego a perder a consciência.”

“Houve um momento em que eu me achava diferente e acreditava que ninguém poderia me ajudar, porque eu era uma ‘louca’ que surtava por algo tão ridículo. Durante anos isso afetou a minha vida de diversas formas, incluindo meus relacionamentos, minha vida social, e a forma como eu interajo com os outros”.

Embora esta condição de ansiedade possa afetar drasticamente a qualidade de vida da pessoa, é possível tratar a emetofobia. O tratamento costuma envolver a terapia cognitivo-comportamental e terapia de exposição e prevenção de resposta – esta última é uma abordagem comum para lidar com o TOC. Nos dois tipos de tratamento, um profissional de saúde mental vai trabalhar as crenças equivocadas do paciente e reduzir os comportamentos de fuga.

Se você está enfrentando uma inabilidade de sentir prazer por causa da anedonia, tem dificuldades para identificar suas emoções devido à alexitimia, ou está lutando contra algo totalmente diferente, você merece apoio. A ansiedade e a depressão podem se manifestar de diversas formas, e se você estiver precisando de ajuda, não hesite em conversar com alguém que você ama e com um profissional de saúde.